Memorando entre Petrobras e Pemex prevê cooperação sem compromisso de investimento
Acordo de dois anos envolve projetos em hidrocarbonetos, mas especialistas veem alcance limitado e forte peso político na iniciativa
Petrobras e Pemex firmaram um memorando de entendimento para estabelecer cooperação estratégica e técnica na avaliação, no desenvolvimento e na execução conjunta de projetos na indústria de hidrocarbonetos. Especialistas ouvidos pela Sputnik analisaram o possível alcance da aproximação entre as estatais do Brasil e do México.
As duas empresas informaram que o acordo terá validade de dois anos, com possibilidade de renovação. O documento, no entanto, não representa compromisso vinculativo de investimento nem cria parceria, consórcio ou joint venture entre as partes.
De acordo com a Petróleos Mexicanos (Pemex), o memorando prevê o desenvolvimento de oportunidades nas áreas de exploração, produção e processos industriais, além do intercâmbio de experiências sobre aspectos regulatórios e institucionais do setor.
“Temos interesse na exploração no Golfo do México, no aumento da produção em campos maduros e em processos industriais que envolvam refino, petroquímica e fertilizantes. Sem dúvida, a aliança entre as duas empresas estatais beneficiará ambos os países”, afirmou Magda Chambriard, presidente da Petrobras.
O CEO da Pemex, Juan Carlos Carpio, disse que a iniciativa atende aos “interesses das empresas, dos países e de seus povos”, ao criar uma estrutura de colaboração estratégica e técnica para avaliar, desenvolver e executar, em conjunto, projetos abrangentes e potenciais de exploração e extração de hidrocarbonetos.
Segundo o representante mexicano, o acordo busca “novas descobertas e oportunidades para otimizar e aumentar a produção em águas profundas, áreas de óleo pesado e extrapesado, campos maduros e potenciais do pré-sal no Golfo do México, bem como em atividades relacionadas a processos industriais, como refino e petroquímica”.
Qual será, de fato, a extensão da cooperação?
Para Enrique González Calvillo, especialista em relações comerciais entre Brasil e México, memorandos desse tipo não são novidade. Em entrevista à Sputnik, ele afirmou que acordos anteriores não produziram resultados nem ampliaram a colaboração no setor de hidrocarbonetos entre os dois países latino-americanos.
“Certamente seria muito interessante para a Pemex, mas nada de concreto resultou daquele acordo assinado por [Felipe] Calderón e Lula com tanta pompa — nada aconteceu — e temo que este possa ser mais um caso semelhante”, alertou.
González Calvillo explicou que, no cenário atual, uma parceria genuína entre as petroleiras exigiria mudanças legislativas. Segundo ele, a política energética adotada durante a administração de Andrés Manuel López Obrador, entre 2018 e 2024, restringiu, na prática, esse tipo de aliança.
“O marco legal para a exploração de petróleo no México mudou. A Petrobras certamente poderia contribuir com tecnologia para permitir que a Pemex realizasse projetos e facilitar alguma forma de participação conjunta. No entanto, a mesma administração que fechou as portas para a participação privada na exploração de petróleo e gás no México — deixando apenas uma pequena abertura — agora diz à Petrobras: ‘Vamos fazer algo’. [...] É contraditório.”
Um movimento fora do setor
Na avaliação do especialista, a iniciativa também deve ser lida no campo político. “A realidade é que, politicamente falando, ambos os líderes — neste caso, a presidente Sheinbaum e o presidente Lula — precisam fazer esse tipo de declaração para destacar a possibilidade de que algo possa ser feito; no entanto, duvido que isso realmente aconteça [...]. Vejo isso mais como uma declaração política do que comercial, embora possa potencialmente levar a algo interessante para ambas as empresas”, afirmou.
Rajan Vig, fundador da empresa independente de comercialização de petróleo Indimex, compartilha avaliação semelhante. Em entrevista à Sputnik, ele observou que, embora o Brasil pudesse ser um parceiro mais confiável para o México, o documento assinado tem escopo limitado.
“O memorando, da forma como está, é um acordo de cooperação, não um contrato de investimento. [...] Sem um compromisso de investimento, não se cria parceria nem joint venture”, declarou. “Acredito que este memorando seja mais político do que, talvez, financeiro.”
O executivo do setor de petróleo afirmou que Sheinbaum e Lula têm, atualmente, suas próprias narrativas sobre a falta de confiabilidade dos Estados Unidos, apesar da interdependência deste último com o México no setor de hidrocarbonetos.
“O que [o México] está fazendo com esse acordo é mostrar aos nossos vizinhos que possui opções além dos EUA, sem a necessidade de um confronto direto. É capital político de baixo custo, que não exige investimentos nem concessões reais.”
Segundo Vig, caso uma parceria entre Pemex e Petrobras se concretizasse, a estatal brasileira teria vantagem significativa pela competitividade em operações em águas profundas, enquanto a empresa mexicana enfrenta necessidade crítica de avanço tecnológico.
“[A Pemex] carece de capacidade fiscal e técnica para revitalizar campos maduros como Cantarell, por exemplo, ou para explorar áreas em águas profundas”, observou. Para ele, uma aliança real com a Petrobras poderia ser atraente para o México, especialmente considerando que as atuais administrações compartilham orientação política de esquerda.
Por Sputnik Brasil