Educadora brasileira aplica metodologia de alfabetização baseada em neurociência para 480 crianças e adultos em Moçambique
Projeto-piloto forma professores moçambicanos e aplica método alemão em escolas públicas, privadas e ONGs na província de Maputo, com turmas superlotadas, falta de infraestrutura e histórias de superação
Um projeto-piloto de alfabetização baseado em neurociência cognitiva está atendendo 480 crianças e adultos em contextos de alta vulnerabilidade educacional em Moçambique. Desenvolvido pelo IntraAct Brasil, em parceria com o IntraAct Internacional, o programa atua na província de Maputo, em escolas públicas de Manhiça e Katembe, escolas privadas em Maputo (capital) e Matola, além de uma ONG em Katembe. O IntraAct Brasil é uma empresa de soluções educacionais sediada em Brasília (DF), que aplica metodologia de alfabetização e matemática baseadas em neurociência cognitiva.
Na primeira quinzena de abril, a diretora pedagógica do IntraAct Brasil, Dra.Janaína Mourão, passou uma semana no país africano, que fala português, para formação de professores e acompanhamento das turmas. A educadora conta como foi a experiência. Os desafios começaram pela estrutura das salas de aula, com turmas de 40 a 54 estudantes.
“As aplicações ocorrem em diferentes salas de aula: nas convencionais, nas salas ‘sombra’ construídas sob árvores, em espaços com mobiliário antigo ou em locais onde as crianças e adultos se acomodam no chão. São diferentes estruturas mas a mesma realidade de escassez dentro do projeto”, afirma.
Salas superlotadas, poucos recursos e muita vontade de aprender
O projeto lida com turmas numerosas, carência de materiais e infraestrutura precária, mas também com alta motivação de estudantes e professores.
“A realidade da alfabetização observada apresenta sérias limitações, a começar pela quantidade de estudantes no mesmo ambiente. As crianças demoram para se alfabetizar, e os adultos participantes do projeto ainda não são alfabetizados. Diante desse cenário, as atividades têm sido desenvolvidas em turmas de pré, 1º e 2º anos, além de turmas multietárias com adultos. Em suma, a realidade da alfabetização é, de fato, bastante limitada”, descreve Janaína.
A educadora relata salas sem energia elétrica e escolas sem água, crianças sentadas no chão, partilhando poucos livros e com cadernos desgastados. Os alunos não se alimentam nas escolas e, muitas vezes, chegam com fome.
“Em uma sala, sem energia elétrica nem água, as crianças estavam sentadas no chão. Todas se levantaram para me receber e me deram bom dia. As crianças não se alimentam na escola, possivelmente chegando com fome e permanecendo por cinco horas nessas condições. O material escolar, como cadernos velhos e lápis em pedaços, refletia a carência de recursos. Algumas crianças apresentavam problemas dentários. Apesar disso, demonstravam atenção e interesse em aprender, obedecendo ao professor”.
Apesar da falta de estrutura e das dificuldades, a motivação dos estudantes reconfortou a educadora. “A experiência em Moçambique foi um choque de realidade. Frequentemente, estabelecemos diversas condições para que a educação se concretize, exigindo recursos, conforto e outros elementos. Lá, observei a dedicação das crianças em aprender com tão pouco, em um contexto de extrema limitação”.
Método se adapta à variante do português e apoia alfabetização de adultos
O método IntraAct, criado na Alemanha há mais de 30 anos e usado no Brasil em mais de 60 cidades, organiza o aprendizado em blocos de letras conforme a facilidade fonética, com base em neurociência cognitiva, acelerando a alfabetização. Em Moçambique, a estrutura foi mantida, com adaptações apenas de vocabulário e forma de falar.
“O método não requer adaptação para aplicação em crianças e adultos de Moçambique. Ele se baseia nos princípios de como o cérebro processa informações, sendo, portanto, aplicável a pessoas de todas as idades e origens. As modificações realizadas foram no vocabulário e pronúncia de alguns fonemas, como a letra R, visando a adequação ao português falado em Moçambique. Apesar dessas modificações no conteúdo, o método em si foi mantido, pois sua eficácia reside na compreensão dos mecanismos de aprendizagem do cérebro, princípios esses que se aplicam a todos”.
Uma das frentes mais simbólicas do projeto é a alfabetização de mulheres adultas, muitas em torno dos 60 anos, que nunca haviam tido acesso à escola.
