GEOPOLÍTICA

'O Brasil já é alvo' dos Estados Unidos, afirma José Genoíno a Sputnik Brasil

Por Sputnik Brasil Publicado em 26/06/2026 às 21:22
José Genoíno © Sputnik / Guilherme Correia

O Brasil já está na mira do "imperialismo americano", mesmo que o governo federal não se posicione contra os interesses de Washington. Com essa afirmação o ex-deputado federal e dirigente do Partido dos Trabalhadores (PT), José Genoíno, expôs uma de suas visões a respeito do atual cenário político a Sputnik Brasil.

"O Brasil é alvo. O Brasil já é alvo. O tarifaço prova isso. A conceituação de PCC [Primeiro Comando da Capital] e Comando Vermelho como organizações terroristas é uma demonstração desse alvo."

As ações militares americanas na Venezuela, segundo ele, exemplificam como os EUA operam. "Tem bomba, tem míssil, tem drone, tem destruição", disse.

Na sua visão, os estadunidenses operaram nas guerras contra as drogas, terrorismo e por fim, a corrupção, que foi usada para desestabilizar governos sul-americanos progressistas. No entanto, ele entende que esse imperialismo tem acumulado derrotas.

Além do potencial geopolítico pela dimensão territorial e econômica e pela influência que tem na América do Sul, o Brasil tem riquezas naturais como petróleo, terras raras, áreas agrícolas, dentre outras, o que o torna alva de países como o EUA, destacou.

"Quando o império entra numa crise de decadência, ele se torna muito agressivo, porque vai pro tudo ou nada, vai pro desespero, vai pra aventura, vai pro fascismo. Não tem limite."

O Brasil, nesse jogo, tem vulnerabilidades como um capitalismo dependente, sem autonomia, e com um setor da classe dominante que ele chamou de "vassalo". O agronegócio, que acumula cifras bilionárias e que responde por quase metade do valor exportador pelo país, é um desses setores, citou, "sem sentimento nacional e que se vende para qualquer comprador".

Entretanto, Genoíno avaliou que o mundo multipolar não é uma escolha, mas uma realidade inevitável, ainda que "confusa".

Lula 3

Genoíno avaliou que o terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou por uma fase de conciliação e frente ampla, mas que "o resultado dessa tática não foi o melhor".

Para ele, um eventual "Lula 4 tem que fazer essa avaliação do Lula 3 e apostar num caminho mais à esquerda".

Como referência, comentou o segundo mandato do petista, em meio a crise do mensalão, quando o governo apoiu-se no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), uma inflexão em relação ao programa neoliberal, na sua opinião.

O governo precisa questionar a atual privatização, a austeridade fiscal e "a financeirização sem limite", defendeu ele, ao mencionar o escândalo envolvendo o banco Master e as dívidas bilionárias pagas pelo país ao setor financeiro.

"Nós temos que mexer nessa casa-mata da riqueza oligarca dos privilegiados históricos e de sempre do Brasil."

Para ele, é preciso disputar a opinião pública para "ganhar corações e mentes" e fazer alianças eleitorais pontuais, e não programáticas. Logo, defendeu, a renovação das esquerdas não deve ser pautada apenas na questão etária, priorizando jovens na política para solucionar problemas mais amplos:

"Não podemos reduzir a renovação como se fosse uma questão etária. A questão etária tem que estar embutida numa questão ideológica, cultural, porque o futuro foi capturado pela subjetividade neoliberal. A renovação não é a gente se enfurnar numa rede social e achar que estamos renovados."

Escândalo do mensalão

Genoíno mencionou a palavra "autocrítica" duas vezes durante os cerca de 40 minutos da entrevista que concedeu à Sputnik Brasil em sua casa, em São Paulo (SP). Na primeira, ele disse o PT apostou em um caminho que facilitou os golpes que foram dados contra o partido:

"Eu vivi intensamente a experiência do mensalão. Fui condenado pelo que eu era, não pelo que eu fiz. A gente cometeu ilusões em relação ao sistema de justiça, e o sistema de justiça promoveu a criminalização da política junto com a grande mídia."

O mensalão, escândalo político que eclodiu em 2005, durante o primeiro mandato de Lula, ocorreu a partir de denúncias de que o PT pagava mesadas a deputados da base aliada em troca de apoio a votações no Congresso.

O caso levou à condenação de dirigentes e parlamentares pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2012, incluindo Genoíno — que teve sua pena extinta em 2014, pela mesma Corte.

Para ele, o STF foi um espetáculo político, com "ministros do Supremo em fila indiana para nos condenar sem nenhuma prova concreta", e o PT ficou na defensiva, criticou. O impeachment de Dilma Rousseff (PT) veio em seguida para abrir caminho para a extrema direita crescer, segundo ele.

Os "monstrinhos alimentados pela cultura da Paulista", disse, "viraram monstrões [...] A esquerda tem que se livrar da toga, da batina e da farda. Tem que ser uma esquerda com relações com o movimento popular, que aposte na soberania popular como algo radical."

Genoíno defendeu uma reforma profunda no judiciário, com mandatos para ministros do Supremo, e separação entre relações públicas e privadas. Ele também criticou o fato de o Ministério Público ter se tornado um quarto poder com aval da própria esquerda, que lhe concedeu poderes excessivos.

Ao afirmar que por muito tempo o PT tentou se alinhar à grande imprensa, o que se revelou ser um erro, ele concluiu sua fala explicando que não concede entrevistas à mídia tradicional, e cobrou que o governo Lula adote postura semelhante de valorização da mídia alternativa.

"Quando eles [grande imprensa] me ligam, eu digo: eu não falo com vocês. Eu só falo com a mídia alternativa. Nasci de uma geração que lutava por causas e quero retomar a ideia de lutar por causas, por sonhos, e não por interesses, por privilégios, por situação material. Nunca foi tão correta aquela frase de Rosa Luxemburgo, de que é socialismo ou barbárie."