Corredor do Lobito atrai investimentos e levanta debate sobre soberania
Projeto conecta Angola, República Democrática do Congo e Zâmbia e prevê aporte para modernização e expansão ferroviária
O Corredor do Lobito, projeto estratégico que reúne porto e ferrovia com capacidade de conectar Angola, a República Democrática do Congo (RDC) e a Zâmbia, é apontado como uma iniciativa com potencial de desenvolvimento para a África Austral. Ao mesmo tempo, a presença de investimentos dos Estados Unidos e de países europeus levanta discussões sobre soberania e dependência financeira.
Em 2023, um consórcio formado por empresas da Bélgica, Portugal e Suíça criou a Lobito Atlantic Railway, a Ferrovia Atlântica do Lobito, em tradução livre. O grupo conta com aporte dos EUA e da União Europeia e prevê investir cerca de US$ 455 milhões, aproximadamente R$ 2,36 bilhões, na modernização e expansão da linha ferroviária.
A importância do complexo, que tem atraído a atenção de atores estrangeiros, foi analisada pela mestranda em relações internacionais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisadora de África Subsaariana no Núcleo de Avaliação da Conjuntura (NAC), Luísa Barbosa Azevedo, em entrevista à Sputnik Brasil.
“É um projeto estratégico que liga o porto do Lobito, um dos maiores de Angola, e é importante para o comércio da África Austral. Alguns geógrafos e analistas chamam de corredor do cobre africano. Para mim, é um exemplo de que países africanos têm que lidar com a dualidade entre equilibrar a influência de atores externos e também a consonância com seus interesses econômicos e sociais”, disse.
Segundo a analista, o projeto tem relação histórica com o Caminho de Ferro de Benguela, construído durante o período colonial português, entre 1903 e 1930. A linha ligava o Atlântico angolano à fronteira de Luau com a RDC.
“A ideia do corredor não surgiu do nada e remonta historicamente ao Caminho de Ferro de Benguela, que foi uma das principais rotas durante a colonização portuguesa e de outros colonos na região, como holandeses e belgas, que usavam o corredor para exploração logística. Eles tiravam os minerais e os recursos naturais até o Oceano Atlântico e chegavam a outros países”, comentou.
Dependência financeira e falta de Cooperação Sul-Sul
Na avaliação de Luísa, um dos pontos sensíveis da relação comercial entre Luanda e países do eixo ocidental é a assimetria entre as economias, fator que pode impor limites ao governo angolano.
“Ao mesmo tempo que Angola busca autonomia econômica, ainda depende muito da exportação de petróleo e encontra dificuldades, que é essa dependência do financiamento, que é histórico. O consórcio [europeu] já está desde 2023 para assinar, operar e ser responsável por certa cotação do que vai sair do corredor”, destacou.
Para a pesquisadora, que publicou recentemente o artigo “O Corredor Lobito na geopolítica dos minerais críticos” no Boletim Geocorrente do NAC da Escola de Guerra Naval, a atração de investimentos estrangeiros pelo Corredor do Lobito também poderia abrir oportunidades para países do Sul Global, como o Brasil, aprofundarem a Cooperação Sul-Sul.
“Angola e Brasil têm relações históricas e uma relação cultural muito forte com Angola, que talvez não esteja tão à mostra, a gente não disputa muito isso, mas deveríamos discutir mais com países africanos. Acho que há oportunidade [no Corredor Lobito], principalmente por questões como o corredor bioceânico [no Brasil], de discutir maneiras e formas de realmente entrar em uma Cooperação Sul-Sul”, observou.
Região é estratégica no cenário internacional instável
Com conflitos em áreas relevantes para o comércio exterior, como o estreito de Ormuz, o Corredor do Lobito pode se tornar um fluxo a ser explorado entre países africanos para impulsionar suas economias. De acordo com Luísa, a cooperação intra-africana já é uma tendência.
“Há uma grande interligação dos países africanos, principalmente no que diz respeito ao aumento do comércio intraafricano e ao desenvolvimento socioeconômico, pensando as aspirações africanas, e digo isso também pela Agenda 2063 da União Africana [que visa transformar o continente em uma potência econômica] e pela atuação dela no continente”, concluiu.
Apesar do legado histórico e estrutural da exploração colonial no continente africano, o texto aponta uma dinâmica dupla de emancipação, marcada pela consolidação de discursos anticoloniais e pela expansão da integração econômica intra-africana.
Por Sputnik Brasil