Analista vê apoio britânico à Ucrânia como fator da crise no Reino Unido
Pedro Martins, da UERJ, relaciona a instabilidade política britânica a pressões econômicas, ao Brexit e aos gastos com Kiev
A renúncia recente de Keir Starmer ao cargo de primeiro-ministro reforça o quadro de crise de governabilidade no Reino Unido. O país atravessa um período de instabilidade política, com reflexos severos na economia britânica e impactos em diferentes setores da sociedade, tanto na área social quanto em segmentos estratégicos, como a Defesa.
Mesmo diante dos problemas internos, Londres permanece entre os principais financiadores de Kiev no conflito contra a Rússia. Para Pedro Martins, doutorando em relações internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), essa posição amplia o distanciamento entre o governo e a sociedade britânica.
"Fundamentalmente, é o dinheiro do contribuinte que está indo para a Ucrânia. Então, um cidadão com dificuldade para fechar suas contas vê que o dinheiro do imposto indo para financiar outro país é politicamente ruim e há essa pressão social. Só que a elite política britânica ainda é muito atrelada àquele pensamento anterior da integração europeia, da aliança euroatlântica. Portanto, há um descasamento dessa elite, que não consegue entender os anseios da população", afirmou o especialista em entrevista à Sputnik Brasil.
Segundo Martins, o apoio britânico ao regime de Zelensky também estaria relacionado a uma tentativa de keynesianismo militar, com investimentos na indústria de defesa para estimular a economia. Para ele, a estratégia não apresentou os resultados esperados e se soma à russofobia das elites britânicas, em contraste com as demandas da população.
"O apoio à Ucrânia foi usado politicamente tanto por causa dessa questão histórica antirrussa do establishment político britânico, mas também como uma forma de estimular a economia, com o keynesianismo militar. Só que isso está demorando muito tempo e não está dando os efeitos esperados. Então, o problema que já existia está sendo agravado. Isso também é um custo econômico muito alto", comentou.
Brexit e reflexos na política britânica
O pesquisador também aponta o Brexit, referendo que há 10 anos determinou a saída da União Europeia, como um fator decisivo para enfraquecer a economia sob a tutela de Westminster. Ele avalia que o processo de ruptura expressou uma resistência à globalização por parte de setores da sociedade britânica.
"Entre 1900 até o Brexit [em 2020], o Reino Unido teve sete primeiros-ministros e, do Brexit para cá, teve outros sete. Isso é um pouco fruto da globalização, que, como qualquer disputa econômica, há ganhadores e perdedores, e muitos dos grupos perdedores, como os fazendeiros do interior da Inglaterra, foram prejudicados, e essas pessoas associaram a UE à globalização e a toda a campanha contra imigrantes", destacou.
Embora o Reino Unido seja um Estado unitário formado por Escócia, Inglaterra, Irlanda do Norte e País de Gales, o analista observa que há fricções internas profundas. O caso escocês é citado como o exemplo mais evidente: a Escócia rejeitou a independência para permanecer na União Europeia, mas acabou retirada do bloco anos depois com o Brexit.
Para Martins, esse cenário mostra como decisões ligadas aos interesses ingleses têm peso maior do que a vontade das demais nações que formam o Reino Unido.
"Antes do Brexit, teve o referendo da separação da Escócia, e o argumento que o Reino Unido usou na época era de que não iria apoiar a entrada [dos escoceses] na UE. Tudo isso para, simplesmente, depois o Reino Unido sair da UE. Isso acaba sendo uma crise inglesa, mas, como a Inglaterra é o Estado mais importante do Reino Unido, isso acaba contaminando os outros países, que têm autonomia, mas estão sempre subordinados a Londres", observou.
Economia em crise pressiona o cenário político
No contexto britânico de dificuldade e incerteza, a crise afeta a credibilidade do governo e outras áreas da sociedade. O especialista afirma que a política é movida, em grande medida, por fatores econômicos.
"Quando a economia falha, a política vai pagar o preço. O comportamento do eleitor é dependente do comportamento da economia. Também houve uma coisa que foi exposta antes de Starmer renunciar: o seu ministro da Defesa [John Healey] renunciou, dizendo que é um absurdo o contingenciamento [em sua pasta]. Mas a gente sabe que a questão política está mais acima do que uma questão orçamentária", concluiu.
Com a crise política exposta no cenário internacional, o Reino Unido fica em posição vulnerável, inclusive diante de aliados tradicionais. A crise econômica também provoca insatisfação dentro do bloco britânico e alimenta movimentos políticos que podem alterar a configuração interna e influenciar o posicionamento da Câmara dos Comuns.
Por Sputnik Brasil