Júri de PMs acusados por mortes em Guarulhos é cancelado após defesa deixar plenário
Juiz da Vara do Júri de Guarulhos dissolveu o conselho de sentença depois de desentendimento entre advogados dos réus e promotoria
O julgamento dos três policiais militares acusados de matar o empresário Antonio Vinicius Gritzbach, de 35 anos, e o motorista de aplicativo Celso Araújo Sampaio de Novais, de 41 anos, foi cancelado às 19 horas desta segunda-feira, 22. A decisão foi tomada pelo juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo, da Vara do Júri de Guarulhos, depois que a defesa dos réus abandonou o plenário.
A suspensão da sessão provocou revolta entre familiares das vítimas. "Pra que isso? Só eu sei a luta que estou tendo nesse caso. Eu tenho três filhos, meu filho de 15 anos está doente. Só eu sei o que eu estou passando", afirmou a agente de saúde Simone Dionízio Fernandes Novais, viúva do motorista de aplicativo. Celso deixou a viúva e três filhos, hoje com 22, 15 e 5 anos.
A defesa dos réus decidiu deixar o plenário após 11 horas de julgamento, em uma sessão marcada por discussões com a promotoria durante os depoimentos das testemunhas de acusação. O conflito teve início enquanto o perito Leandro Lopes prestava depoimento. Os defensores questionaram o fato de o promotor ter conversado com o perito, há 15 dias, para esclarecer dúvidas.
"Eu converso com policial; não converso com bandidos", respondeu o promotor Rodrigo Merli. A fala provocou reação dos advogados, que afirmaram estar sendo desrespeitados e ameaçaram, ainda durante a tarde, deixar o tribunal caso ocorresse novo episódio. A nova discussão aconteceu por volta das 19 horas. "Ele começou a atacar a advocacia e nós reagimos", afirmou o criminalista Claudio Dalledone Júnior.
Depois do novo confronto entre defesa e acusação, um dos advogados entrou em uma sala com o juiz, que questionou qual seria a decisão dos defensores. Ao fim do encontro, o magistrado retornou e anunciou: "Por conta da posição da defesa, fica prejudicado o trabalho que começaria hoje. Iremos designar uma nova data".
Em nota, o Tribunal de Justiça informou: "Houve abandono do plenário parte da defesa dos réus após desentendimento com o promotor, e, por isso, dissolução do conselho de sentença. O júri será redesignado para data oportuna." Com o cancelamento, uma nova data para o julgamento será marcada.
Para o promotor, os defensores buscavam um pretexto para cancelar o júri. "Parece que desde o começo a ideia era essa", afirmou. Segundo ele, a razão seria o fato de a acusação ter se preparado para derrubar as teses que a defesa pretendia utilizar para criar dúvidas entre os jurados.
Merli também afirmou que as testemunhas de acusação foram firmes ao apontar que os réus cometeram o crime. "Quando os advogados viram que tudo ruiu, fizeram isso (a desistência)". Para o promotor, o que ocorreu no plenário foi causado pelo que chamou de "advocacia Tiktok", em referência a uma defesa que, segundo ele, estaria mais interessada em lacrar do que em discutir as provas do processo. "Mais uma vez, correram do plenário."
Os réus, o soldado Ruan Silva Rodrigues e o cabo Denis Antônio Martins, apontados como os atiradores, além do tenente Fernando Genauro da Silva, acusado de conduzir a dupla de carro até o Aeroporto Internacional de Guarulhos, local dos crimes, permanecerão presos. A defesa pretende ingressar com novo habeas corpus para tentar soltá-los.
Cena do crime chocou o País
Denis Antônio Martins e Ruan Silva Rodrigues são denunciados pelos homicídios consumados qualificados de Gritzbach e Novais. Eles também respondem pelas tentativas de homicídio de Willian Souza Santos e Samara Lima de Oliveira, que sobreviveram ao ataque.
Segundo a denúncia, eles seriam os dois homens encapuzados que avançaram contra Gritzbach naquela tarde de sexta-feira, em uma cena que chocou o País. Imagens de câmeras de segurança mostram o terminal 2, um dos mais movimentados do País, tomado por correria durante os disparos.
De acordo com a sentença de pronúncia, o tenente Fernando Genauro da Silva teria recebido a tarefa de conduzir um Volkswagen Gol preto até o local e permitir a fuga dos atiradores após o crime.
Qual foi a motivação do crime
A sentença de pronúncia, assinada pelo juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo, da Vara do Júri de Guarulhos, aponta que Gritzbach, que atuava no ramo imobiliário, foi agregado por membros do PCC para trabalhar como gestor financeiro. Ele adquiria imóveis em nome de "laranjas", terceiros normalmente sem rastros criminais, e investia o dinheiro do tráfico de drogas em criptoativos.
Conforme as investigações, o problema começou quando integrantes da facção, chamados de "irmãos", passaram a questionar a falta de liquidez das criptomoedas e a suspeitar que Gritzbach desviava grande parte do dinheiro em benefício próprio.
Como mostrou o Estadão, Gritzbach teria contratado Noé Alves Schaum para matar Anselmo Bechelli Santa Fausta, o Cara Preta, e Antonio Corona Neto, o Sem Sangue, segurança do traficante. O crime ocorreu em 27 de dezembro de 2021.
Segundo as investigações, Schaum foi capturado pelo PCC em janeiro de 2022, julgado pelo "tribunal do crime", uma espécie de Justiça paralela do crime organizado, e esquartejado. Apesar de ter sido poupado inicialmente, Gritzbach também entrou na mira da facção e buscou recursos para se proteger.