POLÍTICA INTERNACIONAL

Analistas apontam risco de tensão política em futuro governo de Keiko Fujimori

Roberto Sánchez voltou a contestar o resultado e convocou uma manifestação para 27 de junho, enquanto especialistas avaliam impactos na governabilidade

Por Sputnik Brasil Publicado em 25/06/2026 às 05:26
Keiko Fujimori deve assumir o Peru em meio a questionamentos de Roberto Sánchez © AP Photo / Martin Mejia

A decisão de Roberto Sánchez de não reconhecer a vitória de Keiko Fujimori pode ampliar a instabilidade política no Peru, segundo avaliações feitas à Sputnik por analistas peruanos. Para Martín Manco, a postura do candidato pode favorecer uma “onda de violência”. Já o cientista político José Carlos Requena vê na estratégia uma tentativa de Sánchez de se consolidar como liderança “anti-Fujimori”.

Embora os órgãos eleitorais ainda não tenham proclamado oficialmente o resultado, a vantagem de Keiko Fujimori na apuração dos votos é considerada insuperável, o que a coloca como próxima presidente do país sul-americano. Mesmo assim, seu adversário no segundo turno, Roberto Sánchez, reafirmou que não reconhece a vitória.

Em publicação nas redes sociais, Sánchez reiterou a posição de seu partido, Juntos por el Perú, de que os votos dos peruanos no exterior devem ser anulados. A alegação é baseada em mudanças regulamentares no procedimento de envio e transmissão desses resultados.

À Sputnik, o analista político José Carlos Requena afirmou que, apesar da proclamação oficial ainda estar pendente, Keiko Fujimori deverá assumir a Presidência do Peru em 28 de julho. Segundo ele, os recursos apresentados por Sánchez não devem prosperar nos órgãos eleitorais do país.

Para Requena, a postura de Sánchez tem caráter “mais simbólico” do que realista. Ainda assim, o especialista considera improvável que o candidato recue nos próximos dias, já que essa posição pode fortalecer sua imagem como principal nome da oposição.

“É inegável que Sánchez será a oposição mais difícil que Keiko Fujimori enfrentará, e acredito que isso poderá consolidar o núcleo de votos no qual ela baseou seu crescimento rumo ao segundo turno e ajudá-la a olhar para as próximas eleições em 2031 ou até mesmo antes”, opinou o analista político.

Também ouvido pela Sputnik, o analista Martín Manco classificou as ações de Sánchez como “uma atitude grave”. Para ele, a insistência em contestar o resultado pode afetar desde a economia até a governabilidade do futuro governo, em um país que sai de uma década de instabilidade política.

Manco avalia que o candidato do Juntos por el Perú tenta recorrer à “retórica patriótica” e “erguer as bandeiras do nacionalismo” para estimular uma reação popular contra a posse de Fujimori. Embora considere improvável que “grandes massas tomem as ruas”, ele aponta que os chamados à mobilização podem resultar em bloqueios de estradas no sul do país, região onde Sánchez tem maior apoio, além de protestos em Lima capazes de aumentar as tensões.

“Haverá pessoas que sairão às ruas para protestar e provavelmente haverá pessoas que acabarão feridas porque, obviamente, a ordem interna terá que ser restaurada. Não será fácil governar um país com uma onda de violência”, alertou Manco. O especialista acrescentou que “isso é imprevisível: podemos estar brandindo nitroglicerina ou uma bala do século XVIII que não explode”.

Sánchez convocou uma manifestação para 27 de junho, definida por ele como uma “vigília democrática e pacífica”. O candidato também afirmou que não está “incitando uma insurreição civil”, mas defendendo os direitos democráticos de seu partido.

Requena demonstrou mais ceticismo sobre a capacidade de Sánchez de mobilizar apoio. Ainda assim, afirmou que o candidato “poderia se radicalizar mais com sua postura anti-Fujimori” e concentrar o apoio do eleitorado “antiestablishment e anticlasse política tradicional”.

Segundo o analista, esse perfil poderia aproximar Sánchez de um eleitorado “descontente com o espectro político de esquerda”, tornando-o uma figura representativa para “renegados de todas as correntes políticas”.

Conflito de poderes

Na avaliação de Requena, o maior desafio para o futuro governo de Keiko Fujimori não deve estar nas ruas, mas no Congresso. Nesse cenário, Sánchez também teria papel relevante como líder da oposição. O partido governista, Força Popular, poderá enfrentar dificuldades para construir acordos com legendas que, inicialmente, parecem aliadas, como a Renovação Popular, liderada pelo ex-prefeito de Lima, Rafael López Aliaga.

“Embora Keiko Fujimori tenha um terço dos votos no Senado e quase um terço na Câmara dos Deputados, estando protegida de consequências extremas, não podemos descartar moções de censura ou o bloqueio de certas leis”, explicou Requena.

Manco projetou que o mandato de Fujimori poderá ser marcado por “fortes conflitos de poder e interesses”, impulsionados por um “ressentimento” entre o partido governista e a oposição. Para ele, esse ambiente pode transformar o Peru “em uma bomba-relógio”.

“Acredito que Fujimori governará com um gosto amargo na boca por não ter sido eleita por 15 anos, e a esquerda peruana estará na oposição com um gosto amargo na boca por ter visto seus candidatos serem afastados do poder”, avaliou o especialista.

De acordo com Manco, Fujimori deveria considerar que sua vitória eleitoral “foi mínima, uma vitória de Pirro”, levando em conta o contexto de um país profundamente dividido. O analista afirmou temer que esse quadro leve o Peru “a repetir os mesmos erros dos últimos 20 anos de constante troca de presidentes”.

Por Sputnik Brasil