GOVERNO BRASILEIRO APRESENTA DEFESA AO USTR EM RESPOSTA A INVESTIGAÇÃO SOBRE COMÉRCIO.

Brasil defende o Pix e sugere negociação bilateral sobre etanol ao USTR

Ministro Mauro Vieira destaca a inclusão de empresas no sistema de pagamentos e critica proposta de tarifas unilaterais.

Por Estadao Conteudo Publicado em 02/07/2026 às 11:30
Pix Reprodução / Agência Brasil

O governo brasileiro encaminhou na quarta-feira, 1º, uma resposta ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) sobre a investigação contra o Brasil por supostas práticas desleais. Defendeu que o Pix está "longe de excluir empresas estrangeiras", e que a negociação de tarifas sobre etanol pode ser feita de forma bilateral, além de criticar a utilização por parte dos norte-americanos de uma "descrição generalizada de ilegalidade ambiental sistêmica" no Brasil.

O documento, de 29 páginas, foi aprovado pelo ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, e foi protocolado na quarta no USTR. Vieira pede que os Estados Unidos não levem adiante a proposta de tarifa de 25% pelo USTR devido à investigação em curso.

O ministro argumentou que a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 "não autoriza o USTR a impor avaliações meramente porque discorda das escolhas políticas de outro país soberano". Também afirmou que o USTR não demonstra que "os atos, políticas ou práticas do Brasil são desarrazoados ou discriminatórios, nem estabelece que elas sobrecarregam ou restringem o comércio dos EUA".

O governo brasileiro dividiu a resposta em detalhes, de acordo com as justificativas apresentadas pelos norte-americanos para a sugestão da tarifa de 25%.

Pix

O Itamaraty afirmou que as declarações do USTR sobre o Pix “ignoram as características centrais do Pix que o Brasil documentou extensivamente em seus comentários anteriores”.

"O Pix é uma infraestrutura pública de acesso aberto, a participação é amplamente disponível em condições não discriminatórias e o sistema foi concebido para promover a concorrência, reduzir custos de transação, ampliar a inclusão financeira e viabilizar novos modelos de negócios em todo o ecossistema de pagamentos. Longe de excluir empresas estrangeiras, o Pix expandiu o mercado brasileiro de pagamentos digitais e criou novas portas de entrada para provedores privados, incluindo empresas dos EUA", acaba de enriquecer o governo brasileiro.

Mauro Vieira alegou, ainda, que "a conduta identificada pelo USTR (em relação ao Pix) não é especificamente a empresas dos EUA em razão de sua origem, nem o USTR aponta qualquer regra na legislação brasileira que imponha um regime de responsabilidade diferenciado a plataformas estrangeiras ou de propriedade norte-americana".

O governo brasileiro também citou que o Google Pay Brasil foi o maior iniciador de pagamentos e que a Visa obteve autorização para operar no ecossistema do Pix.

“Tais fatos contradizem diretamente a afirmação de que o Pix opera como um ‘campeão nacional’ de sistema fechado, de quais empresas dos EUA são restaurações ou ao quais estão sujeitas a condições discriminatórias”, afirmou.

“O Brasil também explicou que a transformação dos pagamentos digitais no país beneficia todos os instrumentos de pagamento eletrônico, incluindo as redes de cartões, e que o cenário pós-Pix ampliou as oportunidades tanto para bancos e fintechs quanto para empresas de tecnologia”, disse.

O Brasil alegou que “a existência de uma infraestrutura pública, pagamentos de instantâneos operados por um banco central, não é incomum nem inerentemente suspeita”. Citou que o Federal Reserve (Fed) também criou uma infraestrutura pública de pagamentos instantâneos, o FedNow , o que demonstraria a possibilidade de o Banco Central do Brasil criar um sistema como o Pix.

Etanol

O ministro das Relações Exteriores abriu as portas para a discussão sobre a tarifa imposta ao etanol de forma bilateral. Disse que esse seria "um caminho a seguir mais adequado e construtivo".

"O Brasil explicou que o engajamento bilateral historicamente gerou os avanços mais significativos no comércio de etanol e instou o USTR a retomar o diálogo por meio de negociações, em vez de antecipar-se a esse processo com a imposição de tarifas unilaterais. Esse continua sendo o melhor caminho", alegou.

“Caso os Estados Unidos desejem buscar um melhor acesso ao mercado de etanol, tal objetivo é mais bem alcançado por meio de investigação bilateral específica, e não mediante uma tarifa abrangente de 25% sobre produtos brasileiros”, disse.

Segundo o ministro, a tarifa sobre etanol é aplicada com base no princípio da Nação Mais Favorecida.

"A aplicação de tarifa-se de forma igualitária a todos os países que não se beneficiam de um acordo preferencial e, portanto, não discrimina os Estados Unidos. O USTR pode discordar do nível de tarifa ou decisões do Brasil de não manter períodos anteriores de maior liberalização; contudo, a mera discordância quanto ao exercício de uma escolha tarifária soberana - compatível com os compromissos multilaterais - não constitui demonstração de conduta desarrazoada ou discriminatória para fins da Seção 301", alegou.

Propriedade intelectual

O governo brasileiro afirmou que o País "mantém um regime abrangente de proteção dos direitos de propriedade intelectual e participa dos principais instrumentos multilaterais de propriedade intelectual administrados pela OMC e pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual".

Alegou que o Brasil tem um "histórico de medidas de aplicação da lei" no sentido de combate à pirataria e que isso foi apresentado ao USTR durante uma investigação.

Desmatamento

Mauro Vieira afirmou que os Estados Unidos "baseia-se principalmente em uma narrativa histórica" ​​para falar sobre o desmatamento no Brasil, "sem abordar de forma substantiva os dados oficiais mais recentes sobre tendências apresentadas pelo Brasil".

“O Brasil explicou que, desde janeiro de 2023, aumentou os recursos destinados aos principais órgãos responsáveis ​​pelo combate ao desmatamento ilegal, ampliou as operações de campo, fortaleceu o monitoramento via satélite, revogou suspensões anteriores que afetaram multas ambientais e intensificaram o uso de instrumentos jurídicos e administrativos já existentes”, afirmou.

O ministro disse, ainda, que o USTR "recorre a uma descrição generalizada de ilegalidade ambiental sistêmica e considera esse aspecto, por si só, suficiente para caracterizar um prejuízo ao comércio dos EUA".