Hertz Dias propõe mobilização de 1 milhão de reservistas para defesa nacional
O professor e rapper, pré-candidato pelo PSTU, destaca a necessidade de fortalecer as Forças Armadas.
Filiado à sigla desde 2010, Hertz Dias já foi vice na chapa de Vera Lúcia à Presidência, concorreu ao governo do Maranhão e à prefeitura de São Luís. Em nenhuma dessas disputas foi eleito, assim como, na eleição de 2022, nenhum dos 163 candidatos lançados pelo PSTU a deputado, senador ou governador.
Professor de história, rapper e pré-candidato à presidência da República pelo Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), Hertz Dias apresentou à Sputnik Brasil as bases do programa do partido para a eleição de 2026.
Fortalecimento das Forças Armadas
À reportagem, Dias defendeu maiores investimentos em defesa diante do que classificou como ameaça de intervenção dos Estados Unidos na região, citando a operação que culminou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro.
A preocupação não é apenas do pré-candidato e seu partido. Após a invasão militar norte-americana à Venezuela, uma pesquisa da Genial/Quaest revelou que 58% dos brasileiros têm medo de que Washington faça o mesmo no Brasil.
Para Dias, o país deveria converter parte de seu contingente de cerca de 1,3 milhão de reservistas em uma força de defesa nos moldes do modelo suíço, possibilitando inclusive o porte de armas sem munição.
Na Suíça, o serviço militar é obrigatório e dura apenas alguns meses. No entanto, enquanto reservistas, realizam treinos periódicos e, por isso, podem ser mobilizados rapidamente em caso de guerra ou emergência.
"Nós temos que criar uma estratégia para fazer com que os reservistas do Brasil se transformem numa reserva popular ativa, igual é, salvo engano, na Suíça. [...] Nós queremos que os Estados Unidos pensem uma, duas, dez, cem vezes antes de pensar em invadir o nosso país", afirmou.
Outro ponto de atenção é a iniciativa norte-americana "Escudo das Américas", coalizão militar-securitária lançada pelo governo dos Estados Unidos em março de 2026. Voltada ao combate de organizações criminosas transnacionais, o empreendimento prevê o compartilhamento de inteligência e a coordenação de operações militares.
Lançada pelo presidente Donald Trump em encontro com 17 líderes latino-americanos na Flórida, os três maiores países da região, Brasil, México e Colômbia, ficaram de fora da aliança. Isso não impediu, no entanto, que o Departamento de Estado dos EUA designasse o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho como organizações "terroristas globais especialmente designadas".
A medida, que permite impor sanções econômicas a indivíduos, grupos ou entidades envolvidos com atividades supostamente terroristas, já iniciou seus efeitos no Brasil. Nesta quarta-feira (1º), duas pessoas e três empresas brasileiras foram sancionadas por, alegadamente, lavar dinheiro para o PCC nos EUA.
Para Dias, tanto o PCC quanto o CV deveriam ser tratados como "organizações burguesas" e não terroristas, uma vez que suas atividades criminosas são voltadas ao lucro e não a partir de motivações políticas ou étnicas.
Ele também defendeu a descriminalização do uso de drogas e criticou a Lei de Drogas de 2006, que deixa a cargo do agente policial a distinção entre usuário e traficante, inclusive dando um peso maior à população negra.
Fim da 6 x 1, estatização de empresas e terras raras
Dentre as pautas mais populares, Dias propôs a redução da jornada de trabalho da escala 6 x 1 para a 4 x 3, modelo em que o trabalhador trabalharia 4 dias na semana e teria 3 de folga. Atualmente, está parada no Senado a instituição da escala 5 x 2. A matéria já foi aprovada na Câmara dos Deputados em 11 de junho e, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego, vai beneficiar 37 milhões de trabalhadores.
O político também defendeu a estatização, sem indenização, de empresas dos setores de energia, petróleo e mineração, além da reforma agrária. Os setores são estratégicos para o Brasil, abrangendo não só muitas das exportações, como também a segurança energética, industrial e alimentar do país.
Nesse ponto, ele discordou do atual caminho brasileiro no desenvolvimento das terras raras, minérios críticos para a indústria 4.0, do qual o Brasil tem a segunda maior reserva do mundo. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem buscando parcerias internacionais para o setor, desde que contribuam também com a transferência de tecnologia para o Brasil.
Avibras: greve de 4 anos como exemplo de mobilização e soberania
Nesse ponto, Dias citou a retomada da Avibras Aeroespacial, em Jacareí (SP), como vitória da organização sindical. A fábrica, principal indústria bélica do país, ficou paralisada por 1.280 dias, uma das greves mais longas do movimento operário brasileiro, após entrar em recuperação judicial em 2022, com dívidas então estimadas em R$ 600 milhões.
Em março de 2026, trabalhadores aprovaram acordo para quitação de débitos trabalhistas de R$ 230 milhões, processo que inclui o desligamento dos 850 funcionários ainda registrados e a recontratação de cerca de 450 deles.
"Foram quatro anos de greve heroica, a maior greve da história do país, e obrigou a recuperação financeira da empresa. [...] A Avibras é uma empresa extremamente estratégica para a defesa da soberania do país", disse Dias, atribuindo o resultado à atuação do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região.
O pré-candidato também mencionou a mobilização indígena em Santarém (PA), que resultou na revogação, em fevereiro de 2026, do decreto que incluía trechos dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização.
A medida previa a concessão de hidrovias a empresas privadas, entre elas a multinacional Cargill, e foi revogada após 33 dias de ocupação do terminal portuário da companhia em Santarém.
Crítica à esquerda institucional
Dias rebateu uma declaração do historiador e pré-candidato a deputado federal Jones Manoel (PSOL), que classificou as pré-candidaturas de esquerda como "todas iguais".
Segundo ele, o PSTU mantém divergências programáticas com outras siglas, entre elas, a caracterização de Cuba, por exemplo, que o partido não considera socialista. Ele também citou que Jones Manoel já declarou apoio a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno para presidente, o que não é unanimidade entre as siglas de esquerda.
"Primeiro que o Jones comete um erro gravíssimo, quando ele tenta colocar a responsabilidade na chamada esquerda radical, [dizendo que] a gente não está unificado. [...] O Jones está apoiando o Lula no primeiro turno. Então não é responsabilidade nossa", disse.
Para Dias, o governo Lula adota uma política mais à direita que seus mandatos anteriores, citando como exemplo o volume de recursos do Plano Safra ao agronegócio, e classificou o PSOL como parte da base aliada do governo.
"Governar com o PT hoje significa, sobretudo no primeiro turno, governar com arcabouço fiscal."
Sobre o senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), criticou a condução da pandemia pelo governo de seu pai, Jair Bolsonaro, lembrando que um estudo da Universidade Federal de Pelotas sobre a demora na compra de vacinas estimou que o Brasil teve 95,5 mil mortes que poderiam ter sido evitadas.