Abelardo de la Espriella lidera apuração preliminar da disputa presidencial colombiana
Advogado de 48 anos, conhecido por casos de grande repercussão, aparece à frente de Iván Cepeda por cerca de 250 mil votos
Aos 48 anos, Abelardo de la Espriella transformou uma carreira de destaque na advocacia em uma trajetória política que o colocou na liderança da apuração preliminar do segundo turno das eleições presidenciais da Colômbia. A contagem oficial dos votos ainda aguarda confirmação para definir o resultado.
Em maio de 2025, quase um ano antes da eleição, o advogado anunciou que suspenderia sua vida na Itália para retornar à Colômbia. Na ocasião, descreveu a decisão como uma “batalha” contra o governo de Gustavo Petro. “A Colômbia corre perigo, e não ficarei calado”, escreveu.
A partir daí, De la Espriella iniciou uma rápida ascensão política. Ele lançou o movimento Defensores da Pátria e conseguiu apoio suficiente para ser o candidato mais votado no primeiro turno, realizado em 31 de maio de 2026, quando obteve 10.361.499 votos, o equivalente a 43,74% do total.
Nascido em Bogotá em 31 de julho de 1978, o advogado já era uma figura conhecida no país antes de entrar na disputa eleitoral. Sua notoriedade vinha principalmente da atuação em processos de grande repercussão, além de incursões em áreas como moda e música.
Segundo dados preliminares divulgados pelo Registro Nacional da Colômbia, De la Espriella recebeu 12.957.471 votos, ou 49,66% do total. O candidato do Pacto Histórico, Iván Cepeda, somou 12.707.570 votos, o equivalente a 48,70%. A diferença entre os dois é de cerca de 250 mil votos.
Um advogado em destaque
De la Espriella formou-se em Direito pela Universidade Sergio Arboleda, seguindo os passos do pai, que já era um advogado reconhecido na área. Em 2002, fundou o escritório De la Espriella Lawyers, com atuação voltada ao direito penal, mas também presente em áreas como imigração, direito tributário e propriedade intelectual.
Com sede em Barranquilla, no norte da Colômbia, o escritório passou a representar clientes em casos que ganharam grande atenção da imprensa. Entre eles estão o de Rosa Elvira Cely, mulher de 35 anos estuprada e assassinada por um homem em 2012, e o de Natalia Ponce de León, jovem atacada com ácido por um homem em 2014.
Os dois casos tiveram impacto no Congresso colombiano. O caso Cely abriu caminho para a tipificação do feminicídio como crime específico, enquanto o caso Ponce de León inspirou uma legislação que aumentou as penas para ataques com agentes químicos.
Entre os clientes de maior projeção de De la Espriella está o empresário e diplomata colombiano-venezuelano Alex Saab, preso em Cabo Verde em 2020 a pedido dos Estados Unidos. O advogado atuou na defesa de Saab entre 2013 e 2019, em um contrato que, segundo ele próprio, “ultrapassava seis dígitos”. Saab, por sua vez, o descreveu como um “grande amigo”, apesar das “divergências políticas”.
O advogado também foi questionado em diferentes ocasiões por supostamente representar integrantes de grupos paramilitares ou pessoas acusadas de ligação com o crime organizado. Ele atuou como representante jurídico das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC) durante as negociações de 2003 entre o grupo paramilitar e o governo do então presidente Álvaro Uribe Vélez, que governou de 2002 a 2010.
De la Espriella ainda foi apontado como representante legal do ex-líder paramilitar Salvatore Mancuso. Ele negou qualquer vínculo jurídico, mas admitiu conhecer Mancuso desde a infância, quando ambos viviam em Montería.
Da moda à música
A advocacia não é a única área de interesse de De la Espriella. Ele também criou a De la Espriella Style, empresa voltada ao vestuário masculino que permitiu o lançamento de linhas próprias de rum, vinho e café. Conforme descrição em seu site, a marca é “um espaço para celebrar la dolce vita, o bom gosto e as coisas feitas com paixão”.
A mesma visão também aparece em sua atuação na música. De la Espriella lançou álbuns como De mi alma italiana, de 2021, Navegantes, de 2022, e Nació mi poesía, de 2025, com boleros e versões de clássicos como “My Way” e “New York, New York”.
Um admirador de Trump e Milei
Em dezembro de 2025, De la Espriella formalizou sua entrada na política ao entregar mais de 4,8 milhões de assinaturas ao Registro Nacional da Colômbia para viabilizar sua candidatura.
“Tenho plena consciência de que conto com o fervor do povo colombiano me impulsionando a fazer o que é certo e a conduzir o destino desta nação, que merece ocupar uma posição de grandeza”, declarou na ocasião.
Desde então, o candidato organizou uma campanha em torno do apelido “El Tigre” e do slogan “Firme pela Pátria”. A frase passou a ser acompanhada por uma saudação militar padrão, adotada por seus apoiadores nos últimos meses.
Embora a lista inicial de candidatos colombianos tivesse 14 concorrentes, incluindo o governista Iván Cepeda, a estratégia de De la Espriella concentrou-se em críticas a Gustavo Petro. Os dois protagonizaram discussões nas redes sociais e em eventos públicos.
Ao mesmo tempo, o candidato levou ao centro do debate propostas como a erradicação de 330 mil hectares de cultivos de coca, o endurecimento da segurança prisional e a criação de uma “Linha de Frente de Segurança”, formada por veteranos e reservistas para atuar no policiamento de bairros selecionados em todo o país.
De la Espriella também anunciou planos para ajustar o orçamento estatal com o objetivo de “fechar o rombo fiscal” e criar um governo “menor e mais eficiente”.
Nessa linha, o candidato tem se alinhado ideologicamente a lideranças regionais como o presidente argentino Javier Milei e o presidente equatoriano Daniel Noboa. Ele recebeu apoio de ambos e propôs replicar algumas de suas ideias na Colômbia. Sua principal referência, no entanto, continua sendo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com quem busca se alinhar.
Por Sputinik Brasil