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BIS vê riscos em stablecoins e diz que elas não atendem funções básicas do dinheiro

Relatório aponta ameaças à integridade financeira, falhas de interoperabilidade e risco de dolarização em mercados emergentes

Por Estadao Conteudo Publicado em 23/06/2026 às 15:15
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial Nano Banana (Google Imagen)

As stablecoins, criptomoedas baseadas em ativos considerados mais vencidos, como dólar, euro metais e preciosos, podem redesenhar o sistema de pagamentos ao prometer transferências mais rápidas e baratas. No formato atual, porém, elas arriscam riscos e podem ameaçar a integridade financeira, que envolve a prevenção de atividades ilícitas no sistema financeiro, como a lavagem de dinheiro, além de estimular a dolarização em mercados emergentes, alerta o Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês).

A avaliação consta em um capítulo do relatório anual do BIS publicado nesta terça-feira. A instituição regulamenta que as stablecoins demonstram o potencial de tokenização, processo de transformação de ativos financeiros em digitais, mas afirma que, no desenho atual, elas não asseguram as propriedades fundamentais do dinheiro.

“A inovação digital pode tornar os pagamentos e a intermediação financeira mais eficientes, mas precisa preservar a confiança no dinheiro”, afirma o documento. Segundo o BIS, as inovações devem permitir que a “tecnologia sirva, e não enfraqueça, as funções públicas do sistema monetário”.

O relatório aponta que 99,4% das stablecoins lastreadas em moeda estão atreladas ao dólar. O volume anual de transações com stablecoins foi estimado em US$ 28 trilhões em 2025, de acordo com o BIS. Apesar do valor elevado, o montante ainda corresponde a menos de três semanas dos volumes de liquidação dos maiores sistemas de pagamento por atacado dos Estados Unidos.

A capitalização do mercado das stablecoins era de cerca de US$ 320 bilhões no fim de maio de 2026, número classificado como “modesto” pelo relatório.

No documento, as stablecoins são descritas como tokens privados em blockchains públicos, bancos de dados que permitem transações entre partes. Esses ativos tentam manter o valor estável, mas não contam com o arcabouço institucional que sustenta o dinheiro no sistema de dois níveis. O BIS afirma que um sistema monetário eficaz depende de duas propriedades: uma unidade de conta comum e a equivalência entre formas de dinheiro.

Um dos problemas apontados é que as stablecoins circulam em múltiplas blockchains que não se comunicam bem entre si. Além disso, um token “com o mesmo nome” em redes diferentes não é automaticamente equivalente, o que prejudica a interoperabilidade, característica considerada essencial do dinheiro.

Nesse ambiente, as stablecoins representam uma parte significativa da atividade ilícita em blockchain. Por circularem em blockchains públicos com “pseudonimato”, eles também podem enfraquecer os controles contra lavagem de dinheiro, financiamento ao terrorismo e mecanismos de identificação do cliente por trás de cada transação.

Em bancos regulamentados, clientes e transações são rotineiramente verificados, e atividades suspeitas são relacionadas. Por isso, o BIS defende que a inovação avance “além das stablecoins” para preservar a confiança no dinheiro.

Dolarização

Para países emergentes, o BIS alerta para o risco de “dolarização da stablecoin”. Segundo o relatório, a demanda por esse tipo de ativo estrangeiro pode alterar fluxos de capital, afetando a dinâmica cambial e criando desafios à soberania monetária.

O documento também afirma que as stablecoins podem facilitar a evasão dos controles de capital. As restrições impostas por governos tendem a ser imperfeitas, segundo o texto, em razão da natureza digital desses ativos.

Para os governos, o relatório defende duas frentes de política pública. A primeira é corrigir fragilidades dos arranjos atuais de stablecoins para mitigar riscos. A segunda é levar os ganhos da tokenização para dentro do sistema monetário de dois níveis, com o dinheiro do banco central como a âncora.

“O desenho de políticas deve garantir que qualquer forma de dinheiro, pública ou privada, seja integrada de forma segura ao sistema monetário”, conclui o relatório. “Os formuladores de políticas devem promover a inovação enquanto preservam a confiança no dinheiro.”