OPERAÇÃO MIRAGEM

PF mira Banco Digimais e Justiça autoriza bloqueio de R$ 670 milhões

Investigação apura suspeita de uso de fundos de investimento para maquiar rombo bilionário; Edir Macedo está entre os investigados

Por Estadao Conteudo Publicado em 23/06/2026 às 07:34
© Foto / Divulgação / Polícia Federal

A Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira, 23, a Operação Miragem , que investiga supostas fraudes no Banco Digimais. A Justiça autorizou o bloqueio de R$ 670 milhões contra investigados, entre eles o líder da Igreja Universal, Edir Macedo, dono do banco.

Segundo a investigação, há suspeitas de que o banco tenha utilizado fundos de investimentos para maquiar um rombo bilionário. Até o fechamento do texto original, a reportagem buscou contato com a defesa dos investigados.

Entre os alvos dos mandados de busca estão dirigentes do Digimais, como o bispo João Urbaneja, apontados como homem de confiança de Edir Macedo, e seu filho, Thiago Urbaneja.

Também foram alvos de busca dos executivos do banco Marcelo de Lima Brasil, João Alves de Campos e Rodrigo Ruggero.

O bispo Edir Macedo não foi alvo de buscas por residir fora do Brasil.

A Polícia Federal também atende buscas em endereços de José Roberto Giancoli Filho e Rodrigo Balassiano, donos da ID, gestor dos fundos do Digimais. Eles são suspeitos de colaborar com a maquiagem contábil.

De acordo com a PF, após Edir Macedo assumir o controle do banco, a instituição passou a concentrar sua atuação em crédito consignado e financiamento de veículos. Ainda segundo a corporação, houve um breve período de crescimento, seguido de uma flexibilidade considerada “severa”, com prejuízos expressivos.

Entre 2023 e 2024, o banco emitiu Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com taxas superiores a 110% do CDI.

Segundo a Polícia Federal, a emissão de CDBs, associada à “posterior decretação de liquidação extrajudicial do Banco Master em novembro de 2025”, evidenciou uma exposição de aproximadamente R$ 600 milhões do Banco Digimais a carteiras de crédito da instituição.

Os investigadores afirmam que o banco passou a realizar uma “superavaliação sistemática de ativos” inseridas nos fundos administrados pela corretora ID.

Para a PF, essa manobra teve “o escopo de inflar artificialmente o patrimônio do Banco Digimais para viabilizar a emissão desproporcional de títulos de captura”, o que, segundo a investigação, configura fortes evidências da prática de gestão fraudulenta e de inserção de dados falsos em demonstrativos contábeis.

Em maio, o Estadão mostrou que diversos fundos de investimentos do banco foram usados ​​para maquiar prejuízos multimilionários.

Uma dessas operações foi apontada por auditorias independentes que o banco é obrigada a contratar para entregar suas projeções financeiras ao Banco Central. A holding de Edir Macedo, controladora do banco, comprou R$ 741 milhões em cotas que a Digimais tinha em participação de um Fundo de Direitos Creditórios chamado Hermon.

O Hermon não é proprietário de um ativo rentável no curto prazo. O fundo comprou o direito de obter uma indenização judicial obtida por herdeiros da antiga Companhia de Mineração e Siderurgia, encampada — ou seja, teve seu controle acionário reforçado — pela ditadura de Getúlio Vergas, em 1940, durante o processo de criação da Vale do Rio Doce.

A Justiça Federal do Rio condenou a União a indenizar acionistas e herdeiros legais em valores atualizados equivalentes a 7 mil ações da Vale. O fundo estima ter R$ 2,2 bilhões a receber. A ação judicial é dos anos 1990, e o cálculo do pagamento ainda gera polêmica na Justiça, o que pode levar anos para ser resolvido.

Segundo a Polícia Federal, por meio de uma longa teia de fundos da ID, esses ativos foram adquiridos por R$ 71 milhões, mas sucessivas reavaliações de patrimônio aumentaram esse valor para R$ 741 milhões.