DISCUSSÕES SOBRE A POSSIBILIDADE DE MEDIAÇÃO SÍRIA GANHAM DESTAQUE APÓS PROPOSTA DE DONALD TRUMP.

Influência da Síria em negociações entre Israel e Hezbollah é debatida por especialistas

Acordo-quadro busca solução para o conflito armado, mas obstáculos permanecem nas negociações.

Por Sputnik Brasil Publicado em 01/07/2026 às 17:01
Especialistas discutem papel da Síria em negociações entre Israel e Hezbollah após proposta de Trump. © AP Photo / Omar Albam

Proposta de Trump para que Damasco "lide com o Hezbollah" reacende debate sobre influência síria no Líbano e os limites de uma possível mediação. Ausência do Hezbollah nas negociações, presença israelense no sul do Líbano e fragilidade do governo libanês dificultam avanço diplomático.

Estados Unidos, Israel e Líbano assinaram nesta sexta-feira (26) um acordo-quadro tripartite, mediado por Washington, para buscar uma solução para o conflito armado entre israelenses e libaneses. O documento foi firmado no Departamento de Estado americano e, segundo o secretário Marco Rubio, representa apenas o início de um processo de negociação.

Apesar do avanço diplomático, Israel afirmou que manterá tropas no sul do Líbano até o desarmamento do Hezbollah. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu classificou o acordo como um "grande golpe contra o Irã", enquanto o governo libanês afirmou que o entendimento pode abrir caminho para recuperar a soberania territorial e encerrar as hostilidades.

O Hezbollah rejeitou as negociações e exigiu a retirada "sem condições" das tropas israelenses, afirmando que nenhum acordo poderia ser firmado sem respeitar a soberania do Líbano.

Nesse cenário, a possibilidade de uma maior participação da Síria voltou ao debate após Donald Trump sugerir que Tel Aviv permitisse que Damasco "lidasse com o Hezbollah" no território libanês. A proposta reacendeu discussões sobre o papel histórico da Síria no Líbano e sobre a capacidade do atual governo sírio de atuar no conflito.

Em 1976, durante a guerra civil libanesa, tropas sírias entraram no país e permaneceram por mais de três décadas, influenciando a política interna de Beirute até a retirada em 2005. Atualmente, o presidente sírio, Ahmed Al Sharaa, busca reconstruir o país após anos de guerra civil, cenário que limita uma eventual atuação direta contra o Hezbollah.

Ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, Muna Omram, escritora e dramaturga síria e professora da pós-graduação em relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas), avaliou que a declaração de Trump surpreendeu por inserir a Síria em uma disputa da qual o país não participava diretamente.

Para a professora, uma eventual atuação síria contra o Hezbollah também teria um peso simbólico, já que o país anteriormente fazia parte do chamado "arco xiita" de influência regional liderado pelo Irã, ao lado do grupo libanês. Atualmente, porém, Damasco enfrenta limitações para assumir esse papel. "A Síria precisa conter grupos jihadistas e lidar com tensões envolvendo minorias como drusos, alauítas e cristãos", explicou Omram.

Uma entrada direta da Síria no conflito poderia, segundo ela, comprometer os esforços de reconstrução do país. "Trazer essa guerra para a conta da Síria nesse contexto não seria um bom negócio", afirmou, destacando que o governo sírio busca recuperar estabilidade interna e atrair investimentos internacionais, e não abrir uma nova frente militar.

Por isso, a proposta de Trump dificilmente avançaria. "Ele falou, soltou as palavras, e depois não vimos mais nenhuma repercussão sobre isso", disse. A Síria possui hoje, segundo Omram, pouca capacidade militar e diplomática para atuar como protagonista na disputa envolvendo Israel, Líbano, Hezbollah, Irã e Estados Unidos. Caso assumisse um papel mais ativo, a consequência poderia ser negativa para a estabilidade regional.

"A Síria sempre esteve dentro do Líbano. A política síria e o controle sírio ficaram muito evidentes durante a guerra civil, quando houve até um acordo tático em que a Síria controlava o norte e Israel controlava o sul."

