MP torna proficiência no Enamed condição para registro médico no Brasil
Exigência valerá para quem ingressar em medicina após a publicação da norma no Diário Oficial da União
Estudantes que se formarem em medicina precisarão alcançar rendimento suficiente no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) para solicitar inscrição no Conselho Regional de Medicina (CRM). O registro no conselho é obrigatório para o exercício legal da profissão de médico no Brasil.
A exigência de proficiência no Enamed consta em medida provisória assinada pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, nesta sexta-feira (19), em Divinópolis, Minas Gerais.
Validade
De acordo com o Ministério da Educação (MEC), a medida provisória entra em vigor imediatamente. No entanto, a exigência de proficiência na prova para o exercício profissional valerá apenas para quem ingressar na graduação de medicina a partir da data de publicação da norma no Diário Oficial da União.
O presidente do Inep, Manuel Palacios, afirmou que transformar o Enamed em política de avaliação e análise de competências dos estudantes de medicina representa um instrumento para monitorar a formação médica oferecida por instituições públicas e privadas de educação superior.
“Haverá um controle mais preciso da qualidade da formação oferecida pelas instituições, o que também ajuda o próprio estudante a escolher em que instituição vai se inscrever, onde vai se formar. Assim como, a medida provisória de hoje assegura à população serviços médicos de qualidade, praticados por um profissional que passou por um exame de proficiência.”
Enamed a cada seis meses
A medida provisória cria a política integrada para formação médica no país e estabelece que o Enamed será aplicado obrigatoriamente a cada seis meses pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), a todos os estudantes concluintes de cursos de medicina no Brasil.
O graduado que não obtiver avaliação satisfatória no Enamed poderá refazer a prova nas edições semestrais seguintes.
O Inep prevê que as provas sejam realizadas de forma descentralizada em todos os municípios que oferecem cursos de graduação em medicina. Segundo o instituto, o novo formato permitirá a comparação de resultados entre as edições.
Enamed e Revalida
A norma assinada pelo presidente também oficializa o alinhamento entre a formação médica nacional e internacional. Pela política, o Enamed substituirá integralmente a primeira fase, teórica, do Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos Expedidos por Instituição de Educação Superior Estrangeira (Revalida).
Com isso, médicos formados fora do país e graduados no Brasil serão submetidos ao mesmo exame. A mudança não alcança a segunda etapa do Revalida, composta por exames práticos em estações clínicas que simulam atendimentos reais.
O secretário de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, Felipe Proenço, disse em entrevista à imprensa que a avaliação de estudantes de medicina poderia estar sendo realizada desde 2015, como previsto no programa Mais Médicos, mas não teve continuidade em outras gestões federais.
Segundo Proenço, o Enamed representa a possibilidade de alinhar a graduação em medicina às necessidades do Sistema Único de Saúde (SUS) e da população.
“No ano passado, voltamos a ter um exame específico dos estudantes de medicina e pelas matrizes de elaboração dessas provas, que são feitas por uma comissão de especialistas. É possível utilizar o Enamed enquanto a prova teórica. que é a chamada a primeira etapa do Revalida.”
O Inep, responsável pela aplicação das duas provas, informou que médicos formados no exterior que já tiveram o diploma revalidado antes da entrada em vigor da norma estão dispensados de fazer o Enamed.
Avaliação durante o curso
Outra mudança prevista na medida provisória é a aplicação obrigatória do Enamed ao fim do 4º ano do curso de medicina.
Essa etapa terá caráter diagnóstico e formativo, com o objetivo de identificar deficiências de aprendizagem dos estudantes. A secretária de Regulação e Supervisão da Educação Superior do MEC, Marta Abramo, afirmou que o exame aplicado aos estudantes do quarto ano será útil tanto para as instituições de ensino reavaliarem suas propostas pedagógicas quanto para a regulação pelo poder público.
