Brasil busca agenda prática com vizinhos após avanço da direita na América Latina
Governo aposta em cooperação bilateral em infraestrutura, energia, segurança e desastres naturais, apesar do isolamento regional
O governo brasileiro aposta em uma relação bilateral com países latino-americanos governados pela direita ou extrema-direita baseada em agendas pragmáticas, sem ênfase ideológica. Entre os temas considerados prioritários estão infraestrutura, energia, combate ao crime organizado e cooperação no enfrentamento a desastres naturais.
As vitórias de Keiko Fujimori, no Peru, e de Abelardo De La Espriella, na Colômbia, somadas às eleições de representantes de direita no Chile, Equador e Bolívia no ano passado, deixaram o Brasil mais isolado na América do Sul. O país aparece ao lado do Uruguai como representante do campo progressista na região.
Para o governo brasileiro, esse cenário não deve comprometer as relações bilaterais do Brasil com Peru, Equador, Chile, Colômbia e Bolívia. A exceção apontada é Javier Milei, na Argentina, que tem adotado postura mais hostil em relação ao governo brasileiro.
Nos demais casos, a avaliação é que os interesses concretos de cada país devem prevalecer em uma agenda menos vinculada às ideologias. Entre os exemplos estão parcerias para investimentos em infraestrutura capazes de conectar o oceano Pacífico ao Atlântico.
As parcerias na área de energia também devem continuar e se aprofundar, especialmente após a guerra no Irã, que expôs vulnerabilidades globais do setor.
Um dos sinais dessa direção é o interesse do presidente do Chile, José António Kast, em realizar uma reunião bilateral com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a cúpula do Mercosul, nesta semana.
O pedido de ajuda de Rodrigo Paz ao Brasil, no contexto dos protestos na Bolívia, e a resposta cordial do presidente eleito da Colômbia à manifestação de Lula por sua vitória também são vistos como indicações de que as relações entre o Brasil e seus vizinhos de direita serão orientadas por interesses concretos de cada nação.
Meio ambiente entre Brasil e Colômbia
Por outro lado, o professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), Roberto Goulart Menezes, avalia que, mesmo com a continuidade das relações bilaterais, a situação geopolítica na América do Sul é “delicada”, entre outros motivos, pelo perfil dos mandatários da extrema-direita.
“Nós não estamos falando mais de governos de direitas convencionais. Nós vamos lidar ainda com o governo na Colômbia, de alguém que não tem o perfil da direita convencional colombiana”, afirmou à Agência Brasil.
Menezes acrescenta que a Colômbia vinha contrabalançando o afastamento da Argentina nas relações com o Brasil. Para ele, a cooperação na proteção do meio ambiente entre Brasil e Colômbia, vista durante o governo de Gustavo Petro, deve ser prejudicada.
“Temas ligados à Amazônia serão afetados. O Brasil vinha dialogando muito estreitamente com a Colômbia. Vale lembrar, em agosto de 2023, que a cúpula da Amazônia foi uma iniciativa Brasil-Colômbia. O tema ambiental, que é chave neste momento, está estremecido”, completou.
Defesa da democracia e China
O avanço de governos de extrema-direita na América Latina também deve afetar o debate sobre a defesa da democracia no continente, segundo o professor da UnB.
O especialista cita ainda as relações comerciais dos países da região com a China, que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tenta interromper.
“O Brasil, nesse momento, está numa situação que a gente não viu nos últimos 20 anos. Ou seja, governos que estão alinhados e são subservientes aos EUA e que, na América do Sul, nós temos só Brasil e Uruguai que não está nessa agenda pró-Trump”, completou.
Cooperação multilateral
Apesar da confiança na manutenção das relações bilaterais com países vizinhos, o governo brasileiro reconhece que uma cooperação coletiva, no nível multilateral, se tornou inviável.
A avaliação é que a vitória de candidatos alinhados à política dos Estados Unidos dificulta a construção de uma agenda regional sem a presença e a autorização de Trump.
Com isso, tendem a perder força fóruns como a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), que o Brasil tentou impulsionar a partir da eleição de Lula em 2023.
Por outro lado, na avaliação do governo brasileiro, o Mercosul deve permanecer como fórum regional relevante. O bloco é visto como uma plataforma mais institucionalizada, voltada ao comércio, capaz de atrair o interesse de governos de diferentes orientações políticas e ideológicas.