Vai ver o jogo do Brasil em família? Terapeuta explica como evitar estresse em casa
Com a seleção em campo nesta quarta-feira, terapeuta familiar explica como combinar visitas, crianças, barulho e tarefas antes da partida
Com o Brasil em campo nesta quarta-feira (24), às 19h, contra a Escócia, muitas famílias devem se reunir para acompanhar a partida. A torcida pode ser um momento de encontro, mas também expor conflitos que já existiam na rotina da casa, principalmente quando visitas, barulho, tarefas, crianças fora da rotina e limites não são combinados antes.
O que começa como convite para assistir a uma partida pode virar cobrança entre casal, parentes e convidados quando ninguém combina antes quem organiza, quem recebe, quem cuida das crianças e quais limites precisam ser respeitados.
Segundo a terapeuta familiar Aline Cantarelli (@aline.cantarelli no Instagram), especializada em relacionamentos conjugais e reconstrução de vínculos familiares, eventos que alteram a rotina da casa podem revelar a forma como a família já funciona no dia a dia.
“Da hora que a gente acorda até a hora que vai dormir, a nossa vida é um conjunto de hábitos. Muitas vezes a gente reclama da rotina e não entende que a rotina é espelho de quem somos”, afirma.
O jogo não cria a crise, mas pode revelar
Em muitas casas, o problema não é a torcida. É o improviso. Alguém convida, alguém compra, prepara, limpa, olha as crianças e alguém precisa fazer a casa voltar ao normal depois que todos vão embora.
Quando essas tarefas ficam sempre com a mesma pessoa, a reunião pode virar ressentimento. Um adulto assiste ao jogo; o outro trabalha para que a festa aconteça.
Para Aline, a confusão aparece quando a família perde clareza sobre prioridades e tenta responder a tudo ao mesmo tempo.
“Cada pessoa desenvolve hábitos específicos ao longo da vida, e esses hábitos muitas vezes chocam com os hábitos do outro. Mesmo coisas simples, como horário de dormir e de acordar, podem virar motivo de estresse quando o casal não consegue separar o que é essencial”, observa.
Visitas também precisam de limite
Casa cheia pode ser agradável, mas também muda o funcionamento da família. Horários, refeições, circulação nos ambientes, barulho, comentários sobre crianças e até discussões políticas podem virar pontos de atrito.
O risco aumenta quando parentes e amigos se sentem à vontade para ultrapassar limites da casa, ou quando um dos adultos aceita receber todo mundo sem conversar com o outro.
Antes da partida, o casal ou a família que recebe pode alinhar o básico: quem será convidado, até que horas a visita fica, o que cada pessoa pode levar e quais ambientes estarão disponíveis.
Quando há bebês, idosos, pessoas doentes ou crianças pequenas na casa, esses combinados deixam de ser detalhe.
Crianças fora da rotina podem aumentar o desgaste
Dias de jogo costumam alterar sono, alimentação, uso de telas e horários. Crianças pequenas podem ficar agitadas com barulho, televisão alta e adultos eufóricos. Adolescentes podem disputar espaço, internet, videogame ou televisão.
A família pode flexibilizar algumas regras em dias especiais, mas precisa manter limites básicos. Segurança, respeito aos vizinhos, descanso de quem acorda cedo e cuidado com os espaços da casa devem ser combinados antes.
Também ajuda a explicar a dinâmica antes do jogo. A criança deve saber quem vai chegar, onde ficará, até que horas poderá ficar acordada e o que acontece depois da partida.
Sobrecarga vira cobrança
Nem toda tarefa é visível. Pensar no cardápio, comprar bebida, arrumar a sala, separar copos, recolher lixo, acomodar convidados e limpar depois também fazem parte do evento.
Quando esse trabalho fica concentrado em uma pessoa, o incômodo pode começar antes do apito inicial do juiz. A cobrança aparece no tom de voz, no silêncio, na irritação ou na sensação de que ninguém percebeu o esforço.
Para evitar esse desgaste, a divisão precisa ser concreta. Uma pessoa pode cuidar das compras, outra da comida; uma da limpeza e outra das crianças. O importante é que a organização não fique invisível.
Como evitar conflito antes da partida
A conversa não precisa ser longa. Antes do jogo, vale definir quem será convidado, o que será servido, quem compra, quem prepara, quem ajuda depois e quais limites serão mantidos para crianças, barulho e horário de saída.
Também é melhor antecipar situações previsíveis: o que fazer se alguém beber demais, se a torcida passar do limite ou se uma discussão começar.
Para Aline, a saída passa por olhar para a rotina como algo construído pelas escolhas da família.“O problema não é a rotina. O problema são as escolhas que você fez e a rotina que você construiu”, afirma.
Quanto mais claro estiver o combinado entre os adultos, menor a chance de a comemoração virar cobrança depois do apito final.
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Quem é Aline Cantarelli?
Aline Cantarelli é terapeuta familiar com mais de uma década e meia de atuação, especializada em relacionamentos conjugais, comunicação afetiva e reconstrução de vínculos no ambiente familiar. É professora de pós-graduação em Saúde Mental, Ciências da Mente e Orientação Familiar. Também é palestrante e comunicadora com presença digital expressiva, onde compartilha reflexões e orientações sobre amor, rotina conjugal, maternidade, perdão e sexualidade com sensibilidade, profundidade e linguagem acessível. Ao longo da carreira, já acompanhou mais de 6 mil famílias, sempre com foco em acolhimento e construção de soluções reais para os desafios afetivos da vida moderna.