Por que as ilhas artificiais projetadas pela China redesenham a geopolítica? Analista explica (VÍDEOS)
O planejamento chinês de erguer aterros marítimos em seu entorno estratégico expande sua projeção geopolítica ao mesmo tempo em que amplia as capacidades logística e militar do país, consolidando um forte cinturão de defesa. Complementando essa estratégia, Pequim mantém uma rede de postos fortificados nas ilhas Paracel e Spratly, na região.
Nesse sentido, segundo Júlia Fróes, pesquisadora do Núcleo de Avaliação da Conjuntura da Escola de Guerra Naval (NAC/EGN), em entrevista à Sputnik Brasil, um dos principais objetivos desse empreendimento seria a questão da defesa do território, tanto no aspecto militar quanto no de projeção geopolítica.
"Cada vez mais estamos tendo essa presença chinesa nos arquipélagos e, agora, estão criando essas ilhas artificiais para a atracação de navios, que possam servir como pistas para que aeronaves possam pousar e levantar todo esse sistema de abastecimento. Portanto, será como um posto militar", disse.
A pesquisadora, que escreveu o artigo "Geografia projetada: construção de ilhas e a reestruturação do mar do Sul da China" no Boletim Geocorrente, publicado pelo NAC/EGN, também ressalta a rivalidade entre países asiáticos que se opõem a essa iniciativa chinesa.
"O mar do Sul da China é uma área cheia de tensões a todo momento. A China tem uma linha de nove traços que diz que quase toda a integridade do mar pertence a ela, e outros países da região não concordam, como as Filipinas, principalmente. O fato de a China estar criando essas ilhas artificiais em mares também traz todo esse contexto [de tensionamento regional] para a gente", comenta.
Tensões a nível global 'incentivam' o projeto chinês
Além do âmbito regional, Fróes aponta que as tensões geopolíticas em outras partes do globo, como a crise no estreito de Ormuz, que envolve EUA, Israel e Irã, sinalizam que, para a China, as ilhas artificiais se tornam ainda mais importantes, ainda mais porque a presença estadunidense naquele perímetro diminuiu devido à instabilidade no Oriente Médio, além de possíveis pressões de alianças como a AUKUS (composta por Austrália, Reino Unido e EUA) e o QUAD (formado por EUA, Índia, Japão e Austrália).
"Agora, por exemplo, temos menos presença de navios americanos, que sempre ficavam pela área, porque a grande maioria foi para o Oriente Médio, que é onde o conflito mesmo mais explosivo, digamos assim, está acontecendo. A China pode ter tomado isso como uma oportunidade [para empreender as ilhas artificiais]. Estamos tendo a movimentação do AUKUS e do Quad, e o expansionismo também dos EUA contra a China", destaca.
Como relembra a especialista, a construção dessas ilhas não é algo recente, uma vez que todo esse esforço de engenharia chinesa começou há cerca de 10 anos, e recentemente foi retomado de forma estratégica.
"[A construção das ilhas] começou por volta da década de 2010 e foi feita de forma extremamente rápida; depois parou. Agora, estão retomando gradualmente, e acho que isso mostra que a China está preparada para retomar um pouco desses passos. Ela nunca deixou de exercer sua projeção no mar do Sul da China, e o conflito no Oriente Médio ajudou a China a retomar alguns desses planos", observa.
Consolidação de uma ilha artificial demanda tempo
Para a concepção de um empreendimento tão arrojado, que exige muita capacidade técnica quanto planejamento estatal sólido, a especialista explica que o pleno funcionamento de uma ilha criada a partir de intervenção humana é um trabalho de longo prazo.
"É preciso um plano muito bem feito, porque são várias etapas que se seguem. É preciso muita areia e terra, porque se está criando uma ilha onde não havia nada. Então, é preciso aterrar toda aquela área primeiro para depois começar a construir uma estrutura que precisa estar tudo muito estável para não ter problemas depois. A construção, realmente, é um processo que leva bastante tempo", conclui.
Em um sistema-mundo cada vez mais marcado por confrontos e pressões políticas que muitas vezes visam o controle de fluxos estratégicos ou têm ímpeto militar, novas tendências de Defesa passam a ser concebidas para garantir a soberania, inclusive por meio da geografia.
Por Sputinik Brasil