“As instituições de ensino podem reavaliar sua atuação pedagógica para melhorar a formação desse estudante para que este chegue ao final do curso com a as condições de exercício da profissão e para que seja aprovado no exame de proficiência, mas também vai trazer para o MEC insumos importantes para monitorarmos a qualidade desses cursos e poder agir quando necessário”, disse a secretária.
Qualidade dos cursos
A edição de 2025 do Enamed registrou que 99 cursos, o equivalente a 32%, obtiveram conceito Enade nas faixas 1 e 2. Nesses cursos, menos de 60% dos estudantes apresentaram desempenho considerado adequado no exame.
Esses cursos passaram por ações de supervisão e sanções, anunciadas em março deste ano, como a suspensão de novos ingressos.
Os resultados do Enamed divulgados em janeiro deste ano mostraram que 85% dos cursos municipais foram considerados insatisfatórios. Entre os 944 estudantes de instituições de educação superior municipais que participaram do exame de 2025, apenas 49,7% tiveram conceito proficiente.
Com a nova medida provisória, os órgãos de regulação estaduais e do Distrito Federal, responsáveis por cursos estaduais e municipais, também deverão adotar medidas de supervisão a partir de resultados insatisfatórios no Enamed.
Marta Abramo afirmou que, sem a medida provisória, não havia possibilidade de atuação federal sobre esses cursos. “Isso vai garantir também que o estudante que ingresse seja em um curso privado, público, estadual, federal ou municipal, tenha a garantia de que o Estado vai estar atuando para melhoria desse curso”.
Residências médicas
Desde a primeira edição, em 2025, o Enamed permite que os resultados obtidos pelos participantes sejam usados para ingresso em programas de residência médica de especialidades de acesso direto. Isso ocorre porque a prova do Enamed equivale à parte teórica do Exame Nacional de Residência (Enare).
Com a medida provisória, os resultados do Enamed poderão ser usados oficialmente para acesso à residência médica.
O texto da MP também cria o Sistema Nacional de Avaliação das Residências (Sinares), voltado à avaliação da qualidade dos programas de residência médica e da formação dos profissionais residentes.
Para operar a nova política, a medida provisória prevê a criação de uma comissão consultiva de acompanhamento do Enamed, com representantes do MEC, do Ministério da Saúde, do Conselho Federal de Medicina (CFM), da Associação Médica Brasileira e de entidades da sociedade civil.
Tramitação no Congresso
Felipe Proenço demonstrou otimismo em relação à tramitação da medida provisória do Enamed no Congresso Nacional para que o texto seja convertido em lei federal.
O secretário afirmou que a proposta do governo reflete o desejo da população e demandas históricas das entidades médicas. Ele citou pesquisa da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom/PR), segundo a qual 88% dos 2.017 entrevistados em fevereiro deste ano entendem que o Enamed deve ser obrigatório para que o graduado exerça a medicina.
“Quem é atendido por um médico quer saber se esse profissional teve qualidade na formação. Ao mesmo tempo, esta é uma demanda das entidades médicas que pleiteiam que haja um exame de proficiência.”
A expectativa do governo é que o debate legislativo aperfeiçoe o dispositivo. Proenço citou a tramitação do programa Mais Médicos no Congresso como exemplo de qualificação de uma política pública de saúde pelo parlamento.
“A medida provisória [da época] foi modificada, foi muito melhorada ao longo da tramitação no Congresso. Temos essa mesma expectativa de responder ao clamor da sociedade e também que a medida provisória possa ser aperfeiçoada para que seja convertida em lei.”
O Conselho Federal de Medicina informou à Agência Brasil que ainda não teve acesso ao teor da medida provisória para comentar a criação da política integrada para formação médica no país nem a representação do colegiado na comissão consultiva de acompanhamento do Enamed.
Inscrições abertas
A edição de 2026 do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica está com inscrições abertas até 29 de junho, exclusivamente pelo Sistema Enamed.
Saiba mais sobre o Enamed aqui.