POLÍTICA MONETÁRIA

Copom aponta piora nas expectativas de inflação e pressão da guerra sobre o IPCA

Ata da reunião de 16 e 17 de junho cita desancoragem para prazos mais longos e defende cautela na condução dos juros

Por Estadao Conteudo Publicado em 23/06/2026 às 09:26
IPCA Reprodução

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central avaliou que ocorreram variações do cenário inflacionário, conforme ata da última reunião, realizada nos dias 16 e 17 de junho. O colegiado destacou uma desancoragem adicional das expectativas de inflação e surpresas nas leituras recentes do IPCA, influenciadas pela guerra no Oriente Médio.

"As expectativas de inflação, medidas por diferentes instrumentos e proporcionadas de diferentes grupos de agentes permanecem acima da meta de inflação em todos os horizontes. Desde a reunião anterior ficou evidente uma desancoragem adicional das expectativas de inflação para horizontes mais longos, em particular para o ano de 2028", diz a ata do comitê, publicada nesta terça-feira, 23.

Na reunião, o Copom decidiu cortar a taxa Selic em 0,25 ponto porcentual, de 14,50% para 14,25% ao ano, mas reforçou a necessidade de “serenidade e cautela na condução da política monetária” diante do aumento da incerteza. Na ata, o colegiado afirma que perseverança, firmeza e serenidade podem favorecer a continuidade da queda das expectativas em direção à meta.

“A principal conclusão obtida, e compartilhada por todos os membros do comitê, foi a de que, em um ambiente de expectativas desancoradas, como é o caso do atual, exige-se uma restrição monetária maior e por mais tempo do que outrara seria protegida”, registra o texto.

O Copom também apresentou as surpresas inflacionárias recentes, que interromperam uma tendência de aquecimento do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) cheio e das medidas subjacentes, considerando mais relevantes para a calibração da política monetária. Segundo o colegiado, as últimas divulgações apontaram “sinais claros de efeitos dos conflitos geopolíticos no Oriente Médio”, resultando em inflação “significativamente acima” do esperado.

“Para além dos efeitos dos conflitos, mantém-se, de um lado, a interpretação de uma inflação pressionada pela demanda e que requer uma política monetária contracionista e, de outro, a interpretação de que a política monetária tem contribuído de forma determinante para a desinflação observada”, afirmou o Copom.

Comitê cita assimetria altista no balanço de riscos para a inflação

Na ata, o Copom descobriu claramente que o balanço de riscos para a inflação passou a ter uma “assimetria altista”. Isso significa que, na avaliação do colegiado, os riscos do IPCA ficam acima do esperado são maiores do que os riscos de um imposto ficam abaixo.

“Com relação ao balanço de riscos, o comitê avaliou que os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, permanecem mais elevados que o usual, com assimetria altista”, informa ata.

O Copom já havia incluído um novo risco de alta para a inflação, o que foi comprovado em uma assimetria com quatro fatores altistas e três baixistas. Até então, porém, a comissão ainda não havia sido identificada explicitamente essa assimetria.

Os quatro fatores de risco para cima são: estímulos à demanda agregada que resultam no crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) acima do seu potencial, incluído na última reunião; desancoragem das expectativas por período mais prolongado; maior resiliência da inflação de serviços, por um hiato do produto mais positivo; e combinação de políticas internas e externas com impacto inflacionário, como por meio da desvalorização do câmbio.

Os fatores de baixa são: eventual desaceleração maior que as expectativas da atividade doméstica; desaceleração global mais pronunciada em razão de choques de comércio e do petróleo; e redução nos preços das commodities, com efeito desinflacionário.

Atividade

O Copom também afirmou, na reunião mais recente, que a atividade econômica doméstica segue uma trajetória de moderação compatível com o esperado. De acordo com o texto, os efeitos da taxa Selic restritiva sobre a demanda ainda são percebidos por meio da desaceleração do saldo de crédito, especialmente o crédito livre.

“O comitê relembra que o resfriamento da demanda agregada é um elemento essencial do processo de reequilíbrio entre oferta e demanda da economia e convergência da inflação à meta”, diz o documento.

O colegiado reiterou que a heterogeneidade entre setores é compatível com a política monetária, já que os mercados mais sensíveis às condições financeiras, por sua vez mais sensíveis aos juros, desaceleraram mais aqueles que eram sensíveis à renda. A aceleração da atividade no primeiro trimestre ainda é considerada consistente com um crescimento da economia em 2026 menor que o de 2025.

O comitê voltou a destacar que acompanha “detidamente” o mercado de trabalho brasileiro e permanece atento ao debate sobre as dimensões estruturais e correntes de desempenho. “A taxa de desemprego tem, recorrentemente, se limitado em níveis historicamente baixos enquanto os rendimentos reais médios têm mantido a tendência de elevação acima do crescimento da produtividade do trabalho”, observou.