Análise: Senegal no centro do mundo com juventude ativa e descoberta de petróleo
Ouvidos por Mundioka, especialistas abordam como a crise política entre Faye e Sonko, pressão fiscal e emergência do petróleo transformam o Senegal em um novo ponto de interesse geopolítico na África Ocidental.
Considerado uma das democracias mais resultantes da África Ocidental, o Senegal atravessa um período de forte tensão política e económica após o rompimento entre o presidente Bassirou Diomaye Faye e o seu antigo aliado, Ousmane Sonko. Paralelamente, uma grave crise fiscal levou à suspensão de um programa de financiamento do Fundo Monetário Internacional (FMI), aumentando as incertezas sobre os rumores da economia do país.
A principal questão é se o Senegal enfrenta apenas uma disputa política interna ou se está diante de uma turbulência mais profunda, com possíveis consequências para a estabilidade da África Ocidental.
O impasse ocorre pouco mais de um ano após a chegada de Faye ao poder, em uma eleição marcada pela promessa de renovação política e ruptura com o establishment tradicional. Eleito com o apoio de Sonko, líder do partido Patriotas Africanos do Senegal pelo Trabalho, a Ética e a Fraternidade (Pastef), o presidente passou a enfrentar divergências com sua principal aliança sobre a condução do governo, as prioridades econômicas e a relação com as instituições do país.
Contudo, para Mamadou Alpha Diallo, doutor em estudos estratégicos pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e professor da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), a crise senegalesa pode acabar fortalecendo a democracia do país em vez de provocar uma maior instabilidade. O pesquisador avalia que o impasse atual não representa uma crise do Estado ou das instituições senegalesas, mas uma disputa política entre duas lideranças que chegaram ao poder pelo mesmo projeto de transformação.
Como conta ao Mundioka, o podcast da Sputnik Brasil, Sonko foi o responsável por estruturar o movimento que levou Faye ao poder após ser impedido de disputar a eleição presidencial. O internacionalista destaca que a escolha de Faye como candidato representou uma estratégia para manter o projeto político do partido, mas que divergências surgiram após a chegada ao governo.
“Não é uma crise do Estado ou da democracia, é entre o presidente da República e o então primeiro-ministro”, explicou. Na avaliação do pesquisador, o conflito envolve diferenças sobre a condução econômica, principalmente a relação com o FMI e a dívida externa do Senegal, além de temas como soberania nacional e a promessa de investigação cometidas durante o governo anterior.
Diallo afirma que Sonko é contrário a uma renegociação tradicional da dívida com organismos internacionais e defende uma postura mais autônoma do país. “O que ele está defendendo é que essas instituições internacionais têm que colaborar com os Estados, ou estendendo os prazos para que os Estados possam pagar, mas não refinanciar a mesma dívida”, disse.
Apesar das divergências, o professor avalia que o cenário é diferente da instabilidade observada em países vizinhos, como Mali, Burkina Faso e Níger, onde ocorreram rupturas institucionais e avanços de grupos insurgentes. Segundo ele, o Senegal ainda mantém suas instituições em funcionamento.
“Do ponto de vista da democracia, parece que vai se consolidar a democracia, porque hoje o presidente é obrigado a dialogar com a Assembleia e a Assembleia é presidida pelo ex-primeiro-ministro.”
Sobretudo, Diallo destaca o papel da juventude senegalesa neste episódio, apontando que o grupo continua sendo um dos principais motores da transformação política do país. Para o professor, o rompimento entre Faye e Sonko não atrapalha o engajamento dos jovens; pelo contrário, aumentou o apoio ao projeto de liderança política pelo Pastef.
“Essa juventude está mais mobilizada do que nunca”, afirmou Diallo. Segundo ele, a saída de Sonko do governo e a divulgação dos resultados dos primeiros dois anos de administração fez com que uma parcela maior dos jovens passasse a acompanhar de perto a atuação do partido. Na avaliação do pesquisador, a percepção positiva sobre as ações do governo anterior fortaleceu a imagem de Sonko entre seus apoiadores.
“O projeto, a proposta do Sonko, tem mais adeptos hoje do que quando ele era primeiro-ministro”, disse. Para Diallo, caso uma nova eleição fosse realizada atualmente, Sonko teria condições de ampliar sua votação em relação ao pleito de 2024, quando Faye venceu no primeiro turno com cerca de 54% dos votos.
