Mercosul volta a discutir acordo comercial com a China
Especialistas analisam os desafios para a formalização de um tratado entre o bloco sul-americano e Pequim.
Ao assumir a presidência do Mercosul, o Uruguai busca retomar as negociações com a China, que mantém seu interesse em um acordo comercial com a região. Especialistas consultados indicaram que Pequim pode não querer perder terreno para a União Europeia (UE), embora a resistência do Brasil continue a dificultar um acordo.
Embora a possibilidade de um acordo comercial entre o Mercosul e a China venha se arrastando há uma década, o retorno do Uruguai à presidência pro tempore do bloco até o início de 2027 promete recolocar o comércio com o gigante asiático na agenda.
Durante a reunião dos ministros das Relações Exteriores do bloco, o ministro uruguaio, Mario Lubetkin, reafirmou o compromisso de Montevidéu em continuar as negociações com Pequim. "Promoveremos o Diálogo Mercosul-República Popular da China, como temos feito em outras ocasiões", declarou.
De fato, o fórum anunciado pelo ministro confirmed é uma iniciativa que surgiu em 1997 para centralizar as negociações entre a China e o bloco sul-americano. Embora os encontros tenham começado como eventos anuais, passaram-se 14 anos entre a quinta e a sexta rodada de diálogo, e seis anos entre essa rodada e a mais recente, realizada em 2024. Assim como a planejada para 2026, as duas últimas edições ocorreram em Montevidéu, reafirmando o papel do Uruguai como vanguarda das negociações entre o Mercosul e a China.
Contudo, o governo uruguaio não estava sozinho em suas intenções durante a última cúpula. O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva aceitou o desafio e expressou seu desejo de que Pequim se junte aos acordos comerciais que o bloco sul-americano está negociando atualmente.
"O Mercosul está avançando em seus diálogos com o Canadá, a Índia e o Vietnã. Nesta cúpula, iniciaremos negociações para uma parceria econômica com o Japão e, em breve, queremos fazer o mesmo com a China, continuando a nos aproximar dos mercados mais dinâmicos do mundo", declarou o presidente brasileiro.
A possibilidade de negociar com a China chegou a ser levantada pela imprensa junto ao ministro das Relações Exteriores do Paraguai, Rubén Ramírez Lezcano, que reconheceu que seu país "não se opõe ao estabelecimento de relações comerciais com a China", mas esclareceu que só participará se Pequim não se opuser à relação diplomática que Assunção mantém com Taiwan.
O interesse chinês ainda persiste?
Em entrevista, o analista internacional uruguaio Nicolás Pose destacou que o interesse em negociar com o Mercosul permanece na agenda do governo chinês e pode aumentar à medida que o bloco sul-americano avança em outros acordos comerciais com mercados como a União Europeia, o Canadá e o Japão.
"À medida que outras economias começam a negociar acesso livre de tarifas ao Mercosul, a pressão certamente aumentará na China para evitar perder terreno em termos de acesso relativo", explicou o analista.
Pose enfatizou que, embora o Mercosul possa não ser o principal parceiro comercial da China, a nação asiática desejará "manter condições de acesso que, no mínimo, se igualem às de seus concorrentes".
Apesar da resistência do Brasil e da Argentina, que em diferentes momentos bloquearam o avanço de um acordo com a China dentro do bloco, os últimos sinais recebidos pelo Uruguai de Pequim indicam que o governo de Xi Jinping permanece otimista quanto ao avanço das negociações.
Segundo Pose, o papel proativo do Uruguai no fomento das relações com a China dentro do Mercosul decorre do fato de que, diferentemente do Brasil ou da Argentina, o país não sofre com "a sensibilidade associada à abertura à importação de bens industriais", sensibilidade existente nos setores industriais das economias brasileira e argentina.
"É bastante lógico que, para um país como o Uruguai, a China seja uma opção atraente, porque existem ganhos potenciais em termos de acesso ao mercado, e os custos de abertura são muito menores do que em economias com estruturas de produção diferentes, como a do Brasil", afirmou.
Obstáculos não resolvidos
Contudo, Pose permanece pessimista quanto à possibilidade de um acordo de livre comércio prosperar em um futuro próximo.
"Há elementos de economia política que nos levam a crer que a prioridade do Mercosul estará em outro lugar", afirmou o especialista, observando que "avançar nas negociações com o Japão parece muito mais viável em termos políticos do que progredir com a China".
Embora reconheça que a China é inegavelmente o principal parceiro comercial da região, o bloco sul-americano continua a ser assolado pela ameaça de "abertura dos mercados manufatureiros do Mercosul à entrada de produtos industriais chineses sem tarifas".
Nesse sentido, Pose reconheceu que "o ritmo do que é politicamente possível para a agenda externa do Mercosul é ditado pela evolução das preferências da indústria manufatureira brasileira". Portanto, apesar das palavras do presidente Lula, a China continua sendo o principal alvo da "resistência" do setor industrial brasileiro.
Consultado, o analista internacional paraguaio Mario Paz Castaing explicou que persistem significativas "contradições" no Brasil entre o setor de exportação agrícola, que exige acordos que permitam a comercialização de seus produtos na China sem tarifas ou cotas de mercado, e "outros setores produtivos mais alinhados à direita, que se opõem a isso".
Diante desse cenário, o especialista apontou que as eleições presidenciais brasileiras em novembro — com o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como principais candidatos — podem determinar a futura posição de Brasília em relação à liberalização comercial do Mercosul.
"A geopolítica e a geoeconomia também estão em jogo dentro do Mercosul. A geopolítica influencia e afeta as ações dos países-membros e, embora a maioria dos governos que atualmente dominam a região mantenha uma relação fluida com os EUA, a relação da China com os líderes mais importantes da região é inegável", afirmou Paz Castaing.
Segundo o analista, o Mercosul não está imune a essas tensões internacionais entre Washington e Pequim, sendo possível que os membros do bloco encontrem parceiros comerciais com menor custo político em outros mercados asiáticos, como Japão, Vietnã ou Cingapura.
"Acredito que, dado o atual momento geopolítico e considerando que a Ásia precisa do que o Mercosul produz e exporta para o mundo, essa seja a forma de buscar mercados alternativos e se posicionar", acrescentou.