ELEIÇÕES NA COLÔMBIA

Apuração preliminar indica vitória apertada de De la Espriella na Colômbia

Candidato da direita abriu vantagem de 245 mil votos sobre Iván Cepeda Castro; resultado oficial era aguardado para quarta-feira

Por Sputnik Brasil Publicado em 23/06/2026 às 17:46
Abelardo de la Espriella lidera apuração preliminar no segundo turno colombiano © AP Photo / Santiago Saldarriaga

Com diferença de 245 mil votos, o candidato da direita Abelardo de la Espriella apareceu à frente do governista Iván Cepeda Castro no segundo turno das eleições presidenciais da Colômbia, segunda apuração preliminar divulgada na segunda-feira (22). Caso os dados sejam confirmados, o país terá um novo presidente em meio a um cenário de forte polarização.

Advogado, empresário e sem histórico de cargas políticas, Abelardo de la Espriella iniciou uma campanha eleitoral sem grande projeção, mas avançou nas pesquisas ao longo das semanas. O direitista colombiano também possui cidadania italiana e estadunidense e é filiado ao Partido Republicano, do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Conhecido pela carreira consolidada e por ostentar um estilo de vida especial, o empresário conservador foi apresentado como um outsider, ou candidato antipolítico. A repete elementos usados ​​por Trump nos Estados Unidos, por Nayib Bukele em El Salvador e por Javier Milei na Argentina, lideranças citadas entre suas principais inspirações.

Durante a campanha, Espriella prometeu importar a política de segurança pública linha-dura de Bukele. Em discursos, afirmou que pretende realizar uma intervenção militar contra narcotraficantes e grupos armados, além de construir megapresídios. Também defendi o estreitamento das relações com os Estados Unidos.

O advogado e empresário, no entanto, foi alvo de críticas de adversários por ter defendido clientes identificados ligados a organizações paramilitares.

O doutor em ciência política e professor de relações internacionais da Universidade de La Salle, Andrés Londoño, atribuiu a vitória preliminar de Espriella ao uso estratégico das redes sociais. Segundo ele, a campanha conseguiu apresentar o candidato como uma espécie de salvador da pátria. O especialista também destaca a apropriação de símbolos nacionais, como a camisa da seleção colombiana, em movimento semelhante ao visto com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), no Brasil.

"Ele conseguiu pegar as ideias da direita na América Latina e se apresentar de forma eficiente no país. Para isso, apresentou soluções muito simples e práticas para resolver problemas complexos, como construir megacadeias e até propor a dolarização da economia, como fez Milei na Argentina. Mas também houve um voto de castigo às várias decisões políticas do presidente Gustavo Petro, que errou na questão da governabilidade [o dirigente apoiou Cepeda]", afirmou ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil.

Apesar da estratégia, a disputa colombiana teve um dos resultados mais apertados da história recente, com diferença de cerca de 1% dos votos. A Petro e Cepeda ainda não tinha reconhecido a vitória e aguardaram a confirmação oficial, prevista para quarta-feira (24).

A candidatura governamental conseguiu reduzir a vantagem de Espriella, que no primeiro turno ficou ficado 673 mil votos à frente, com 43,7% contra 40,9%. Cepeda fez campanha com o lema de defesa a continuidade das conquistas da gestão atual, entre 2022 e 2026, a primeira de esquerda no país. O governo está apontado no texto como responsável por aumentar o salário mínimo em 75% e reduzir a taxa de desemprego para abaixo de 9%, um dos menores índices da história.

"Abelardo poderia usar muito bem as redes sociais e até influenciadores do país, que o apoiaram e chegaram a divulgar músicas em favor do candidato. Inclusive, a primeira declaração dele após o resultado preliminar foi direcionado a esse grupo e transmitido em diversas vidas. Cepeda também utilizou essa estratégia, mas de forma mais tradicional e com influenciadores mais alternativos", enfatizou Londoño.

O professor de relações internacionais e autor do livro “Os colombianos”, Andrew Traumann, apontou ao podcast Mundioka outra estratégia usada pelo candidato da direita: os showmícios. "Tinha aquela coisa de sair de uma cápsula, como aqueles shows de rock. Isso acabou capturando muito a imagem das pessoas e ele também trouxe um ultranacionalismo, se apropriando de símbolos colombianos, ao mesmo tempo em que se atrelava aos Estados Unidos [...]. Foi a reprise de outros fenômenos que aconteceram em um passado recente, utilizando também notícias falsas contra seus adversários", explicou.

Mobilização do eleitorado na reta final

O mapa do segundo turno mostrou uma Colômbia dividida. Regiões centrais, mais ricas e populosas, como a capital Bogotá, deram vantagem a Abelardo de la Espriella. Já áreas rurais e periféricas favoreceram Iván Cepeda.