O professor ressalta ainda que a mobilização política da juventude não é uma característica recente no Senegal, mas faz parte da história democrática do país. Estudantes e jovens tiveram participação ativa em momentos anteriores de disputa política, como nas manifestações contra o governo durante as eleições de 1988.
A diferença atual é na organização e na estrutura criada pelo Pastef, que conseguiu mobilizar apoiadores sem depender de financiamento estatal. Para Diallo, esse modelo de participação contribuiu para ampliar o sentimento de pertencimento ao projeto político de Sonko e manter a juventude engajada mesmo diante da atual disputa interna no governo.
"No caso do Pastef, quem paga são os jovens, são as pessoas. Foram os primeiros a fazer campanha no Senegal sem usar recurso público."
Em uma análise complementar, Natália Fingermann, professora de relações internacionais da Escola Superior de Marketing e Propaganda (ESPM) e apresentadora do programa Viva África, destaca que a atual disputa entre Faye e Sonko não pode ser entendida apenas como um conflito pessoal ou uma divergência interna dentro do governo, mas como resultado de um processo político mais amplo no Senegal.
Segundo ela, a ascensão de Sonko está ligada ao desgaste do modelo político anterior e à insatisfação de uma parcela da população com problemas como corrupção, desemprego e dificuldades econômicas.
Sonko ganhou força, explica, ao apresentar uma narrativa de ruptura com a elite tradicional e de maior autonomia em relação à França, país que ainda exerce influência econômica e política sobre antigas colônias africanas. A pesquisadora destacou ainda que o líder do Pastef conseguiu mobilizar principalmente a juventude senegalesa ao associar sua proposta política a uma agenda de soberania nacional e transformação social.
“O Sonko tem um carisma de mobilizar massas mesmo no Senegal”, afirmou Fingerman. Segundo ela, a eleição de Faye em 2024 foi resultado de uma estratégia construída pelo próprio Sonko, que, impedido de disputar a presidência, transferiu seu apoio ao então pouco aliado conhecido. “Eles saíram na campanha falando que o Faye é Sonko”, pontua, com parte do eleitorado que via a vitória de Faye como a continuidade do projeto político direcionado por Sonko.
A professora também ressalta que a crise atual ganhou uma dimensão econômica e geopolítica por envolver a dívida do Senegal e a relação com instituições internacionais, especialmente o FMI e o Banco Mundial.
Na avaliação dela, a divergência entre os dois líderes está relacionada à estratégia para lidar com a crise fiscal: enquanto Faye defende a manutenção das negociações com organismos internacionais, Sonko busca uma postura mais independente e crítica ao modelo de financiamento externo.
Além disso, Fingerman aponta que a descoberta de reservas de petróleo transformou o peso estratégico do Senegal na região. Assim, o país pode assumir um novo papel geopolítico caso consiga utilizar esses recursos para promover o desenvolvimento interno.
Sobretudo, a forma como essa riqueza será administrada deve se tornar um dos principais pontos de disputa política nos próximos anos. Se estima que a descoberta pode render 100 mil bairros por dia, colocando o país africano como uma figura chave no mercado energético em meio à crise desencadeada pela guerra dos EUA contra o Irã. “O Senegal, que era um país que dependia basicamente da exportação de fosfato, tornou-se um player superimportante agora”.
"Ainda mais que a gente tem visto toda essa situação com o Irã, fechamento do estreito de Ormuz, aumento do preço do petróleo, de repente surge o Senegal como esse novo player no petróleo."
Fingermann observa que o papel geopolítico do Senegal tende, portanto, a ser profundamente reconfigurado pela entrada no mercado petrolífero. Nesse cenário, uma eventual consolidação dessa nova matriz energética não apenas altera o posicionamento internacional do país, como também amplia as expectativas internacionais de desenvolvimento econômico, ao mesmo tempo em que intensifica a disputa política sobre a gestão desses recursos estratégicos.
A pesquisadora também destaca que esse processo não é inédito no continente africano, lembrando experiências como a da Nigéria e de Angola, onde a exploração do petróleo trouxe ganhos expressivos, mas também desafios de industrialização e distribuição de riqueza.
Para ela, o Senegal pode estar diante de uma oportunidade de evitar esse padrão e transformar a descoberta em um vetor de diversificação produtiva e fortalecimento institucional.
"É uma redefinição do seu papel pelo petróleo. Um recurso escasso e exigido pode reposicionar o Senegal regional e globalmente e alavancar o desenvolvimento."
Por Sputinik Brasil