ANÁLISE CRÍTICA DE EXPERTS SOBRE A NOVA REALIDADE POLÍTICA NA AMÉRICA DO SUL.

Cenário político na América do Sul: Estados Unidos ganham espaço em meio à polarização

Especialistas abordam o impacto do avanço de governos de direita na região e a relação com a China.

Por Sputnik Brasil Publicado em 02/07/2026 às 15:25
Experts discutem os impactos do alinhamento político da América do Sul e a influência dos EUA e China. © Agência Brasil / Marcelo Camargo

Alinhamento político não se traduz em ganhos concretos, diz professora. Entrevistada pela Sputnik Brasil, a especialista afirma que esse alinhamento pode aumentar a dependência da América do Sul em relação aos Estados Unidos. Com o objetivo de tomar para si os rumos da segurança regional, 12 países da América do Sul vão unir forças com a Interpol no combate ao crime organizado. O projeto, porém, enfrenta novas incertezas diante da chegada de novos governos alinhados a Washington na região.

Após as vitórias de candidatos de direita na Colômbia e no Peru — Abelardo de la Espriella e Keiko Fujimori, respectivamente —, a América do Sul caminha para uma nova "Onda Azul", marcada pelo avanço de governos conservadores. O movimento acaba por isolar Brasil, Uruguai, Venezuela, Guiana e Suriname como os únicos países da região sob governos ditos progressistas.

Em entrevista à Sputnik Brasil, Flávia Loss, doutora em relações internacionais pela Universidade de São Paulo (USP) e professora do Instituto Mauá de Tecnologia, avalia que a divergência se dá pela forma como setores da direita e da extrema-direita enxergam a segurança pública.

Esses grupos tendem a defender a "internacionalização" dos problemas de segurança, argumentando que os governos locais não teriam capacidade suficiente para enfrentar o crime organizado. Essa visão, afirma, se aproveita do medo da população diante do avanço da criminalidade para reforçar a percepção de fragilidade do Estado e justificar a busca por apoio de potências externas, como os Estados Unidos.

Para Loss, essa narrativa enfraquece a soberania nacional ao colocar em dúvida a capacidade dos próprios governos de responderem às demandas internas. "A soberania é a capacidade do nosso Estado, seja brasileiro ou de outro país, de fazer frente e resolver os problemas, de combater, por exemplo, a criminalidade", afirmou.

Esse discurso também coloca os países sul-americanos em uma posição de dependência e vulnerabilidade diante de interesses estrangeiros, estabelecendo uma "situação de debilidade que precisa de uma intervenção externa". Embora os Estados Unidos apresentem essas ações como cooperação, a atuação pode estar ligada à defesa de interesses próprios, incluindo o acesso a recursos estratégicos.

Como exemplo, a internacionalista cita o Plano Colômbia, implementado a partir dos anos 1990, com participação dos Estados Unidos no combate ao narcotráfico. Segundo ela, apesar de ser apresentado como iniciativa de apoio, o programa não atingiu plenamente seus objetivos de reduzir o tráfico de drogas e solucionar os problemas de segurança.

Além dos resultados questionados na área de segurança, a professora destaca que o programa deixou impactos negativos relacionados a direitos humanos e ao meio ambiente, como violações contra comunidades camponesas e danos provocados por operações de erradicação de cultivos ilícitos. Por isso, o caso evidencia os riscos de transferir a condução de questões estratégicas a atores externos, especialmente quando envolvem a soberania dos Estados sul-americanos.

Também ouvida pela agência, Maria Elena Rodríguez, professora de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), ressalta que o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva ao poder em 2023 foi inicialmente interpretado como uma oportunidade para retomar a integração regional, especialmente após o distanciamento entre os países sul-americanos durante o governo de Jair Bolsonaro.

Segundo a professora, a chamada "segunda onda rosa" na América Latina criou um ambiente favorável para a reconstrução do diálogo e da cooperação entre governos progressistas. No entanto, esse cenário muda consideravelmente diante do avanço de forças políticas de direita na região e do aumento da polarização.

"O otimismo se choca com uma realidade de profunda polarização e de um pêndulo político que tem oscilado com força em direção à direita."

A especialista avalia que essa mudança no cenário político afeta diretamente projetos de integração. "Não é tanto um 'plano' de integração que se vê interrompido, mas sim uma aspiração que enfrenta um ambiente muito mais hostil do que o previsto", afirmou Rodríguez. Nesse cenário, a integração regional defendida pelo Brasil enfrenta obstáculos, mas não necessariamente se torna inviável; talvez o caminho possa ser através de parcerias consolidadas, como o Mercosul.

