RELAÇÕES EXTERIORES

União Europeia se reúne com delegação do Talibã em Bruxelas

Bloco afirma que diálogo técnico busca tratar do retorno de afegãos sem direito de permanência; grupos de direitos humanos criticaram encontro

Por Sputnik Brasil Publicado em 23/06/2026 às 16:16
Legenda não informada no material original. © AP Photo / Geert Vanden Wijngaert

Representantes do Talibã afegão participaram, nesta terça-feira (23), de uma reunião com autoridades da União Europeia (UE) em Bruxelas, a primeira do tipo na capital belga.

O encontro foi criticado por grupos de direitos humanos, que apontaram risco de legitimação do grupo, enquanto a UE defendeu a iniciativa como uma medida necessária para facilitar a repatriação de solicitantes de asilo rejeitados.

A Rússia reconheceu o governo do Talibã no Emirado Islâmico do Afeganistão em 3 de julho de 2025, quando Andrei Rudenko, vice-primeiro ministro das Relações Exteriores da Rússia, recebeu oficialmente as credenciais do novo embaixador do Talibã em Moscou, Gul Hassan Hassan.

A UE e seus países membros, por sua vez, não reconhecem o governo talibã desde que o grupo militante voltou ao poder há cinco anos, após 20 anos de guerra contra um governo apoiado por uma força da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) liderada pelos EUA.

Mesmo assim, Bruxelas afirmou que as conversas limitadas com as “autoridades de fato” do Afeganistão são necessárias para tratar da deportação de requerentes de asilo rejeitados que cometeram crimes ou são considerados perigosos.

Um porta-voz da Comissão Europeia, órgão executivo da UE, informou que representantes da Comissão e de 15 Estados-membros participaram da reunião em Bruxelas. O encontro deu continuidade a uma conversa anterior realizada em Cabul, em janeiro.

“Os serviços da Comissão e a Suécia copresidiram hoje, em Bruxelas, uma reunião de nível técnico com representantes técnicos das autoridades de fato do Afeganistão responsáveis pelo retorno e readmissão”, disse o porta-voz da Comissão.

Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Afeganistão apresentou uma agenda mais ampla para a reunião. Segundo ele, os temas incluíam uma possível presença consular na UE, a retomada dos serviços consulares para afegãos no bloco e “a necessidade de medidas para fortalecer a confiança”.

O porta-voz Abdul Qahar Balkhi acrescentou que o encontro gerou “esperança de criar um impulso positivo para salvaguardar os direitos consulares dos afegãos residentes no exterior”.

Uma carta da Comissão dirigida a Balkhi, analisada pela Reuters, afirmava que as negociações se concentrariam “no retorno e readmissão de cidadãos afegãos sem direito de permanência na UE”.

A visita foi duramente criticada por organizações de direitos humanos e por diversos políticos europeus. Para os críticos, esse tipo de envolvimento pode colocar afegãos em risco e enfraquecer valores fundamentais da União Europeia.

“A Europa não deve legitimar um regime responsável por uma das piores crises de direitos humanos do mundo”, afirmou Malala Yousafzai, vencedora afegã do Prêmio Nobel da Paz, em publicação no X.

Além das críticas relacionadas ao Talibã, o encontro também é considerado polêmico por seus possíveis efeitos, segundo Jeff Crisp, chefe de Desenvolvimento e Avaliação de Políticas do ACNUR e pesquisador visitante da Universidade de Oxford.

“A consequência mais óbvia e perigosa é que os afegãos serão devolvidos da UE e enfrentarão perseguição do Talibã após sua chegada”, disse Crisp.

O Ministério das Relações Exteriores da Bélgica emitiu um visto que permitia aos representantes afegãos entrar no país por apenas um dia. A autorização restringia a presença deles ao território belga, sem permitir a livre circulação normal na zona Schengen da UE.

Desde que retornou ao poder, o Talibã tem restringido progressivamente direitos, limitando a liberdade de movimento das mulheres, proibindo que meninas estudem além do ensino fundamental e impondo leis de moralidade que restringem a liberdade de expressão e o acesso ao emprego.

Por Sputinik Brasil