“No distrito de Manhiça, visitei um grupo de mulheres adultas que participam do projeto desde o ano anterior. Fui recebida com uma calorosa celebração: cantaram, dançaram e me vestiram com uma capulana (tecido típico), tornando o momento inesquecível. Atualmente, muitas delas estão engajadas na leitura. Todas demonstram grande alegria em finalmente aprender a ler, independentemente da idade”.
Professores receptivos e disciplina em turmas grandes
Além da metodologia, o projeto aposta na formação docente contínua e na articulação com o material oficial do país.
“Uma ação realizada foi a elaboração de planejamentos de aula, visando auxiliar os professores na utilização conjunta do livro "IntraAct" com o livro curricular nacional, que é o material didático oficial. O objetivo é facilitar a integração, recomendando o uso do "IntraAct" em sala de aula, em dois períodos de 20 a 30 minutos”.
Para Janaína, chama atenção a combinação entre desafios estruturais e forte engajamento dos educadores.
“Observando a prática docente em Moçambique, um aspecto que me impressionou profundamente foi a habilidade dos professores em manter a disciplina em salas de aula com grande número de alunos. Além disso, notei o respeito dos alunos pela figura do professor, evidenciado por gestos como levantar-se ao entrar na sala e responder às suas perguntas. Outro ponto relevante foi a prática de cantar canções com os alunos, presente em todas as salas de aula”.
Ela destaca ainda que, apesar da superlotação e das condições adversas, os docentes se mostram abertos a novas abordagens, especialmente àquelas baseadas em fonemas e no funcionamento do cérebro.
Próximos passos
O projeto do IntraAct Brasil e IntraAct Internacional segue em fase piloto em Moçambique, com acompanhamento ao longo do ano letivo e a busca por suporte e voluntários qualificados e engajados para continuidade da iniciativa. O projeto conta com a parceria de duas instituições: a DVV, para o ensino de adultos; e a Tenderness and Love, para o ensino de crianças em Katembe.
No retorno ao Brasil, Janaína traz aprendizados para a realidade educacional do país.
“A experiência vivenciada me levou a refletir sobre as dificuldades enfrentadas pelos professores no Brasil. Ao visitar Moçambique, a comparação foi inevitável. A sensação foi a de que, em termos de infraestrutura escolar, muitas cidades do Brasil se assemelham a um país desenvolvido. É evidente que existem disparidades significativas no Brasil, com escolas rurais e algumas no interior apresentando carências maiores do que as encontradas em escolas urbanas. No entanto, a percepção que tive não altera a necessidade de aprimorar as condições das nossas salas de aula, melhorar os salários dos nossos professores e buscar soluções para outros desafios existentes. Tais questões continuam sendo prioridades que exigem atenção e transformação”, analisa.
E completa: “Apesar disso, é importante reconhecer os avanços e os aspectos positivos do sistema educacional brasileiro. A experiência em Moçambique me permitiu valorizar ainda mais o que já foi conquistado e celebrar os progressos alcançados por aqui”.
*Janaína Mourão é licenciada em Geografia pela UnB (Universidade de Brasília), mestre pela UFG (Universidade Federal de Goiás) e doutora pela UnB na mesma área. Além disso, é pós-doutoranda em Neurociência pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Possui especialização em educação clássica pela FASEM e formação como mediadora nos programas PEI Standard e PEI Basic do Feuerstein Institute, em Israel.
Sobre o IntraAct Brasil
O IntraAct Brasil é uma empresa de soluções educacionais sediada em Brasília (DF), que aplica metodologias de alfabetização e matemática baseadas em neurociência cognitiva em redes públicas. Desenvolvido há mais de 30 anos na Alemanha, o método está no Brasil desde 2022, atendendo mais de 60 cidades em 6 estados (SC, MG, PR, MA, GO e MT) e no Distrito Federal.
A metodologia é usada na educação infantil, 1º e 2º ano do ensino fundamental, EJA e programas de recomposição de aprendizagem do 2º ao 9º ano, com resultados que mostram que até 80% dos alunos aprendem a ler em até cinco meses e que, ao final do primeiro ano letivo, até 80% das turmas estejam alfabetizadas. Atualmente, mais de 44 mil estudantes e 4 mil professores de redes públicas municipais já foram impactados positivamente pelo IntraAct no Brasil.