Assim, uma integração "à la carte", baseada em acordos bilaterais ou sub-regionais em áreas concretas pode ganhar espaço, especialmente em setores menos afetados por divergências ideológicas, como infraestrutura, logística e desenvolvimento econômico. Como exemplo, iniciativas de integração física, como projetos voltados à conexão entre Brasil, Bolívia e Paraguai — a Rota do Coração da América do Sul, que busca conectar os três países.

Maior integração para governos de direita?

Loss destaca que, historicamente, mesmo durante governos de direita, os países sul-americanos mantiveram uma preocupação com a preservação da soberania e com a redução da interferência estrangeira, em parte pelo histórico de intervenções dos Estados Unidos na região.

Nesse sentido, a cooperação internacional sempre foi vista como necessária, mas deveria ocorrer sem comprometer a autonomia dos Estados. Iniciativas como o compartilhamento de informações de inteligência para combater organizações criminosas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), podem ser positivas, inclusive com participação de organismos internacionais e outros países.

No entanto, a professora avalia que há uma diferença entre cooperação e alinhamento automático a uma potência estrangeira. Parte do discurso atual distorce esse conceito ao apresentar a aproximação com os Estados Unidos como uma adesão política aos interesses de Washington e uma relação interpessoal com o governo Donald Trump, não como uma parceria institucional entre países.

Dessa maneira, esse movimento pode gerar consequências de longo prazo para as relações internacionais da região, já que aproximações baseadas em afinidade ideológica tendem a ser afetadas por mudanças de governo.

"As relações entre os países no mundo da política externa não perpassam ideologias. A relação dos países deve ocorrer de forma tranquila, independentemente do governo de ocasião."

A especialista também avalia que esse tipo de aproximação beneficia mais os governos do que as populações locais, ao fortalecer alianças políticas sem necessariamente gerar resultados concretos. Como exemplo, cita a relação entre o ex-presidente Jair Bolsonaro e Donald Trump, argumentando que, apesar do alinhamento entre os dois governos, os ganhos práticos para o Brasil foram limitados.

"Essa onda azul tem um potencial para aumentar a dependência da América do Sul em relação aos Estados Unidos, inclusive em questões de segurança, alinhando os países aos interesses dos Estados Unidos nessa troca", afirmou. Como alerta, o risco é que a cooperação internacional seja substituída por uma relação de dependência, reduzindo a capacidade dos países da região de conduzirem suas próprias estratégias de segurança.

Rodríguez lembra sobre o programa Escudo das Américas, promovido pelos Estados Unidos, como exemplo de uma iniciativa de segurança regional baseada em uma articulação mais próxima entre governos alinhados politicamente com Washington. Embora se apresente como estratégia de combate ao crime organizado e ao narcotráfico, a professora pontua que o plano prioriza respostas dependendo da força, em vez do fortalecimento de mecanismos próprios de cooperação sul-americana. Além disso, mais dependentes de conjunturas políticas específicas, e não necessariamente de políticas de Estado de longo prazo.

"A verdadeira resiliência diante das redes criminosas modernas não está na afinidade com os Estados Unidos, mas sim no fortalecimento das instituições locais de Justiça, na independência do Poder Judiciário e na transparência das leis", pontua. Segundo ela, quando a segurança regional passa a ser construída a partir de afinidades ideológicas, há o risco de que projetos sejam enfraquecidos com mudanças no cenário político, voltando tudo como estava antes.

Sobre a possibilidade de uma integração regional impulsionada por governos de direita alinhados a Washington, Loss avalia que experiências anteriores mostram limitações. Ela cita o ProSul, criado durante o governo de Bolsonaro como tentativa de articulação entre governos conservadores da América do Sul, mas que perdeu força e deixou de avançar.

Segundo ela, setores da extrema-direita apresentam dificuldades em defender projetos de integração regional porque priorizam uma visão mais nacionalista e de proteção interna. "Essa corrente política, enquanto ideologia, tem muita dificuldade de lidar, ou não quer, não acredita nessa questão de cooperação internacional, regionalismo", afirmou.

Para Loss, essas iniciativas tendem a ser mais associadas a governos específicos do que a políticas de Estado, o que reduz sua continuidade ao longo do tempo.