"Ele foi muito bem nessas localidades e, mesmo com todo esse poder da direita, o governo conseguiu mobilizar seu eleitorado na reta final, quando eles foram completamente observados. A esquerda foi bem nessa mobilização à moda antiga, com aquilo que dizíamos antigamente, o corpo a corpo com o eleitorado, expressão típica dos anos 1990. Mas nas redes sociais, acabaram perdendo e não perceberam que isso estava acontecendo, aparentemente", afirmou Traumann.

O especialista também lembrou que a campanha do empresário colombo-ítalo-estadunidense foi marcada por denúncias de uso massivo de robôs para espalhar desinformação, em dinâmica comparada por ele ao que ocorreu no Brasil nas eleições de 2018 e 2022. “É aquela coisa de dizer que presidiários, bandidos e guerrilheiros votam em tal candidato”, disse.

Segundo Traumann, o debate eleitoral na Colômbia foi impulsionado principalmente pela alta da criminalidade e por problemas na área da saúde. A reforma prometida por Gustavo Petro não avançou por falta de maioria no Congresso Nacional. Para o professor, esse foi um dos principais erros da administração, por não conseguir implantar um sistema universal de saúde nos moldes do que existe no Brasil.

“Na Colômbia, existe uma parceria público-privada, com planos de saúde atuando juntamente com o governo. O presidente tentou tirar esse monopólio das empresas e criar o SUS [Sistema Único de Saúde] colombiano, mas o lobby dessas empresas com os parlamentares foi muito forte junto ao Congresso. Em retaliação, o Petro deixou de fazer repasses e, consequentemente, os planos de saúde passaram a não repassar medicamentos, seringas e outros insumos básicos para os postos de saúde. Isso caiu no colo do presidente”, exemplificou.

Eleições fraudadas na Colômbia?

Traumann também comentou uma denúncia feita pelo atual governo no dia seguinte à votação. Na ocasião, o presidente acusou Israel de interferência no processo eleitoral, com invasão de urnas. O partido de Petro solicitou a anulação das votações de 33 mil equipamentos, localizados principalmente no exterior.

Apesar das suspeitas e do pedido de recontagem de votos, o especialista considera pouco provável que haja mudança no resultado. “Há relatos, inclusive, de ataques ao sistema eleitoral colombiano vindos dos Estados Unidos e da Europa. Então, considero essa uma possibilidade, mas acho pouco provável que isso altere o resultado final. Para o senso comum, a percepção será de que houve manipulação: ‘Perderam, não souberam perder, então roubaram, anularam as urnas e por aí vai’. Não sei se o desgaste político de passar por isso compensa. Tenho até receio, diante do histórico de violência política da Colômbia”, declarou.

Quais os impactos para o Brasil?

Caso a vitória de Abelardo de la Espriella seja confirmada pelas autoridades eleitorais, ele passará a integrar uma onda de direita que voltou a ganhar força na América Latina nos últimos anos. Além da Argentina, grupos alinhados a Trump e a outras lideranças conservadoras venceram em Honduras, Chile, Bolívia e Equador. No Peru, o cenário segue indefinido, mas com Keiko Fujimori à frente.

Para Andrés Londoño, o resultado na Colômbia tende a aprofundar o isolamento regional do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Segundo ele, o Brasil já perdeu parte da capacidade de iniciativas lideradas na América Latina, em um contexto de ascensão de novas direitas alinhadas aos movimentos conservadores na Europa e nos Estados Unidos.

"Em outros momentos da história, o Brasil liderou muitas iniciativas regionais e conseguiu que os outros países aceitassem essa liderança. Ultimamente, o Brasil perdeu essa capacidade não apenas por limitações próprias, mas também pelo ascenso dessas novas direitas, em consonância com a direita europeia e com Trump, que tem uma tradução na América Latina", afirmou.

De acordo com o especialista, a redução do número de governos de esquerda na região enfraquece projetos de integração e a busca por posições comuns em fóruns internacionais. Em contrapartida, governos conservadores estariam mais voltados para temas internos e à aproximação com Washington.

"Essa minoria de presidentes que ainda aposta na integração regional e em posições comuns em alguns cenários internacionais é cada vez menor. Os governos de direita na América Latina estão mais preocupados com problemas internos, mas também com a cooperação com os Estados Unidos", acrescentou.

No caso colombiano, Londoño avalia que a política externa tradicionalmente discreta do país tende a estimular a influência norte-americana sobre Bogotá, o que dificultaria ainda mais as pretensões brasileiras de exercício de liderança regional.

"No caso da Colômbia, um país cuja política externa tem sido de baixo perfil, justamente por estar condicionada pelos Estados Unidos, isso faz com que o país volte à área de influência norte-americana e que o Brasil fique mais isolado na região. Por isso, o Brasil busca fortalecer o BRICS e outros acordos extrarregionais, levando em conta que exercer liderança em um contexto regional adverso se torna muito mais difícil",

Por Sputnik Brasil