Suprema Corte dos EUA permite retomada de processo da ExxonMobil contra estatais cubanas
Ação envolve ativos nacionalizados após a Revolução Cubana e tem como base a Lei Helms-Burton, aprovada em 1996
A Suprema Corte dos Estados Unidos autorizou a ExxonMobil, maior companhia petrolífera do país, a retomar uma ação judicial contra empresas estatais de Cuba por ativos nacionalizados após a Revolução Cubana de 1959, conforme decisão obtida pela Sputnik.
O documento revoga decisão do Tribunal de Apelações do Circuito do Distrito de Columbia e determina a devolução do caso para os procedimentos cabíveis. Com isso, é reaberto o processo iniciado pela companhia em 2019.
A ExxonMobil afirma que propriedades vinculadas aos setores de petróleo e gás em Cuba foram nacionalizadas pelo governo revolucionário em 1960. A ação mira a Corporação CIMEX e a União Cuba-Petróleo, a Cupet, acusadas pela empresa norte-americana de se beneficiarem dos bens expropriados.
O processo foi apresentado com base na Lei Helms-Burton, aprovada pelo Congresso dos Estados Unidos em 1996. A legislação endureceu o bloqueio econômico contra Cuba e transformou o embargo em lei federal. A norma, aprovada há 30 anos, também limita a possibilidade de futuros presidentes norte-americanos suspenderem unilateralmente as sanções.
A lei é considerada uma das mais controversas da política dos Estados Unidos para Cuba por seu caráter extraterritorial. Pela legislação, cidadãos e empresas norte-americanas podem acionar, em tribunais dos EUA, companhias estrangeiras que supostamente obtenham lucros ou façam uso de propriedades nacionalizadas pelo governo cubano após a Revolução de 1959.
Havana denuncia há décadas que a legislação viola princípios do direito internacional e representa uma tentativa de ampliar a jurisdição dos Estados Unidos para além de suas fronteiras.
As autoridades cubanas também sustentam que as nacionalizações realizadas no início da década de 1960 ocorreram conforme a legislação do país e previam mecanismos de compensação, posteriormente inviabilizados pelo rompimento das relações bilaterais e pelo endurecimento das sanções econômicas impostas por Washington.
O uso da legislação já recebeu críticas da União Europeia, do Canadá e de outros parceiros comerciais dos Estados Unidos, que consideram a medida uma interferência em suas relações econômicas com Cuba e uma violação da soberania de terceiros países.
Há décadas, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas aprova resoluções, com apoio quase unânime da comunidade internacional, pedindo o fim do bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos à ilha caribenha.
Cuba aprova reforma econômica em meio ao endurecimento de sanções
A decisão da Corte norte-americana ocorre em um cenário de aumento das tensões entre os dois países. Desde janeiro, um decreto do presidente Donald Trump autoriza tarifas sobre importações de países que fornecem petróleo a Cuba, além de ampliar sanções contra empresas e indivíduos ligados ao setor energético cubano.
Havana acusa Washington de usar o cerco energético como forma de sufocar a economia da ilha e deteriorar as condições de vida da população.
Em reação, o Congresso cubano aprovou, na última semana, uma série de reformas econômicas para ampliar a participação do setor privado em áreas estratégicas da economia. Ao todo, foram apresentadas 175 medidas que buscam incluir o setor privado em áreas como os sistemas bancário e financeiro.
Segundo o primeiro-ministro Manuel Marrero, bancos privados poderão operar na ilha sob supervisão do Banco Central de Cuba. As medidas aprovadas também preveem maior participação de formas de gestão não estatais e de investimentos estrangeiros no setor privado.
"O que está sendo debatido aqui é o dilema de como continuar o processo de construção socialista, que sofreu o bloqueio mais longo da história imposto pela maior potência mundial", disse, à época, o presidente Miguel Díaz-Canel.