Dólar fecha a R$ 5,1874 com cautela global e atenção aos juros nos EUA
Moeda americana avançou 0,89% diante da aversão ao risco, queda de ações de tecnologia e expectativa por dados de inflação nos Estados Unidos
O dólar registrado alta firme nesta terça-feira, 23, e ficou próximo de R$ 5,20 em uma sessão negativa para moedas de países emergentes. A busca por proteção na moeda americana foi impulsionada pela aversão ao risco no exterior, em meio ao tombo das ações de tecnologia, e pela expectativa de divulgação de dados de inflação nos Estados Unidos nesta semana, que pode fortalecer apostas de alta de juros pelo Federal Reserve.
No Brasil, um ata do Comitê de Política Monetária (Copom) impediu parte do desconforto provocado pelo comunicado divulgado na semana passada. O documento, porém, deixou evidente o aumento da incerteza sobre a trajetória da política monetária, com perspectiva de pausa e posterior retomada do processo de instabilidade da taxa Selic. Os operadores avaliam que o diferencial de juros continuará elevado mesmo no caso de novo corte da taxa básica, mas alertaram para a menor atratividade do carry trade diante do aumento da volatilidade.
Em alta desde a abertura dos negócios, o dólar à vista atingiu máxima de R$ 5,1915 à tarde e cerrou o preço com avanço de 0,89%, cotado a R$ 5,1874 . Foi o maior valor de fechamento desde 30 de março, quando a moeda terminou em R$ 5,2478. Em junho, o dólar acumula valorização de 2,87% frente ao real, depois de subir 1,82% no mês anterior. No ano, as perdas, que chegaram a superar dois dígitos no início de maio, quando a taxa de câmbio rondava R$ 4,90, agora estão em 5,49%.
O economista Fabrizio Velloni afirma que a moeda americana subiu com força nesta terça-feira, 23, tanto em relação às divisas emergentes quanto frente às moedas fortes, em um ambiente de maior aversão ao risco. Segundo ele, sinais de vitalidade da economia dos Estados Unidos ampliam as especulações sobre um eventual acordo financeiro no país até o fim do ano.
"O dólar já vem subindo faz algum tempo e hoje teve uma alta mais forte. O mercado ainda está tentando entender qual vai ser a postura do Fed. As últimas declarações de dirigentes são de menor tolerância com a inflação", afirma Velloni. Ele também destacou fatores domésticos, como o aumento da volatilidade à medida que a corrida presidencial se aproxima, pesando sobre o real.
Referência para o desempenho do dólar diante de uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY subia mais de 0,30% no fim da tarde, na casa dos 101,390 pontos, após máxima de 101,433 pontos, nos maiores níveis em pouco mais de um ano. O Dollar Index acumula alta de quase 2,5% em junho e de mais de 3% no ano. O euro recuou mais de 0,40% após leituras abaixo das expectativas dos índices de gerentes de compras, os PMIs, na Europa.
Nos Estados Unidos, o PMI composto, que reúne os setores de serviços e indústria, passou de 51,5 em maio para 52,2 em junho. O resultado foi o maior em cinco meses, de acordo com pesquisa preliminar da S&P Global divulgada nesta terça-feira. Os analistas esperavam queda para 51,4%.
Os sinais de força da economia americana aumentam a atenção para a divulgação, na quinta-feira, 25, do índice de preços de gastos com consumo, o PCE, referente a maio. A expectativa ocorre especialmente após o tom duro adotado pelo novo presidente do Fed, Kevin Warsh, na última quarta-feira, 17.
“Os PMIs europeus abaixo do esperado, especialmente na Alemanha e no Reino Unido, ampliaram a aversão ao risco nos mercados globais, enquanto nos EUA os dados de atividade vieram acima da deficiência, sustentando a percepção de juros elevados por mais tempo”, afirma o economista sênior Vitor Kayo, da Nomad.
Além do cenário externo desfavorável para moedas emergentes, a economista-chefe do Ouribank, Cristiane Quartaroli, aponta a falta de fôlego dos preços do petróleo, que permanecem abaixo de US$ 80 o barril, como fator que reduz o apetite pela moeda brasileira. “Como o Brasil é exportador líquido de petróleo, essa queda da commodity acaba por afetar um pouco o câmbio”, afirma Quartaroli.
Apesar das declarações desencontradas pelas autoridades dos Estados Unidos e do Irã sobre as negociações de paz, os preços do petróleo fecharam em níveis baixos. O mercado acompanhou a flexibilização das restrições americanas ao petróleo iraniano e o fluxo de embarques pelo Estreito de Ormuz. O contrato do Brent para setembro, referência de preços para a Petrobras, encerrou em queda de 0,93%, a US$ 76,80 o barril, acumulando desvalorização de mais de 15% em junho.