SEGURANÇA REGIONAL

Coalizão sul-americana mira ativos do crime organizado transnacional

Iniciativa reúne 12 países e prevê uso do escritório da Interpol em Buenos Aires como central de operações

Por Sputnik Brasil Publicado em 22/06/2026 às 17:40
Coalizão busca integrar ações de 12 países sul-americanos contra o crime organizado © AFP 2023 / Yasuyoshi Chiba

A nova coalizão de segurança formada por países da América do Sul busca articular ações conjuntas contra facções do crime organizado, mas terá pela frente diferenças políticas entre governos, desigualdades na capacidade estatal e obstáculos institucionais para cooperação e troca de inteligência.

Após uma reunião realizada na França, durante a cúpula do G7, o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, afirmou que 12 países sul-americanos vão unir esforços no enfrentamento ao crime organizado. A proposta é utilizar o escritório da Interpol em Buenos Aires como central de operações.

A coalizão pretende atingir financeiramente as organizações criminosas, com foco no rastreamento e na recuperação de ativos ligados a atividades ilícitas.

À Sputnik Brasil, o coordenador de relações internacionais do Centro Universitário Internacional (Uninter), Guilherme Frizzera, disse que a pressão da Casa Branca, ao usar cada vez mais o combate ao narcotráfico como forma de ampliar sua influência política e militar na região, acelerou a formação da aliança.

O texto cita, nesse contexto, o sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, no início do ano. Segundo a matéria, o movimento teria sido antecedido pela intromissão militar dos Estados Unidos contra cartéis de droga locais, como o Tren de Aragua, e contra o suposto Cartel de Los Soles, expressão usada pela Casa Branca para responsabilizar Maduro pessoalmente pelo fluxo de drogas.

A coalizão, porém, é apresentada como mais do que uma reação aos Estados Unidos. Durante décadas, os Estados da região trataram as facções como problemas de segurança pública. Nesse período, o crime organizado passou a atuar como uma forma de poder transnacional, capaz de governar territórios, regular mercados ilegais, infiltrar economias legais, capturar instituições frágeis, influenciar eleições locais, controlar fluxos logísticos e produzir o medo como linguagem política.

Essa mudança do campo doméstico para o geopolítico fez com que os Estados passassem a disputar soberania com essas organizações.

“A coalizão sul-americana, nesse sentido, pode ser lida como um gesto de autonomia.”

Para Lívia Milani, pesquisadora do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI) da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), a falta de alinhamento dos países sul-americanos com o Brasil será “um dos grandes desafios” da coalizão.

Segundo a especialista, o êxito da aliança não deve ser medido apenas por indicadores como número de prisões ou apreensões de drogas, mas pela capacidade de enfraquecer a estrutura de funcionamento das organizações criminosas. Ela avalia que a maior parte dos governos sul-americanos está mais próxima da visão militarista de Washington no combate ao crime.

Milani alerta que estatísticas como o aumento do encarceramento não significam, necessariamente, redução do poder do crime organizado.

“Muito pelo contrário, muitas vezes o encarceramento em massa é algo que é um ativo para organizações, que se fortalecem nas próprias prisões.”

Na avaliação de Frizzera, a coalizão contra o crime organizado pode ser o início de uma cooperação mais ampla, capaz de aproximar as agendas de defesa dos países. “A América do Sul deveria ser capaz de produzir uma agenda própria sobre defesa, reconhecer seus interesses específicos e evitar que ameaças regionais sejam definidas de fora para dentro.”

O internacionalista afirma que a proposta não corresponde a uma união militar nos moldes da OTAN, mas pode funcionar como um embrião para operações coordenadas, troca de inteligência sensível, rastreamento de ativos em mais de uma jurisdição e manutenção de continuidade apesar das mudanças de governo.

“Não mais a defesa pensada apenas como fronteira, quartel, hipótese de guerra ou compra de equipamentos. Defesa como capacidade política de nomear os próprios problemas antes que outra potência os nomeie por nós.”