SEGURANÇA RADIOLÓGICA

Casos envolvendo césio-137 reacendem alerta sobre fontes radioativas

Especialistas defendem informação, fiscalização e fortalecimento institucional para reduzir riscos de novos acidentes

Por Sputnik Brasil Publicado em 24/06/2026 às 20:30
Cápsulas com material radioativo exigem controle e fiscalização permanente, apontam especialistas © AP Photo / Jessica Hill

O alerta nacional emitido pela Argentina na última semana, após o roubo de uma cápsula de césio-137 em uma unidade médica, recolocou em discussão os protocolos de segurança para materiais radioativos. O material ainda não foi recuperado e o episódio reacendeu o debate sobre riscos quase quatro décadas depois do acidente de Goiânia, um dos mais graves da história.

Um dos principais isótopos radioativos utilizados na medicina nuclear, o césio-137 é empregado em tratamentos de radioterapia, pesquisas científicas e atividades industriais. O material é armazenado em cápsulas de chumbo e, nessas condições, não oferece risco à população. O perigo surge quando essa estrutura é violada, ainda que isso seja considerado difícil.

O Brasil registrou um dos maiores acidentes mundiais com produtos radioativos há quase quatro décadas, em Goiânia. Na ocasião, o material foi retirado de uma clínica abandonada e, devido ao desconhecimento sobre o pó brilhante, várias pessoas tiveram contato com o césio-137.

Segundo a Associação das Vítimas do Césio-137, a tragédia provocou a morte de pelo menos 107 pessoas até 2012, em decorrência dos efeitos prolongados da radiação no organismo, e afetou cerca de 1,6 mil. O caso voltou ao debate público recentemente ao ser retratado na ficção em uma série de sucesso no streaming.

Nos últimos anos, pelo menos dois episódios voltaram a chamar atenção para os riscos de novos acidentes e para a necessidade de reforçar protocolos de segurança. Em 2023, dois equipamentos de uma mineradora em Nazareno, no sul de Minas Gerais, desapareceram. Apesar de terem atividade radiológica 300 mil vezes menor que os materiais de Goiânia, o caso gerou preocupação.

Em 2024, em São Paulo, criminosos roubaram o veículo que transportava cinco unidades de blindagem de geradores com material radioativo, destinadas a hospitais. As cápsulas foram encontradas intactas em um comércio de ferro-velho e, apesar das tentativas de violação, não foram danificadas. O caso levantou suspeita de desconhecimento dos funcionários sobre o símbolo que alerta para materiais radioativos. Na ocasião, os três envolvidos foram presos por receptação e porte de material nuclear.

O mestre em engenharia nuclear pela Universidade Nacional Russa de Pesquisa Nuclear (MEPhI, na sigla em inglês), Júlio de Oliveira, afirmou à Sputnik Brasil que apenas o chumbo das cápsulas possui valor comercial.

“Não há um mercado paralelo de fontes radioativas para que esses materiais sejam vendidos para aplicações industriais ou médicas, por exemplo. Além disso, uma fonte de césio não serve para ser usada como uma bomba suja”, enfatizou.

O especialista explicou ainda que, atualmente, o césio-137 é utilizado em forma gelatinosa, e não em pó, o que também reduz a radioatividade. “Houve essa mudança justamente para não se espalhar o material com tanta facilidade e permitir uma limpeza mais fácil. Um acidente como o de Goiânia não é impossível, mas é extremamente menos provável do que na época”, disse.

Informação e fiscalização são barreiras contra novos acidentes

Para a professora do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia (Coppe), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Inayá Lima, a conscientização de trabalhadores da reciclagem e da desmontagem de equipamentos é uma das medidas que podem contribuir para evitar novos acidentes com materiais radioativos.

“A experiência acumulada em diversos países demonstra que trabalhadores de reciclagem, sucateiros, transportadores, equipes de manutenção e profissionais envolvidos na desmontagem de equipamentos representam uma camada adicional extremamente importante de proteção”, afirmou à Sputnik Brasil.

Segundo a especialista, não é necessário que a população em geral domine conceitos de física nuclear. No entanto, é importante que as pessoas reconheçam símbolos de alerta e saibam quais autoridades devem ser acionadas em situações suspeitas.

“Em muitos casos, a diferença entre um incidente controlado e um acidente de maiores proporções está justamente na identificação precoce do problema. Em segurança radiológica, informação qualificada também funciona como uma barreira de proteção”, ressaltou.

Inayá observou que os casos mais comuns de desaparecimento de fontes radioativas no mundo estão relacionados ao valor econômico dos equipamentos ou dos componentes metálicos, e não ao material radioativo em si. Por esse motivo, ferros-velhos e centros de reciclagem frequentemente se tornam pontos de preocupação para as autoridades.

“Na maior parte dos casos registrados internacionalmente, o material radioativo não constitui o objetivo principal do furto. O interesse costuma estar associado ao valor econômico do equipamento, do veículo ou dos componentes metálicos que podem ser revendidos como sucata”, explicou.

A pesquisadora acrescentou que, independentemente da motivação do furto, o principal problema ocorre quando uma fonte deixa de estar sob supervisão regulatória, elevando as incertezas sobre sua localização e integridade. “Em proteção radiológica, perder o controle sobre uma fonte é sempre um evento que merece atenção imediata”, enfatizou.

Para a especialista, os episódios registrados nos últimos anos devem servir para avaliar a eficácia dos mecanismos de fiscalização e resposta das autoridades. “Uma regulação efetiva exige corpo técnico altamente especializado, capacidade permanente de inspeção, sistemas modernos de informação, preparo para resposta a emergências e presença regulatória em todo o território nacional”, destacou.

Fortalecimento institucional é apontado como herança de Goiânia

Na avaliação da professora da UFRJ, quase quatro décadas após o acidente com césio-137 em Goiânia, a principal lição deixada pela tragédia continua sendo a necessidade de fortalecer as instituições responsáveis pela segurança nuclear e radiológica.

“Goiânia demonstrou que acidentes radiológicos graves não decorrem necessariamente da complexidade da tecnologia, mas da ruptura dos mecanismos de controle institucional”, afirmou.

Ela destacou que a segurança depende não apenas da engenharia dos equipamentos, mas também da qualificação das pessoas e da capacidade do Estado de manter vigilância permanente sobre materiais potencialmente perigosos.

“A principal herança de Goiânia não é apenas um conjunto de normas técnicas. É a compreensão de que vigilância permanente, aprendizado contínuo e fortalecimento institucional são condições indispensáveis para a utilização segura das tecnologias nucleares e radiológicas.”

O professor e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia: Física Nuclear e Aplicações (INCT-FNA), da Universidade Federal Fluminense (UFF), Jesús Lubián Rios, afirmou à Sputnik Brasil que, diante dos benefícios proporcionados pelas técnicas nucleares em áreas como medicina, agricultura e meio ambiente, o uso dessas tecnologias exige responsabilidade.

“O que a gente aprende é que as técnicas nucleares são de extremo valor para a sociedade. Elas são aplicadas à medicina, à agricultura, ao estudo do meio ambiente e a diferentes áreas da economia. Mas todo esse estudo tem que ser com alta fiscalização”, complementou.

Segundo o especialista, além da conscientização, é necessário endurecer a punição para crimes e condutas que coloquem a população em risco. “Isso é o que a gente tem que aprender: ninguém pode estar acima de qualquer tipo de fiscalização e fazer o que quiser ou largar um resíduo radioativo em qualquer lugar. Deveriam existir leis muito rigorosas para coibir esse tipo de comportamento”, concluiu.