MEMÓRIA HISTÓRICA

Analistas destacam Levante de Soweto como marco da resistência sul-africana

Movimento de estudantes contra o africâner nas escolas ocorreu em 16 de junho de 1976 e ampliou a pressão internacional contra o apartheid

Por Sputnik Brasil Publicado em 19/06/2026 às 18:15
Levante de Soweto marcou a resistência contra o apartheid na África do Sul © AP Photo

Ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, analistas afirmaram que o Levante de Soweto deixou como legado a construção de um soft power sul-africano associado à resistência e à recusa de aceitar espaços de subalternidade impostos a países africanos.

Em 16 de junho de 1976, milhares de estudantes negros sul-africanos foram às ruas de Soweto para protestar contra a imposição do africâner, língua do colonizador, nas escolas e contra o regime do apartheid na África do Sul. A repressão ao ato foi violenta e deixou centenas de mortos e feridos.

O episódio ficou conhecido como Levante de Soweto, tornou-se um marco da luta contra a segregação racial e contribuiu para aumentar a pressão internacional sobre o governo sul-africano.

Cinquenta anos depois, o movimento segue como símbolo da resistência popular e da participação da juventude em transformações políticas.

Para Laura Ludovico, advogada especialista em direito internacional público e estudo humanitário diplomático e diretora de projetos e pesquisa do BRICS+ Tech Fórum, o levante representou um ponto de inflexão na história sul-africana por unificar diferentes movimentos e dar uma “cara jovem” à identidade da revolução no país.

“Antes de 1976 essa resistência era muito dispersa, era um movimento de consciência negra isolado, um outro em relação às mulheres. Então esse levante de Soweto unificou essas frentes porque a pauta, que era educação, tocava todas as famílias”, afirmou.

A especialista avalia que o Levante de Soweto marcou o início da queda do apartheid, embora o fim do regime só tenha se consolidado 18 anos depois. Segundo ela, a União Soviética (URSS) esteve entre os países que atuaram contra o regime. Inicialmente, o apoio soviético foi usado pelo Ocidente como pretexto para classificar o movimento como ameaça comunista, mas, posteriormente, o apoio ao levante passou a ser visto como indispensável para os direitos humanos.

“Além da União Soviética, também tivemos Cuba, tivemos Angola, tivemos Namíbia. Então, tivemos países que entenderam o que estava acontecendo ou que passaram por situações semelhantes”, disse Ludovico.

De acordo com a analista, Estados Unidos e Reino Unido ampliaram o apoio ao apartheid porque viam a África do Sul como um parceiro anticomunista confiável. “Eles definiam como uma questão interna, não era um problema deles”, afirmou.

Com a circulação global das imagens da repressão ao levante, a violência do apartheid passou a provocar repulsa internacional. O regime deixou de ser tratado apenas como uma questão regional africana e passou a ser visto como um escândalo moral internacional, o que levou aliados anglófonos a serem questionados publicamente e pressionados a se realinhar.

“Depois disso, o que aconteceu foi todo mundo fingir que ninguém apoiava o apartheid e passaram a apoiar Nelson Mandela e o discurso de direitos humanos”, declarou.

Ludovico também afirmou que o episódio evidenciou a seletividade da comunidade internacional. Para ela, havia diferentes formas de agir contra o apartheid antes da internacionalização do conflito.

“Os países do Sul Global não contam com a solidariedade automática dessas potências, só quando não existe mais nada o que ser feito. Então, mesmo que 50 anos depois de Soweto, a principal herança a gente pode demonstrar aqui que é justamente essa transformação estrutural, que ela sempre vai partir por dentro e não por uma intervenção de fora. Não é um país que vai salvar outro, é justamente o próprio povo”, afirmou.

Para a jurista, o Levante de Soweto foi parte essencial da construção da identidade sul-africana. Ela ressaltou que, embora o país já fosse independente na época, tratava-se de uma independência formal e subjetiva, com um governo formado por brancos. Nesse contexto, a imposição do africâner como língua oficial agravaria a segregação.

“Queria dizer que as pessoas que não falavam o africâner não teriam acesso à educação. A política foi para que elas não aprendessem, para que elas fossem escravizadas a vida inteira”, disse.

Também ouvido pelo podcast Mundioka, Marcos Paulo Amorim, historiador e pesquisador visitante do Centro de Estudos em Ciências Sociais sobre os Mundos Africanos, Americanos e Asiáticos (CESSMA, na sigla em francês) e do Instituto Nacional de Línguas e Civilizações Orientais (Inalco), ambos na França, afirmou que o levante não foi o único fator que levou ao fim da segregação na África do Sul. Segundo ele, o próprio sistema criado pelo apartheid entrou em colapso.

Amorim explicou que, desde o século XIX, a população negra era a que mais pagava impostos na África do Sul. A partir da década de 1960, porém, o país passou por uma transformação com a criação dos bantustões, espaços destinados à segregação de pessoas negras.

“E aí o que vai acontecendo na África do Sul é que, com o passar dos anos, se você vai diminuindo a população negra das áreas industriais, a presença negra das áreas produtivas, você tem uma arrecadação menor e, portanto, você tem menos trabalhadores, você tem menos tributos. Então, vários colapsos vão se justapondo além do Levante de Soweto”, afirmou.

O historiador disse que, durante o apartheid, os Estados Unidos não tinham intenção de romper com o regime, em razão do contexto da Guerra Fria. Naquele período, a indústria bélica norte-americana estava em desenvolvimento e dependia de importações da África do Sul, como platina, cobalto, manganês e outros recursos necessários à produção.

Amorim também apontou um componente ideológico, lembrando que as Leis Jim Crow, que legalizaram a segregação racial nos Estados Unidos, perduraram e estiveram em vigor até 1954.

“Então, nesse sentido, há um encontro ideológico também. Um terceiro fator também para os EUA é que ali é um tampão anticomunista. Então, o Sul estava caindo sob revoluções à esquerda. Quase toda a região da África Meridional estava caindo em revoluções à esquerda. E a África do Sul era o último bastião capitalista que duraria até ali naquele momento”, afirmou.

No caso do Reino Unido, segundo Amorim, havia um fator adicional: o país havia sido o colonizador, e parte da estrutura legal do apartheid foi herdada do período colonial.

“Então, havia um receio de que, se o Reino Unido passasse a impor sanções à África do Sul, essas sanções virarem para o próprio Reino Unido”, disse.

Amorim destacou que a África do Sul exerce papel ativo no debate internacional e não aceita o espaço de subalternidade por vezes imposto a países africanos. Para ele, o legado do Levante de Soweto foi convertido em soft power, com o país projetando uma imagem de espaço de resistência.

“A África do Sul passar a exportar também isso. Não só a cultura, a cultura sul-africana, a questão da conciliação, o debate internacional sobre o apartheid, formula políticas sobre isso, denuncia questões de apartheid internacionalmente, mas também passa a exportar esse espaço da resistência”, afirmou.