Jornalismo independente é infraestrutura essencial para o desenvolvimento sustentado, direitos humanos, segurança nacional e resposta a crises, diz estudo global
O jornalismo profissional, independente, plural e feito com método gera retorno econômico mensurável, fortalece a segurança nacional e os direitos humanos, salva vidas em crises e desastres, melhora a governança pública e oferece mecanismos de combate à corrupção. Essa é a principal conclusão do relatório The Value of Journalism: Global Evidence on Why Media Matters to Economics, National Security and Crises, divulgado nesta semana durante o Global Media Forum, em Bonn, na Alemanha. O estudo, encomendado pela UNESCO em parceria com o International Fund for Public Interest Media (IFPIM) e a DW Akademie, mostra que países com imprensa livre tendem a apresentar maior atração de investimentos, maior estabilidade econômica e melhor distribuição de recursos públicos.
Elaborado por Mel Bunce e Beth Pearson, da City St George’s, University of London, o relatório reúne pesquisas acadêmicas internacionais para demonstrar que o jornalismo é muito mais do que um pilar do processo de aperfeiçoamento da democracia, mas uma infraestrutura estratégica para o desenvolvimento econômico, a segurança coletiva e a gestão de crises.
“Este estudo demonstra, com números, o que já se sabia intuitivamente: o valor decisivo do jornalismo e de uma imprensa livre para a economia e as sociedades”, afirmou o presidente-executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Marcelo Rech.
Desenvolvimento sustentado
O documento sustenta que a atividade jornalística é um bem público capaz de gerar benefícios concretos para as sociedades ao estimular o crescimento econômico, aumentar a capacidade de confronto à desinformação e de diálogo para a superação de conflitos, além de melhorar os resultados durante emergências e catástrofes.
O relatório cita pesquisa realizada em 97 países que concluiu que a redução da liberdade de imprensa está associada a uma queda de 1% a 2% no crescimento real do Produto Interno Bruto (PIB) global. Segundo o estudo, que também mostra que os efeitos negativos são persistentes e podem levar anos para serem revertidos, em contrapartida, cada US$ 1 investido em jornalismo pode gerar mais de US$ 100 em benefícios públicos, por meio da recuperação de recursos desviados, da melhoria de serviços públicos e da redução da corrupção.
Os pesquisadores lembram outro dado alarmante: o custo da desinformação, estimado entre US$ 355 bilhões e US$ 516 bilhões por ano.
O documento destaca que a atuação jornalística de meios de comunicação independentes tem potencial para escrutinar e cobrar que autoridades públicas, organizações e empresas privadas sigam as legislações vigentes. Esse tipo de fiscalização resulta em mais transparência, melhora processos de tomada de decisão e reduz práticas ilícitas, diz o relatório.
Por outro lado, o trabalho encomendado pela UNESCO ressalta que, na ausência do jornalismo, os cidadãos ficam menos informados, a participação eleitoral diminui, a corrupção cresce, a eficiência administrativa piora e problemas ambientais se tornam mais frequentes devido à redução da fiscalização pública.
Os pesquisadores afirmam ainda que o jornalismo independente, por trabalhar na busca constante pela verdade dos fatos, está entre as ferramentas mais eficazes para combater mentiras e fraudes nas redes sociais. De acordo com o relatório, em um cenário marcado pela proliferação de conteúdos falsos e campanhas de manipulação, o jornalismo e a informação confiável tornaram-se elementos estratégicos para a estabilidade dos países.
Direitos humanos
O relatório cita outra pesquisa, envolvendo 152 países, que identificou que sociedades com maior acesso à mídia livre registram menos abusos de direitos humanos, menor incidência de repressão estatal e menor probabilidade de conflitos internos e externos.
O estudo enfatiza ainda o impacto do jornalismo em situações de emergência. Uma análise de 2.337 desastres concluiu que cada reportagem adicional publicada pelo The New York Times gerou, em média, US$ 500 mil extras em ajuda humanitária oficial. Segundo os autores, a cobertura jornalística aumenta a visibilidade de crises e acelera a mobilização de recursos internacionais.
O trabalho de pesquisa afirma que, em emergências, a informação pode ser tão importante quanto abrigo, água e alimentos. “A divulgação rápida e precisa de informações ajuda populações afetadas a tomar decisões, reduz a circulação de boatos e fortalece a coordenação entre governos, organizações humanitárias e comunidades locais.”
Isso também contribui para a melhora dos sistemas de saúde pública. Um exemplo mostrado é o aumento significativo da procura por tratamento infantil em Burkina Faso, a partir de programas de rádio voltados à orientação médica. A mortalidade de crianças menores de cinco anos caiu 7,1% ao ano, com estimativa de 2.967 vidas salvas.
Sustentabilidade do jornalismo
Nesse cenário, que se soma a ataques cada vez mais contundentes contra as liberdades de imprensa e de expressão, a UNESCO registrou queda global de 10% nesses indicadores desde 2012. Os pesquisadores indicam que o setor enfrenta redução de financiamento público, cortes em programas internacionais de apoio à mídia, fechamento de veículos locais e perda de receitas tradicionais para plataformas digitais e empresas de inteligência artificial.
De acordo com o relatório, um pequeno grupo de grandes empresas de tecnologia domina a distribuição de notícias, o acesso à publicidade digital e a relação entre veículos de comunicação e audiência. Em paralelo, estudos citados pela UNESCO indicam que conteúdos produzidos por veículos jornalísticos tradicionais aparecem com frequência significativa nos conjuntos de dados utilizados para treinar modelos de inteligência artificial.
Segundo a organização, essa transformação representa uma mudança estrutural na economia da informação e exige mecanismos capazes de garantir sustentabilidade financeira para o jornalismo profissional.
O relatório apresenta uma proposta global para contribuir com a sustentabilidade do jornalismo. Destaca que especialistas estimam que um investimento equivalente a apenas 0,1% do PIB mundial seria suficiente para financiar ecossistemas saudáveis de mídia independente em todo o planeta.
“As descobertas surgem em um momento crítico. À medida que o financiamento da mídia pública diminui e o apoio ao desenvolvimento da mídia enfrenta pressão crescente, este relatório oferece um lembrete importante: o jornalismo é um bem público que sustenta sociedades resilientes e prósperas”, afirmou a diretora-geral adjunta de Comunicação e Informação da UNESCO, Mariya Gabriel.
“Os fatos apresentados neste relatório falam por si”, disse Maha Taki, diretora da Unidade de Avaliação e Aprendizagem do International Fund for Public Interest Media. “No entanto, muitos dos benefícios do jornalismo independente continuam pouco reconhecidos e subestimados. Hoje, quando o apoio à mídia independente está diminuindo globalmente, é mais importante do que nunca reconhecer que o jornalismo é um bem público que gera benefícios tangíveis para as sociedades. Elas se tornam mais prósperas e mais bem preparadas para responder aos desafios complexos que enfrentam.”
Pagamento por direitos autorais
Além disso, a UNESCO mantém aberta uma consulta pública global sobre remuneração justa para o jornalismo na era digital. A iniciativa busca elaborar diretrizes para os 194 Estados-membros da organização diante do crescente uso de conteúdo jornalístico por plataformas digitais e sistemas de inteligência artificial.