CRISE NA BOLÍVIA

Bloqueios em rodovias diminuem na Bolívia após acordo e estado de exceção

Medida foi confirmada pelo Parlamento e permite toque de recolher e uso das Forças Armadas em áreas do país

Por Agência Brasil Publicado em 21/06/2026 às 16:44
Bloqueios em rodovias da Bolívia diminuem após acordo com a COB e estado de exceção

O número de bloqueios de rodovias na Bolívia, em protesto contra as políticas do governo de Rodrigo Paz, caiu após um acordo firmado com a Central Operária da Bolívia (COB), na sexta-feira (19), e a decretação do estado de exceção, no sábado (20).

Confirmado pelo Parlamento na madrugada deste domingo (21), o estado de exceção autoriza o governo a decretar toque de recolher em determinadas áreas do país e a usar as Forças Armadas para reprimir manifestantes, após 50 dias de bloqueios e protestos contra políticas consideradas “neoliberais”.

Depois de registrar mais de 80 bloqueios em alguns dias das últimas semanas, a Bolívia amanheceu este domingo com 31 pontos de bloqueio em rodovias de La Paz, Cochabamba, Oruro e Santa Cruz, segundo a Administradora de Estradas Bolivianas (ABC).

Ao longo do domingo, o total de estradas bloqueadas caiu para 12, de acordo com o painel de monitoramento em tempo real da ABC, órgão responsável pela gestão das rodovias do país andino.

A doutoranda em ciência política na Universidade de São Paulo (USP) Alina Ribeiro afirmou à Agência Brasil que o desgaste provocado por 50 dias de bloqueios, que causaram escassez de alimentos e medicamentos em várias cidades, contribuiu para a redução das mobilizações.

“As mobilizações custaram algumas vidas, inclusive, e paralisaram as cidades. Acho que a negociação com o governo aparece com uma saída que teria mais sentido, que beneficiaria os dois lados, ainda que não garanta a renúncia do Rodrigo Paz”, disse a especialista que estuda a realidade boliviana.

Os protestos vêm crescendo na Bolívia desde janeiro e chegaram ao ápice em maio e junho, após a promulgação de uma lei de terras criticada por camponeses. Desde então, grupos passaram a pedir a renúncia do direitista Rodrigo Paz, que está há apenas sete meses no poder após quase 20 anos de governos de esquerda na Bolívia.

Alina Ribeiro, que atua no Núcleo de Democracia e Ação Coletiva do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (NDAC-Cebrap), explicou que o bloqueio de rodovias é uma prática antiga no país, originada no período da luta contra a colonização espanhola.

“É uma estratégia de atuação muito eficaz porque você realmente paralisa as cidades. Mas, ao mesmo tempo, é uma coisa que também exige das pessoas um tempo quase que integral e um sacrifício grande”, completou.

Acordo com Central Sindical

Um dia antes de decretar o estado de exceção, Rodrigo Paz assinou um acordo com a COB, principal central sindical do país, que havia aderido aos protestos pedindo reajustes salariais e denunciando o alto custo de vida.

O presidente da COB, Mario Argollo, informou que o acordo estabelece um período de 90 dias para testar os compromissos assumidos pelo governo. Ele pediu aos demais grupos o fim dos bloqueios para “pacificar o país”.

“Isso tem passos definidos de 90 dias. Agora a bola está do lado do governo. Se ele conseguir trabalhar nos aspectos centrais nacionais e estruturais, seguramente o povo vai aplaudir. Se faltar a isso, o povo o buscará”, disse Argollo a jornalistas após encontro com o presidente Paz.

Entre os pontos do acordo estão a não criminalização dos protestos pelo governo, a não perseguição de lideranças de grupos sociais ou sindicais e a criação de uma comissão com representantes do governo e da COB para tratar da liberação de lideranças presas durante os protestos.

Pelo documento, o governo também se comprometeu a não privatizar empresas públicas estratégicas nem entregar recursos nacionais a interesses privados nacionais ou estrangeiros. Os pontos do acordo foram divulgados pela mídia estatal boliviana.

Em uma rede social, o presidente Rodrigo Paz comemorou o acordo firmado com a COB.

“Vamos fortalecer a mineração estatal e a criação de empregos, sem privatizações e com coordenação permanente com a COMIBOL [Corporação Mineira de Bolívia]”, disse o chefe de Estado.

Estado de exceção

No dia seguinte ao acordo com a COB, Paz decretou estado de exceção na Bolívia, decisão que o governo vinha preparando há semanas, o que incluiu a revogação da legislação anterior sobre o tema e a aprovação de um novo texto pelo Parlamento.

Ao anunciar a medida, o presidente boliviano voltou a criminalizar os protestos, afirmando, sem apresentar provas, que os bloqueios são financiados pelo narcotráfico. O mesmo discurso foi usado pelos Estados Unidos (EUA) para defender o governo de La Paz.

“O que a Bolívia enfrenta hoje é uma estratégia organizada de desestabilização contra a democracia e um governo constituído, e devemos chamá-la pelo seu nome: uma tentativa de golpe de Estado por parte do narcoterrorismo”, disse Rodrigo Paz.

O governo de La Paz também responsabiliza o ex-presidente Evo Morales pelos protestos e bloqueios no país. Em resposta, Morales afirma que se trata de um movimento do povo boliviano, reunindo professores, mineiros, camponeses, indígenas e outros grupos sociais, sobre os quais ele diz não ter controle.

Divergências no movimento social

Parte das organizações mantém a defesa dos bloqueios até a renúncia de Rodrigo Paz, como a Confederação Nacional de Mulheres Camponesas Indígenas “Bartolina Sisa”.

Na última quinta-feira, um ato de camponeses na província Ingavi, no departamento de La Paz, defendeu a continuidade dos bloqueios e protestos.

“Reafirmamos que as decisões são tomadas em conjunto com o povo, e não pelas suas costas. A Bolívia não merece líderes que traem o mandato popular, violam os direitos da maioria e tentam entregar o nosso país a interesses estrangeiros”, disse comunicado da organização camponesa Bartolina Sisa.

A dirigente da organização, Virgínia Antiñapa, denunciou o assassinato de manifestantes e a perseguição de lideranças nas últimas semanas, além de rejeitar as acusações do governo Rodrigo Paz.

“Esta luta é uma luta pelas nossas reivindicações de anos atrás. O governo está politizando isso; dizendo que apoiamos o MAS [partido de Evo Morales], mas esta luta não deve ser politizada. Nossa luta é justa. Não temos nada a ver com o senhor Morales”, afirmou Virgínia, em coletiva de imprensa.

A pesquisadora Alina Ribeiro acrescentou à Agência Brasil que as mobilizações são compostas por grupos heterogêneos, o que dificulta uma posição unificada sobre o encerramento ou a continuidade dos bloqueios de rodovias.

“Existe um nível de cisão interna que é muito definidora de toda essa mobilização. As organizações menos unificadas têm o processo de decisão mais difícil. Com isso, decidir continuar ou não no conflito se torna mais complexo”, completou.