CRISE HUMANITÁRIA

ONU alerta para risco de surtos após terremotos que atingiram a Venezuela

Hospitais danificados, falta de profissionais e abrigos superlotados ampliam preocupação com doenças infecciosas

Por Estadao Conteudo Publicado em 30/06/2026 às 14:56
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial Nano Banana (Google Imagen)

Organizações humanitárias e agências vinculadas à Organização das Nações Unidas (ONU) alertaram nesta terça-feira, 30, que o sistema de saúde da Venezuela, já fragilizado, está sendo levado ao limite quase uma semana depois de dois fortes terremotos. Hospitais danificados e com falta de profissionais estão sobrecarregados pelo atendimento aos feridos, enquanto as condições nas áreas atingidas aumentam o risco de disseminação de doenças infecciosas.

Dezenas de equipes nacionais e internacionais continuam atuando na Venezuela, concentradas na busca por sobreviventes. O número oficial de mortos já passa de 1.700, e novos corpos seguem sendo retirados dos escombros.

Entre os sobreviventes, uma crise humanitária já está em curso. Agências da ONU demonstraram preocupação com os impactos à saúde de milhares de pessoas desalojadas, que dormem há dias ao relento ou em abrigos lotados e sem condições adequadas de higiene.

Segundo autoridades venezuelanas, mais de 15.800 pessoas foram afetadas pelos terremotos. O número corresponde ao total oficial de desalojados, conforme informou Carlotta Wolf, porta-voz da agência da ONU para refugiados. Sem moradia repentinamente, venezuelanos têm dormido em carros, parques e outros locais diante da falta de abrigos emergenciais suficientes.

Wolf afirmou que esse total deve continuar crescendo. No estado de La Guaira, o mais atingido, muitos deslocados enfrentam grave escassez de alimentos, segundo ela.

Em entrevista coletiva em Genebra nesta terça-feira, o porta-voz da Organização Mundial da Saúde (OMS), Christian Lindmeier, alertou que venezuelanos deslocados, sem acesso a banheiros, chuveiros, sabão ou alimentação adequada, estão mais vulneráveis a surtos de doenças evitáveis, como o sarampo, em razão das baixas taxas de vacinação. As condições também favorecem a propagação de doenças transmitidas pela água e por vetores, como dengue, febre amarela e malária.

Sistema de saúde sob pressão

O sistema de saúde venezuelano, enfraquecido por décadas de falta de investimentos e por anos de crise econômica, está "sob extrema pressão, com unidades funcionando além de sua capacidade para atender ao aumento dos casos de trauma", afirmou Lindmeier.

De acordo com o governo, os terremotos da semana passada danificaram ou comprometeram 38 hospitais em todo o país. A OMS informou que avaliou, até agora, 21 dessas unidades. Três deixaram de funcionar completamente, seis sofreram danos e as demais operam sob forte pressão por causa do grande volume de feridos.

A OMS também informou que muitos médicos especialistas seguem desaparecidos sob os escombros, incluindo profissionais responsáveis pelos serviços de maternidade em La Guaira. A situação amplia os desafios do sistema de saúde de um país do qual cerca de 8 milhões de pessoas emigraram nos últimos anos, entre elas muitos médicos e enfermeiros.

"As avaliações revelam uma prestação de serviços caótica e um fluxo de pacientes marcado pela superlotação, aumento das filas para cirurgias e colapso das medidas de biossegurança", afirmou Lindmeier. Ele acrescentou que "o colapso dos serviços forenses e dos necrotérios, além do registro inadequado das vítimas", dificulta dimensionar a extensão da tragédia.

Números da tragédia

O governo da Venezuela, que há anos mantém rígido controle sobre o acesso à informação, divulga boletins diários sobre o número de vítimas. Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional, anunciou na segunda-feira que o balanço oficial chegou a 1.719 mortos e 5.000 feridos, além de alertar a população para que não compartilhe informações que contrariem os dados oficiais.

Especialistas afirmam que o número oficial de mortos provavelmente está muito abaixo da realidade, já que muitas pessoas continuam desaparecidas e as chances de encontrar sobreviventes diminuem a cada dia.

A NASA estima que quase 59 mil edifícios tenham sido danificados ou destruídos pelos terremotos, o que colocaria o número de pessoas afetadas na casa das centenas de milhares. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) informou nesta terça-feira que 680 mil crianças precisam de assistência humanitária em todo o país.

As autoridades não divulgaram um número oficial de desaparecidos. Por isso, muitos venezuelanos têm recorrido a bancos de dados digitais administrados por organizações não governamentais para registrar familiares desaparecidos. Um desses cadastros listava pelo menos 43.220 pessoas desaparecidas.

Com informações da Associated Press (AP).