Júri de PMs acusados pela morte de Gritzbach ouve sobreviventes no primeiro dia
Duas pessoas atingidas durante o ataque no Aeroporto Internacional de Guarulhos relataram o momento dos disparos; réus negam envolvimento
O julgamento dos três policiais militares acusados de matar o empresário Antônio Vinicius Gritzbach, delator do Primeiro Comando da Capital (PCC), começou nesta segunda-feira, 22, às 10 horas, na Vara do Júri de Guarulhos. Os acusados afirmam que são inocentes.
Depois da escolha dos sete jurados — quatro homens e três mulheres —, o tribunal iniciou a oitiva das testemunhas arroladas pela acusação. A primeira a depor foi o funcionário do aeroporto Willian Souza Santos, de 41 anos, baleado durante o atentado. “Vi o corpo dele caído e a fumaça levantando”, afirmou, em referência a Gritzbach.
O depoimento de Willian durou menos de 30 minutos. Ele disse que nunca havia passado por uma situação semelhante e relatou que uma bala perdida atingiu três de seus dedos. Segundo ele, o atentado mudou sua vida. Willian deixou o emprego, onde trabalhava havia sete anos, cinco meses depois do crime, e retornou recentemente ao trabalho. Aos jurados, também descreveu o pânico que se seguiu aos disparos.
Em seguida, foi ouvida a gerente de TI Samara Lima de Oliveira, de 30 anos, outra sobrevivente do atentado. Ela contou que foi atingida de raspão na barriga quando caminhava para pegar um carro de aplicativo, após retornar de Salvador. “Achei até que eram fogos de artifício, que estava tendo um jogo ou algo assim”, disse.
“Senti um choque na barriga, dei uma paralisada e corri para atrás de uma coluna”, acrescentou Samara. Como o ferimento foi superficial, ela recebeu atendimento na enfermaria do aeroporto e foi liberada logo depois. O depoimento terminou às 11h15.
A previsão da Vara do Júri era ouvir ainda nesta segunda-feira as nove testemunhas indicadas pela acusação. Entre elas está a delegada Luciana Peixoto, que presidiu o inquérito do caso, conduzido pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).
A sessão começou com a formação do conselho de sentença. Às 10 horas, os 21 jurados pré-selecionados se apresentaram com malas. A expectativa é de que o julgamento termine apenas na sexta-feira, 26. A defesa dos réus recusou sete jurados sorteados, enquanto a acusação rejeitou um. Após a definição dos sete jurados, a primeira testemunha foi chamada.
Gritzbach foi morto com oito tiros de fuzil em 8 de novembro de 2024, na área de desembarque do Aeroporto Internacional de Guarulhos, na Grande São Paulo. Os disparos feitos pelos assassinos, que desceram de um Gol preto para emboscar a vítima, também mataram o motorista de aplicativo Celso Araújo Sampaio de Novais, de 42 anos.
“Eu quero Justiça. Não só para o Vinícius, mas o meu filho Celso precisa de Justiça. E isso significa a condenação dos réus. Meu filho estava trabalhando e era pai de três filhos”, afirmou Aparecida Camila de Araújo, mãe de Celso.
Além de familiares das vítimas, jornalistas acompanharam a sessão no plenário da Vara do Júri. À esquerda estavam os advogados dos réus, que chegaram ao tribunal reafirmando a inocência dos três policiais militares. A defesa pretende sustentar aos jurados que os acusados foram vítimas de uma armação da Polícia Civil, responsável pela investigação, com o objetivo de encobrir os verdadeiros assassinos.
“Hoje vamos desmascarar essa hipótese da acusação e mostrar que havia a banda podre da Polícia Civil extorquindo o Gritzbach e que tinha o interesse e motivação para dar cabo da vida dele”, afirmou o advogado Claudio Dalledone Júnior, defensor do soldado Ruan Silva Rodrigues, de 33 anos. Ruan é um dos dois policiais acusados de atirar com fuzis contra as vítimas.
Também são acusados o cabo Dênis Antonio Martins, de 41 anos, e o tenente Fernando Genauro da Silva, de 35 anos. Dênis é apontado como o outro atirador, enquanto o tenente seria o motorista do Gol usado na fuga. Todos negam envolvimento no crime.
De acordo com a acusação, os policiais teriam sido pagos com criptomoedas pelo crime. O PCC oferecia recompensa de R$ 3 milhões a quem matasse Gritzbach, que prometia revelar, em acordo de delação premiada, esquemas de lavagem de dinheiro do tráfico internacional de drogas em São Paulo.
A promotoria pede a condenação dos policiais por homicídio quadruplamente qualificado, pelo assassinato do motorista de aplicativo e pelas tentativas de homicídio contra Willian e Samara.