SAÚDE PÚBLICA

Sindicato aponta falta de segurança em obras de hospital municipal de São Paulo

Sindsep relata riscos a pacientes e servidores; Vigilância Sanitária diz ter feito recomendações e prefeitura afirma acompanhar os serviços

Por Agência Brasil Publicado em 30/06/2026 às 11:24
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial Nano Banana (Google Imagen)

Trabalhadores do Hospital do Servidor Público Municipal (HSPM), na capital paulista, denunciam falta de segurança e riscos à saúde de pacientes e trabalhadores durante obras realizadas, segundo eles, “sem as proteções permitidas”.

Entre as situações relatadas pelo Sindicato dos Trabalhadores na Administração Pública e Autarquias no Município de São Paulo (Sindsep) está o isolamento de áreas críticas apenas com plástico preto e fita crepe.

De acordo com o sindicato, a segurança e o gerenciamento de riscos ocupacionais não estão sendo considerados em novas intervenções realizadas nas instalações do hospital.

“Há meses, o hospital é um canteiro de obras, sem que se tenha previsto um diálogo com os trabalhadores, uma pactuação de cronograma ou mesmo ajustes nos fluxos assistenciais à revelação das normas internacionais do próprio hospital”, informou o sindicato, em nota.

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A entidade afirma que qualquer intervenção na infraestrutura de serviços de saúde exige planejamento específico para não interferir no processo de trabalho nem prejudicar o atendimento. “A obra iniciada no meio do centro cirúrgico está delimitada apenas por plásticos pretos presos com fita crepe, dois meses após a primeira denúncia”, relatou o Sindsep.

A secretária de Trabalhadores da Saúde do Sindsep, Flávia Anunciação, disse que a representação dos trabalhadores não é trabalhadora na reforma do hospital, mas questiona a forma como ela está sendo realizada.

“Qualquer outro empreendimento que tocasse as obras do jeito que o Hospital do Servidor está fazendo, qualquer hospital do setor privado, estaria fechado”, afirmou, em entrevista à Agência Brasil .

“Em hospital privado, quando você olha o plano de contingência para obras, você vê a posição de um setor para um determinado espaço, então você reforma e só depois retorna [para o espaço original]”, disse. “A gente também questiona fazer isso tudo de uma vez só, sem um plano de contingência muito bem estruturado.”

Contaminação

Um dos riscos apontados é a contaminação pela destruição gerada na obra, um pó fino que pode causar problemas de proteção e maior risco de infecção. “O próprio instrumental do hospital prevê o uso de drywall dependendo do setor. Se precisar fazer corte de peças de cerâmica pode ser usado uma makita [serra elétrica] que solte água, para reduzir o pó produzido no local. Mas o que tem é plástico, madeirite e fita crepe”, relatou Flávia.

O sindicato avalia que a situação é extremamente grave, porque, sem barreiras adequadas e sem organização conforme a agenda de procedimentos, a obra pode contaminar o ambiente hospitalar, as superfícies e os materiais estéreos.

Poeira e fungo

A denúncia do Sindsep informa que poeira no ambiente hospitalar pode causar infecção por Aspergillus , gênero de fungo comum no ambiente, cujos esporos podem causar infecções respiratórias graves, conhecidas como aspergilose.

Segundo informações do Ministério da Saúde, o ambiente hospitalar está relacionado à transmissão da aspergilose em indivíduos imunocomprometidos, podendo causar inclusive óbito.

“A transmissão ocorre pela inalação de esporos do fungo presentes no sistema de ventilação contaminado, uso de chuveiros, contato direto com roupas ou objetos contaminados e ar contaminado por obras ou reformas no ambiente hospitalar”, diz material informativo no site da pasta .

As sons também incluem ruído sonoro. “Não tem nenhuma contenção para ruído. [Tem] ruído em áreas onde os pacientes estão internados, em enfermaria. Tem fotos em que a obra está acontecendo e no fundo está a pediatria e a UTI pediátrica. E os trabalhadores reclamando: tem pó, tem ruído, o pó chega aqui. Você imagina alguém dentro de uma UTI e a poeira, o risco é de contaminação”, afirmou Flávia.

Situações reincidentes

Em abril, o Sindsep já havia divulgado imagens denunciando situações na obra do Hospital do Servidor. Na ocasião, foi registrado um grande vazamento de água descendo pelo teto de um dos andares e dos elevadores.

"O terceiro andar alagado, trabalhadores da reforma sem saber o que fazer, pacientes tentando desviar, servidores do andar puxando água com rodos, tirando mobiliário e buscando reduzir danos aos pacientes. Macas sendo transportadas com pacientes no meio da água. Quatro dos sete elevadores paralisados", denunciou o sindicato na época.

Segundo o sindicato, uma denúncia sobre a situação foi feita ao Centro de Vigilância Sanitária (CVS), ainda em abril. "A RDC 50/2002 orienta como tem que ser feito as reformas dentro das unidades de saúde. Muito me entristece que a gestão que está sendo feita abdique da principal coisa: o cuidado com a segurança de quem não tem alternativa a não ser recorrer ao hospital do servidor", lamentou Flávia.

A Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) 50/2002 é uma norma técnica da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que estabelece os requisitos obrigatórios para planejamento, programação, elaboração e avaliação de projetos físicos de Estabelecimentos Assistenciais de Saúde (EAS) do país.

Em salas de cirurgia, por exemplo, seria necessária uma barreira hermética, de acordo com a Norma Brasileira Regulamentadora (NBR-7256, da ABNT), citada na resolução da Anvisa.

O Centro de Vigilância Sanitária (CVS) do Estado de São Paulo informou, em nota, que a inspeção feita no Hospital do Servidor Público Municipal organiza que as obras em andamento ocorrem em áreas de circulação interna.

"Durante a vistoria, foram observadas medidas de controle para mitigação de riscos já impostas pela instituição. Também foram feitas novas recomendações para o reforço das ações de controle de poeira, isolamento de áreas em obras, sinalização de segurança, limpeza e gerenciamento de riscos, com o objetivo de garantir a segurança de pacientes, profissionais e demais usuários", diz a nota.

A vigilância sanitária também recomenda o acompanhamento das intervenções pelo Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST), para monitoramento dos riscos ocupacionais durante a execução das obras.

A prefeitura, por meio da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), informou, em nota, que “o Hospital do Servidor Público Municipal (HSPM) passa atualmente por um amplo conjunto de obras para a modernização de suas antigas instalações, previsões para serem concluídas até o final deste ano”.

“Os serviços são constantemente acompanhados pelas equipes de Engenharia, Segurança do Trabalho e Controle de Infecção Hospitalar do HSPM”, finaliza a nota.