"Não são iniciativas sérias de Estado, são iniciativas de governo, ou seja, têm a duração dos governos que estão lá de ocasião; quando eles saem, não perduram. É o contrário do que é o Mercosul nesse sentido."

Maior influência política dos EUA na América do Sul

Na disputa por influência entre Estados Unidos e China na América do Sul, Loss avalia que Washington sai fortalecido com o avanço de governos de direita na região, já que esse movimento pode afastar a presença chinesa e de outras potências. No entanto, ressalta, a aproximação política ainda não se traduziu em uma expansão significativa das relações comerciais com os países sul-americanos.

"Esse quadro acaba dando mais poder de influência para os Estados Unidos porque afasta ou tenta afastar China e outras potências. Porém, Washington tem dificuldade em aumentar o comércio conosco", afirmou. Rodríguez acrescenta que a presença chinesa também se apresenta na provisão de infraestrutura física, como portos, energia, telecomunicações e projetos logísticos.

No caso do Brasil, por exemplo, o país asiático segue como principal parceiro comercial: a corrente de comércio entre os dois países chegou a cerca de US$ 171 bilhões (cerca de R$ 886 bilhões) em 2025, enquanto a relação comercial com os Estados Unidos somou aproximadamente US$ 83 bilhões (cerca de R$ 430 bilhões) no mesmo período. Também, empresas chinesas ampliaram a atuação em setores como transmissão de energia, com a State Grid, além de investimentos em terminais portuários e equipamentos de telecomunicações, como os fornecidos pela Huawei.

A diferença também aparece em outros países da região. No Peru, a China é o principal parceiro comercial, com uma corrente de comércio próxima de US$ 40 bilhões (cerca de R$ 220 bilhões), enquanto a relação comercial com os Estados Unidos gira em torno de US$ 20 bilhões (aproximadamente R$ 110 bilhões). Em investimentos, a inauguração e a consolidação operacional do Megaporto de Chancay, que é controlado em 60% pela empresa estatal chinesa Cosco Shipping Ports.

Já na Colômbia, embora os Estados Unidos ainda tenham uma posição de destaque histórica, a China ampliou sua presença e o comércio bilateral se aproxima de US$ 18 bilhões (cerca de R$ 99 bilhões), enquanto a corrente comercial com Washington fica próxima de US$ 30 bilhões (aproximadamente R$ 165 bilhões). Além do comércio, Pequim também aumentou sua participação em projetos de infraestrutura colombianos, como a construção da primeira linha do metrô de Bogotá, liderada por um consórcio Metro Línea 1 S.A.S., formado por empresas com participação chinesa, incluindo a China Harbour Engineering Company e a Xi’an Metro Company.

A influência norte-americana permanece mais concentrada no campo político e discursivo do que em resultados concretos para os setores produtivos sul-americanos. "Esse apoio, essa influência ainda está muito mais na garganta, nos discursos, do que algo de fato que mexa no bolso dos setores produtivos da nossa região", disse Loss.

Segundo a especialista, apesar do discurso ideológico de aproximação com Washington adotado por alguns governos de direita e extrema-direita, o pragmatismo econômico tende a prevalecer nas relações comerciais. Ela cita novamente o governo de Jair Bolsonaro, quando setores do empresariado brasileiro pressionaram o então presidente e o ministro da Economia, Paulo Guedes, a reduzirem as críticas à China durante a pandemia. "Eles tiveram que se calar, parar de falar mal da China, porque é o nosso principal parceiro econômico", afirmou.

A avaliação também é compartilhada por Rodríguez, que destaca que as limitações econômicas da região impedem um alinhamento ideológico absoluto com qualquer potência. Segundo ela, "as realidades econômicas e fiscais da região impõem um limite ao alinhamento ideológico absoluto", já que os países precisam manter relações comerciais capazes de garantir estabilidade econômica e entrada de divisas.

Para Rodríguez, a influência chinesa funciona como contrapeso à presença norte-americana na América do Sul. Pequim ampliou sua atuação por meio de acordos comerciais, investimentos em infraestrutura e financiamento, enquanto os países da região passaram a adotar uma estratégia de diversificação de parceiros, buscando benefícios tanto da relação com os Estados Unidos quanto com a China.

"Na 'hora H', quem manda, quem é o grande parceiro comercial aqui da região é a China, e você precisa ter um excelente contato com eles."