INVESTIGAÇÃO

Mãe de juíza relata à polícia que médico teria antecipado atestado de óbito

Mariana Francisco Ferreira, de 34 anos, morreu dois dias após procedimento de coleta de óvulos em Mogi das Cruzes

Por Estadao Conteudo Publicado em 19/06/2026 às 18:05
A juíza Mariana Francisco Ferreira Reprodução / TJRS

A mãe da juíza Mariana Francisco Ferreira, de 34 anos, que morreu após realizar uma coleta de óvulos em Mogi das Cruzes, declarou à Polícia Civil que o médico responsável pelo procedimento, feito dois dias antes da morte da magistrada, já havia providenciado o atestado de óbito ao comunicar o falecimento da paciente.

Em depoimento, a mãe de Mariana afirmou que foi chamada ao Hospital e Maternidade Mogi Mater na manhã de 6 de maio. No local, recebeu a informação de que a filha havia sofrido duas paradas cardiorrespiratórias. Segundo ela, após comunicar a morte, o médico Maurício Ligabô, da Clínica Invitro Reprodução Assistida, teria dito: "Já cuidei do atestado de óbito e não esperei o tempo certo, para adiantar as coisas".

A mãe também relatou à polícia que estranhou a rapidez dos procedimentos para liberação do corpo. De acordo com o depoimento, depois de informar o óbito, o médico se ofereceu para ajudá-la com questões burocráticas e disse que poderia agilizar os trâmites.

"O que você precisar eu te ajudo, porque eu conheço muita gente em Mogi. Anota meu telefone particular. Eu posso agilizar tudo para você, pois conheço pessoas da funerária", teria dito Ligabô, conforme o relato da mãe da juíza.

Ela contou que chegou a procurar uma funerária para escolher um caixão, mas foi orientada a não prosseguir com o enterro antes da realização de exame necroscópico.

Depois de a família optar pela autópsia, o último contato com Maurício ocorreu no hospital, quando ele compareceu para assinar documentos relacionados ao exame. Segundo a irmã de Mariana, a advogada Luíza Ferreira, a mãe contou que, naquele momento, o profissional "não olhou nem na cara dela".

Juíza morreu dois dias após coleta de óvulos

No depoimento, a mãe afirmou que a filha deixou a clínica na manhã de 4 de maio reclamando de dores. Cerca de uma hora depois, Mariana passou a sentir dores nas costas e na região pélvica, vômitos, sensação de frio e sangramento vaginal.

Segundo o relato, o médico informou que uma artéria havia se rompido durante a coleta dos óvulos e precisaria ser suturada para conter o sangramento. A mãe disse que ele tentou realizar o procedimento antes da chegada do anestesista e que a sutura só foi concluída após a sedação de Mariana.

Depois disso, a paciente teve sangue coletado mais de uma vez. Ainda conforme o depoimento, uma enfermeira estranhou a coloração amarelada do material e disse que avisaria o médico.

Mariana foi levada ao Hospital Mogi Mater no mesmo dia. Como a clínica não disponibilizou uma ambulância para o atendimento, ela foi transportada pela própria mãe, acompanhada por uma enfermeira da clínica. No hospital, exames apontaram complicações, incluindo problemas renais.

Mãe acompanhou a filha durante a internação

A mãe da magistrada também descreveu episódios ocorridos durante a internação. Segundo ela, na noite de 4 de maio, presenciou dois profissionais de enfermagem rindo enquanto a filha reclamava de dores intensas. Ela afirmou à polícia que os funcionários faziam pouco caso das queixas da paciente.

Apesar disso, a mãe disse que uma das médicas responsáveis pelo atendimento demonstrava preocupação com a gravidade do caso e acompanhava de perto a evolução do quadro clínico de Mariana.

Duas médicas que atenderam a juíza no hospital informaram em depoimento à Polícia Civil que alertaram diversas vezes sobre a necessidade de uma cirurgia de emergência para tentar salvar a vida da magistrada.

Nos dias seguintes, segundo a mãe, Mariana apresentou palidez, lábios arroxeados, dores persistentes e agravamento do quadro clínico. Durante o período de internação no hospital, a paciente piorou, mas Ligabô negou várias vezes que ela precisasse passar por cirurgia.

A juíza morreu na manhã de 6 de maio, após sofrer duas paradas cardíacas e ter dois órgãos retirados durante cirurgia. O procedimento foi autorizado por Ligabô somente cerca de 28 horas após a entrada dela no hospital.

