DEFESA NACIONAL

Nova fábrica da SIATT deve ampliar produção de mísseis no Brasil

Unidade em Caçapava terá participação do EDGE Group e foco em demandas das Forças Armadas brasileiras e do exterior

Por Sputnik Brasil Publicado em 19/06/2026 às 17:35
Fábrica da SIATT em Caçapava ampliará produção de mísseis para demandas de defesa © Foto / Agência Marinha de Notícias

Em um cenário de aumento dos investimentos globais em defesa e de tensões geopolíticas, o Brasil busca ampliar sua Base Industrial de Defesa por meio de parcerias internacionais.

Em entrevista à Exame, Rodrigo Torres, diretor financeiro do EDGE Group, multinacional emiradense que possui 50% da SIATT, empresa brasileira de tecnologia de defesa, afirmou que o grupo pretende ampliar sua capacidade produtiva até o fim do ano com a inauguração da maior fábrica de mísseis da América Latina, em Caçapava (SP).

A unidade terá foco no atendimento a demandas das Forças Armadas brasileiras e também do exterior. Entre os principais produtos está o MANSUP, Míssil Antinavio Nacional de Superfície, desenvolvido para a Marinha do Brasil como um dos programas estratégicos da indústria nacional de defesa. Outro produto será o MANSUP-ER, versão de maior alcance que pode ser utilizada em diferentes plataformas militares.

Com alto índice de nacionalização, o armamento tem como objetivo reduzir a dependência de componentes estrangeiros e ampliar a autonomia tecnológica brasileira.

À Sputnik Brasil, o professor do programa de pós-graduação em ciências militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), Rubens de Siqueira Duarte, afirmou que a parceria entre a SIATT e o EDGE se insere na estratégia brasileira de diversificação de parceiros na área de defesa, especialmente com países que não são tradicionalmente alinhados à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

O texto cita como outros exemplos duas importantes aeronaves da aviação militar brasileira: o caça F-39E/F Gripen e o cargueiro KC 390. Enquanto a aeronave de transporte resulta de cooperação com vários países, muitos deles fora da OTAN, o acordo com a sueca Saab para o desenvolvimento do Gripen foi firmado quando Estocolmo ainda não integrava a aliança militar.

Para Paulo Henrique Montini, pesquisador do Grupo de Pesquisa Estatística Aplicada e Computacional do Departamento de Estatística da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), esse tipo de cooperação fortalece a indústria de defesa brasileira ao permitir acesso a recursos e tecnologia sem abrir mão do controle sobre áreas estratégicas.

Segundo Montini, pesquisador do Grupo de Pesquisa em Conflitos, Estratégia e Inteligência da ECEME, a independência completa em defesa exigiria custos elevados e grandes desafios para acompanhar a fronteira tecnológica mundial. Por isso, parcerias desse tipo são consideradas relevantes. “Áreas sensíveis como as que o Brasil possui não podem ser simplesmente compradas por qualquer um no mercado hoje.”

“O que se deve fazer, é a cooperação com vistas a não perdermos o controle dessas tecnologias críticas, enquanto se abre o Brasil para participar das cadeias globais de fornecimento, com vistas a captar recursos para financiar nossa indústria de defesa.”

Além dos resultados no campo militar, investimentos em defesa também podem gerar impactos em diferentes setores da economia. Em muitos casos, é no uso civil que empresas do setor encontram apoio para sua sustentação. O texto cita o caso da Embraer, que superou desafios em seu caixa ao desenvolver produtos voltados à aviação civil.

No caso da SIATT, Montini avalia que a empresa pode cumprir papel semelhante ao criar os chamados efeitos de transbordamento tecnológico, especialmente em mercados de alta tecnologia, como o aeroespacial.

“Ela pode produzir produtos como sensores, inteligência artificial, eletrônica embarcada, navegação, telecomunicações.”

De acordo com a avaliação apresentada, parcerias internacionais podem contribuir para manter conhecimento e capacidade produtiva no país, desde que acompanhadas por políticas públicas de incentivo à inovação, como programas de pesquisa, bolsas de estudo e apoio à criação de startups.

Duarte, que também é coordenador do Laboratório de Análise Política Mundial (Labmundo), compartilhou à Sputnik Brasil uma visão semelhante.

Para ele, a nova fábrica representa um passo importante para o Brasil, inclusive em termos geopolíticos diante do acirramento das tensões mundiais. No entanto, o professor defende que iniciativas desse tipo sejam acompanhadas por investimentos na reindustrialização do país, com foco em pesquisa e tecnologia de ponta, além da recuperação do ensino público universal.

“Essas medidas estruturantes são necessárias para evitar que o investimento na Base Industrial de Defesa não seja perdido no médio ou longo prazo.”

Por Sputnik Brasil