Omram lembra que Damasco continuou influenciando decisões políticas libanesas após a guerra, incluindo articulações no Parlamento e escolhas presidenciais. Hoje, porém, ela considera improvável uma nova intervenção síria. "Eu não consigo visualizar essa interferência, essa intervenção da Síria no Líbano, porque ela não tem a mínima força", declarou.

A professora também avalia que uma nova presença militar síria poderia reacender divisões sectárias no Líbano, país marcado por disputas entre grupos religiosos e por uma estrutura política baseada em equilíbrio confessional.

Nesse cenário, Omram destaca que o principal foco do Hezbollah atualmente é a retirada das tropas israelenses do sul do Líbano. Ou seja, o grupo não está concentrado em uma disputa com a Síria, mas na resistência à presença militar israelense.

"A história não é feita por 'ses', mas, em uma situação hipotética de a Síria entrar nesse contexto, eu acho que ela não conseguiria nem se articular direito. O Exército sírio não tem mais a força que tinha antes, não tem estrutura alguma."

Hezbollah divide opinião no Líbano

A percepção da população libanesa sobre o Hezbollah também mudou ao longo das últimas décadas e permanece dividida. Omram explica que o grupo ganhou apoio popular após contribuir para a retirada das tropas israelenses do sul do Líbano, em 2000, mas passou a enfrentar críticas por sua atuação política interna e pelo envolvimento em conflitos regionais.

Segundo ela, muitos libaneses passaram a questionar o papel do grupo após os confrontos ligados à guerra em Gaza, defendendo que o país não deveria ser arrastado para disputas externas. "Começa um movimento pela neutralidade libanesa. As pessoas começam a dizer: nós estamos pagando uma conta que não é nossa", afirmou.

Apesar disso, a visão sobre o Hezbollah varia conforme a região. No sul do país, onde o grupo possui forte presença, parte da população ainda o considera uma força de resistência diante da ocupação israelense e da ausência do Estado libanês. Com a permanência das tropas israelenses e o temor de uma expansão territorial, parte da população voltou a enxergar o grupo como uma proteção.

"Alguns começam a dizer: se o Hezbollah não resistir, nós perderemos todo o Líbano."

Mudança de papel regional

Acrescentando à análise, Adel Bakkour, internacionalista sírio pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e especialista em Oriente Médio e migração, avalia que a declaração de Trump pode ser entendida mais como uma tentativa de pressão política sobre Israel do que como um convite para uma intervenção militar síria.

"Militarmente eu acredito que a Síria não tenha capacidade ou números para se meter fora do seu território. Mas politicamente, talvez, ela possa ajudar a resolver essa questão", explica.

Um dos objetivos do atual governo sírio, segundo o especialista, é impedir que o território volte a ser usado como rota de circulação de armas para grupos aliados ao Irã, incluindo o Hezbollah. Ao mesmo tempo, ele ressalta que qualquer movimento precisa ser calculado para evitar novas instabilidades.

Assim como Omram, Bakkour diz que a percepção sobre o grupo varia conforme a região e o contexto político. Mesmo entre críticos do movimento, existe o reconhecimento de que ele teve papel importante na resistência contra Israel no passado.

O especialista afirma ainda que o principal obstáculo para um acordo é a ausência do Hezbollah nas negociações, já que o grupo continua sendo um ator político e militar relevante dentro do Líbano, enquanto Israel mantém sua presença no sul do país.

"Um lado não aceita e o outro lado não respeita. É uma equação muito complexa."

Para Bakkour, o impasse está também na fragilidade das instituições libanesas: o governo busca o desarmamento do Hezbollah, mas o Exército não tem a mesma capacidade militar do grupo para assumir sozinho a segurança do país. A Síria, segundo ele, pode contribuir principalmente como mediadora diplomática, mas não como força militar.

"Eu acho que a Síria está tentando estar à mesma distância de todo mundo. Ela [seu governo] visitou os Estados Unidos, a Europa, a Rússia e os países do Golfo. O objetivo é mostrar que quer ser uma chave de negociação."

Para o especialista, a prioridade de Damasco hoje é preservar um Líbano estável e evitar que o território volte a ser palco de uma nova guerra. Um eventual acordo, segundo ele, dependerá da participação dos principais envolvidos e da capacidade de conciliar os interesses de Israel, do governo libanês e do Hezbollah.