Em depoimento à Polícia Civil, um terceiro médico intensivista que atendeu Mariana afirmou que a autorização para a cirurgia ocorreu apenas após a equipe médica do hospital comprovar a presença de sangue na cavidade abdominal.

O Instituto Médico Legal concluiu que a causa da morte de Mariana permanece indeterminada e depende de exames complementares. A necropsia identificou hemorragia abdominal, coágulos e lesões na região pélvica, além de sinais de intervenções cirúrgicas realizadas depois do agravamento do quadro. Segundo o documento, havia cerca de 200 ml de líquido com sangue na cavidade abdominal da magistrada.

O exame também apontou necrose hemorrágica parcial no ovário direito e alterações em outros órgãos. Os peritos, no entanto, afirmaram que os achados não são suficientes para definir o que provocou a morte.

De acordo com relatos à polícia, duas intensivistas que atenderam Mariana apontaram presença de "líquido livre na cavidade uterina". Ligabô havia afirmado que a quantidade de líquido não era sangue, mas resultado do "hiperstímulo causado pelas medicações ovulatórias". "Mas essa condição é resolutiva e espontânea", disse o ginecologista responsável pela coleta.

A juíza via a maternidade como um projeto de vida e sonhava em gestar. "Ela estava bem ansiosa. Era um sonho bem grande ser mãe", contou a irmã.

O que dizem os envolvidos

A defesa da família de Mariana afirmou que "confia plenamente no trabalho da Polícia Civil de Mogi das Cruzes e espera que todos, que agiram em menor ou maior proporção em ações ou omissões que levaram a morte da juíza, sejam indiciados, processados e condenados pela justiça".

A defesa de Maurício Ligabô afirmou que "é equivocada a informação de que o atestado de óbito já estava pronto e entregue por ele à mãe. O atestado de óbito foi elaborado por uma junta médica: ele, uma intensivista e até uma advogada do hospital estava, como se faz em todo atestado de óbito".

"É importante destacar que neste momento tudo é muito especulativo e, portanto, é imprudente sair decretando hipóteses e sair procurando algum culpado como bode expiatório, sobretudo sem o laudo do IML, que irá esclarecer muitos pontos ainda em aberto. É precisamente nesses momentos de afobação e busca frenética por um culpado que é preciso impor mais cautela, até para evitar que a verdadeira causa da morte da Mariana não seja apurada em razão de especulações superficiais que colocam hipóteses vazias como fatos certos", declarou a defesa.

Sobre a constatação do IML e o quadro defendido por Maurício, a defesa disse que "a hiperestimulação ovariana era a afirmação dele bem inicial, no início da intercorrência. Com o decorrer da evolução do quadro ele foi em conjunto com os médicos na UTI formando uma avaliação mais profunda e inclusive recomendando a cirurgia".

A defesa também afirmou que o médico permaneceu no hospital para acompanhar o quadro da paciente. "É importante reafirmar que ele sempre esteve no hospital justamente para permanecer apurando o quadro dela em auxílio aos médicos do hospital, que nitidamente não estavam dando conta da situação e a todo tempo solicitavam o auxílio de Maurício, que inclusive levou um intensivista de fora do hospital para ajudar, o que reforça a deficiência do atendimento no hospital."

"Maurício prestará ainda muitas informações em seu interrogatório que colaborará para o desfecho correto e preciso sobre a causa da morte de Mariana, que é o que ele mais quer hoje", concluiu a defesa.

O Hospital e Maternidade Mogi-Mater informou que a paciente deu entrada com quadro de hemorragia aguda. "Diante da gravidade do caso, ela foi prontamente atendida pela equipe do pronto-socorro e encaminhada imediatamente para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI)", disse o hospital.

Segundo a rede hospitalar, desde a admissão, todas as medidas médicas e assistenciais cabíveis foram adotadas de forma incansável pelas equipes multiprofissionais, com o objetivo de estabilizar o quadro clínico da paciente.

"Como ela não havia realizado nenhum procedimento anterior no hospital, o médico responsável pela clínica foi acionado para acompanhar o caso e assim o fez, incluindo no procedimento cirúrgico realizado na terça-feira, 5. Apesar de todos os esforços empregados pela equipe hospitalar, infelizmente ela veio a óbito no dia seguinte", informou o hospital, ao lamentar a morte.