SAÚDE MENTAL

SUS prepara ampliação de atendimento remoto para dependência em apostas

Estratégia deve receber cerca de R$ 70 milhões até o fim do ano e já reúne 6.912 usuários cadastrados

Por Agência Brasil Publicado em 19/06/2026 às 16:42
SUS deve ampliar atendimento remoto a pessoas com dependência em jogos de apostas

O Ministério da Saúde pretende ampliar, ainda este ano, os atendimentos por telefone e videochamadas para pessoas com problemas relacionados à dependência em jogos de apostas.

Conforme apuração da Agência Brasil, a estratégia atual de teleatendimento será reforçada por meio da Agência Brasileira de Apoio à Gestão do Sistema Único de Saúde (AgSUS), responsável por contratar empresas especializadas para ampliar a assistência gratuita a jogadores compulsivos.

O serviço voltado a jogos de apostas foi inaugurado em março deste ano, em parceria com o Hospital Sírio-Libanês. Após três meses, a iniciativa já registra 6.912 usuários cadastrados.

A ampliação do teleatendimento exigirá cerca de R$ 70 milhões em investimentos até o fim deste ano. A medida integra o plano de ações de prevenção, qualificação profissional e ampliação do acesso da população aos serviços da Rede de Atenção Psicossocial (Raps), implementado pelo ministério este ano para reforçar a assistência a pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas.

A pasta também vai aplicar R$ 6 milhões para custear uma pesquisa nacional inédita sobre os impactos dos jogos e apostas na saúde dos brasileiros. O objetivo é identificar os grupos mais prejudicados e os principais riscos da prática.

Segundo o ministério, as informações devem ajudar o governo a implementar ações e políticas públicas de atendimento e prevenção no SUS.

Recursos

Parte dos recursos necessários para executar o plano virá dos R$ 45,7 milhões, em valores não corrigidos, que a pasta recebeu em 2025 como destinação social das bets.

O montante repassado ao Ministério da Saúde no ano passado corresponde a 1% do Produto da Arrecadação de tributos pagos por empresas de apostas e por apostadores.

Em 2025, o Produto da Arrecadação total chegou a R$ 4,5 bilhões e foi dividido entre áreas como saúde (1%), educação (10%), turismo (28%), esportes (36%), segurança pública (13,6%), seguridade social (10%) e outras destinações (1,4%), conforme os percentuais definidos na Lei nº 14.790, de 2023.

Pela legislação, todo o dinheiro do Produto da Arrecadação repassado ao Ministério da Saúde deve ser usado em medidas de prevenção, controle e mitigação de danos sociais decorrentes da prática de jogos.

Questionado pela reportagem da Agência Brasil sobre se os R$ 45,7 milhões cobrem os gastos adicionais do SUS com o aumento da demanda por atendimentos a pessoas com problemas com jogos, o ministério informou não conseguir mensurar o custo dos atendimentos específicos. A pasta explicou que eles são prestados junto a outros serviços de média e alta complexidade da Rede de Atenção Psicossocial (Raps), que custaram aproximadamente R$ 2,5 bilhões somente em 2025.

Mesmo assim, o ministério afirmou que “a destinação social representa uma fonte relevante de financiamento, complementada com recursos do orçamento próprio da pasta”.

Como acessar

Atualmente, para acessar o serviço de teleatendimento em saúde mental do SUS, o interessado deve se cadastrar pelo aplicativo Meu SUS Digital. Para usar o serviço, é necessário baixar o aplicativo, disponível gratuitamente nas lojas Android, iOS ou na versão web, e criar uma conta Gov.br ou utilizar uma já existente.

O Meu SUS Digital também oferece conteúdos informativos sobre sinais de alerta, prevenção e impacto dos jogos na saúde mental.

A plataforma disponibiliza um autoteste validado por especialistas. Caso o usuário alcance, ao responder o questionário, um resultado indicativo de risco moderado ou elevado, será automaticamente encaminhado para o teleatendimento.

Em situações de menor risco, a pessoa será orientada a buscar apoio qualificado em Centros de Atenção Psicossocial (Caps) ou em Unidades Básicas de Saúde (UBS).

A Ouvidoria do SUS também está treinada e preparada para orientar sobre o tema. Os profissionais atendem pelo telefone 136, por teleatendimento, via formulário, WhatsApp ou chatbot no site do Ministério da Saúde. Todas as informações seguem as normas da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

Cartilha

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece os problemas com jogos de apostas como um comportamento potencialmente prejudicial à saúde mental, com associação direta à ansiedade, à depressão, a outros comportamentos compulsivos e ao risco aumentado de suicídio e autolesão.

No Brasil, o número de atendimentos pelo SUS de casos de jogo patológico e de mania de jogo e aposta cresceu 104% entre janeiro de 2018 e maio de 2025.

Do total de 10.553 ocorrências atendidas no período, 4.316 foram ambulatoriais e 6.237 na Atenção Primária à Saúde. Os registros mostram alta prevalência entre homens e pessoas de 20 a 49 anos, embora o crescimento de casos envolvendo jovens chame a atenção de especialistas.

O problema motivou uma série de iniciativas públicas. Em dezembro de 2025, por exemplo, o governo federal lançou a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, ferramenta que permite aos interessados bloquear o próprio acesso a todos os sites de apostas autorizados a funcionar no país.

Até o fim de maio, mais de meio milhão de pessoas já tinham recorrido à ferramenta.

Em janeiro deste ano, o Ministério da Saúde disponibilizou o Guia de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas, com o objetivo de orientar o acolhimento, o acompanhamento e o tratamento de pessoas afetadas por jogos e apostas. O material pode ser acessado no site do ministério.

Nesta sexta-feira (19), o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva assinou um decreto (nº 13.033) para reforçar o combate ao mercado ilegal de apostas. Entre outras medidas, o decreto estabelece que o dinheiro confiscado de bets ilegais poderá ser utilizado no combate ao crime organizado.