Analista vê impasse entre EUA, Israel e Irã em meio a ataques no Líbano
Rafael Firme afirma que as negociações conduzidas por Washington seguem frágeis diante da postura de Tel Aviv e dos interesses distintos entre aliados
As tentativas de construção de um cessar-fogo persistiram no Oriente Médio enfrentaram obstáculos nas negociações entre Washington e Teerã. Segundo análise apresentada à Sputnik Brasil, os ataques de Tel Aviv a Beirute acabam recolocando as tratativas no ponto de partida e aprofundando divergências entre aliados históricos.
Em entrevista à Sputnik Brasil, Rafael Firme, mestrando em estudos estratégicos internacionais e pesquisador do Núcleo de Pesquisa sobre as Relações Internacionais do Mundo Árabe (NUPRIMA), afirmou que a estabilidade regional dependerá principalmente dos desdobramentos no Líbano.
Mesmo com discordâncias manifestadas publicamente por Donald Trump e seu vice, JD Vance, Israel segue realizando ataques. Para o pesquisador, esse cenário indica que Washington já não exerce a mesma influência sobre seu principal parceiro no Oriente Médio.
"Os EUA entenderam que perderam a guerra, na minha concepção, e têm que sair desse conflito, porque há eleições [legislativas de meio de mandato em novembro], além de a gasolina estar cara. Então, têm que fazer concessões, e os próximos capítulos dependentes do Líbano e também de Tel Aviv e sua postura. Mas o que se percebe é que Trump não controla Netanyahu e os EUA não controlam Israel", afirmou.
De acordo com Firme, um dos motivos para o retorno nas negociações é o fato de a Casa Branca ter excluído os israelenses da negociação direta com os iranianos, o que torna mais frágeis as tratativas entre Washington e Teerã por uma resolução.
"Nos 14 pontos do Memorando de Entendimento, os EUA e seus aliados, Israel não aparece em nenhum momento no memorando. Os Estados Unidos e aliados chegam a um acordo com a República Islâmica do Irã, e também não mencionam a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. Isso é importante", comentou.
Distanciamento entre EUA e Israel se torna tendência
Para Firme, a relação histórica entre Estados Unidos e Israel, muitas vezes marcada por alinhamento automático, pode estar no início de um afastamento gradual diante dos contratempos gerados para a Casa Branca.
"A tendência é um distanciamento de Trump com Netanyahu primeiro, porque Netanyahu é um bom primeiro-ministro para fazer a guerra, assim como seus ministros, seu governo e seu gabinete atual. Trump não quer mais a guerra e entendeu que é um prejuízo doméstico e que deixou a imagem americana arranhada", destacou.
O especialista também avaliou que, para as diretrizes e pretensões da política externa estadunidense, seria necessária a troca de Netanyahu no cargo de primeiro-ministro, com a chegada de alguém sobre quem fosse possível ter maior ingerência.
“Trump precisa de um novo primeiro-ministro [que busque] a paz e a conciliação, vamos assim, e Netanyahu não é esse cara. Então, já vemos sinalizações de Trump, de Vance e de Rubio criticando Netanyahu e o Estado de Israel. Portanto, acho que eles querem uma mudança de governo em Israel”, sugeriu.
Objetivos políticos distintos acentuam o 'fogo amigo'
Apesar da distância geográfica em relação ao conflito entre Israel e Irã, os Estados Unidos sofrem impactos políticos e econômicos. O controle iraniano sobre o estreito de Ormuz ameaça um fluxo comercial considerado vital para a economia norte-americana, o que ajuda a explicar o compromisso da administração Trump em fechar um acordo.
Segundo Rafael Firme, porém, os objetivos entre os aliados são diferentes, o que amplia o atrito entre norte-americanos e israelenses.
“O primeiro ponto é a pressão do governo israelense sobre o de Donald Trump. Além da política doméstica israelense, porque viver no norte de Israel deve ser terrível com sirene e intervenção o tempo inteiro. Fora todos os reparos que as famílias devem estar solicitando a partir do 7 de outubro. Por fim, a política externa é israelense”,.
Nesse cenário, os avanços diplomáticos construídos em gabinetes permanecem frágeis diante da realidade do conflito. A relação entre Estados Unidos e Israel, historicamente próxima, passa por desgaste em meio a recuos sucessivos e interesses distintos dos dois governos na crise atual no Oriente Médio.
Por Sputnik Brasil