JUDICIÁRIO

Fachin prevê regras do STF sobre supersalários ainda em junho

Presidente do Supremo disse que julgamento deve definir normas de transição para limitar verbas indenizatórias no Judiciário

Por Agência Brasil Publicado em 19/06/2026 às 16:04
Edson Fachin defende regras de transição para limitar supersalários no Judiciário

O ministro Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou nesta sexta-feira (19) que a Corte espera concluir ainda em junho o julgamento sobre regras de transição para a limitação dos salários de servidores do Judiciário.

Segundo Fachin, o objetivo é estabelecer uma passagem entre o modelo atual, que admite verbas indenizatórias conhecidas como penduricalhos, e o teto definido pela Constituição, equivalente ao salário de um ministro do STF, atualmente em R$ 46.366.

“Devemos concluir o julgamento, se possível, ainda nesse mês de junho, que vai estabelecer um conjunto de regras de natureza transitória entre o regime dos subsídios, sempre respeitando, obviamente, o teto e as regras constitucionais”, declarou.

Para Fachin, as verbas indenizatórias preveem “um conjunto de possibilidades e, ao mesmo tempo, de distorções”.

As declarações foram dadas durante o seminário A Justiça do Amanhã, realizado no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. O evento é organizado pela República.org, organização da sociedade civil voltada à valorização do serviço público no país, e pelo Instituto de Desenvolvimento e Gestão (IDG), organização social responsável pela gestão de equipamentos culturais, entre eles o próprio museu.

Na abertura do encontro, Fachin foi questionado sobre como o Judiciário deve responder às cobranças da sociedade em relação ao cumprimento do teto salarial, que deveria ser aplicado a todos os servidores públicos.

Notícias relacionadas: Júri de PMs acusados pela morte de Gritzbach começa na próxima segunda; STF mantém condenações dos cinco acusados pela morte de Marielle; PGR se manifesta contra suspensão da Lei da Dosimetria.

>> Supersalários no Judiciário crescem 49,3% em 2024, mostra estudo

Decisão de março

O julgamento citado por Fachin é mais uma etapa do STF no esforço para fazer valer o teto constitucional. O ministro lembrou que, em março, a Corte limitou o pagamento de penduricalhos a integrantes do Judiciário e do Ministério Público em todo o país.

Conforme a decisão, indenizações adicionais, gratificações e auxílios deverão ser limitados a 35% do valor do salário dos ministros do STF.

O Supremo, no entanto, autorizou também o pagamento da parcela de valorização por tempo de antiguidade na carreira, que concede até mais 35%. Com isso, os vencimentos podem chegar a R$ 78,8 mil, 70% acima do teto.

>> Siga o canal da Agência Brasil no WhatsApp

Lei federal

Outra frente contra os supersalários apontada por Fachin é a elaboração de um anteprojeto de lei de alcance nacional para tratar a questão de forma estrutural. Segundo o presidente do STF, o texto deve ser apresentado ainda este ano.

“Nós temos como previsão para o mês de novembro deste ano já ter pronto um anteprojeto geral desta lei federal de caráter nacional para, estruturalmente, dar conta dessa realidade”, afirmou.

Fachin, que também preside o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), criou no STF um grupo de trabalho para mapear o tema e pensar em uma solução. Ele informou que o anteprojeto de lei está sendo construído com diálogo entre vários setores da sociedade. No fim de maio, o ministro se encontrou com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, para debater o assunto.

Para o ministro, a lei deverá responder à pergunta: “qual é a remuneração que a sociedade e o Estado brasileiro consideram adequada a pagar aos juízes do início da carreira até o fim”.

Ele comentou que a magistratura é uma profissão de vocação. “Queiram servir a sociedade e não se servir dela”, disse.

Fachin também afirmou que a lei federal terá efeito fora do Judiciário. “Temos essa circunstância de que uma definição nesse patamar vá se irradiar para as outras carreiras e é fundamental que seja assim”.

Portal com salários

Fachin admitiu que alguns casos de supersalários são “exorbitantes” e afirmou que outra iniciativa para ampliar a transparência da remuneração no Judiciário é a criação de um portal com informações sobre pagamentos.

“Vamos, em breve, colocar no ar esse portal que diga a respeito à remuneração dos 18 mil magistrados no Brasil, preservando, claro, dados pessoais sensíveis”, prometeu.

“A população tem o direito de saber, e o magistrado tem o dever de informar”, completou.

A medida deve avançar também para uma espécie de contracheque único, com a padronização das informações nas 27 unidades federativas do país.

O encontro no Museu do Amanhã reuniu presidentes de outros tribunais, como a ministra do STF Cármen Lúcia; o presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), Luiz Philippe Vieira de Mello Filho; a presidente do Superior Tribunal Militar (STM), Maria Elizabeth Rocha; e o presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Herman Benjamin, que participou por videoconferência.

Código de ética

Fachin também comentou a necessidade de o STF implementar outra iniciativa sugerida por ele: um código de ética para tratar de questões como a participação de integrantes da Corte em eventos e palestras.

A ministra Cármen Lúcia é a relatora do código, que passará pela apreciação dos demais ministros.

“Temos deveres de transparência mais elevados do que as demais pessoas e, portanto, temos o dever também de dar o exemplo”, afirmou.

A elaboração do código de ética no STF ocorre em meio às investigações sobre o Banco Master e às citações dos nomes dos ministros da Corte Alexandre de Moraes e Dias Toffoli.

Moraes já negou ter mantido conversas com o banqueiro Daniel Vorcaro em 17 de novembro do ano passado, quando o empresário foi preso pela primeira vez ao ser alvo da Operação Compliance Zero.

Toffoli deixou a relatoria do inquérito que apura as fraudes no Master após reportagens jornalísticas informarem que a Polícia Federal encontrou irregularidades em um fundo de investimento ligado ao banco. O fundo comprou uma participação em um resort que tem o ministro como um dos sócios.

Excesso de judicialização

No evento sobre o futuro da Justiça, Fachin criticou o excesso de judicialização no país. Segundo ele, os tribunais decidiram 44 milhões de processos no ano passado, mas outros 39 milhões chegaram aos juízes. O estoque era de 75 milhões de processos ao fim de 2025.

No STF, são 20 mil processos para 11 ministros, embora atualmente apenas 10 vagas estejam ocupadas.

Ele destacou que o Poder Público — União, estados e municípios — está presente em metade dos processos judiciais no Brasil.

“É preciso verificar quais são as razões de tantas demandas, e muitas delas extremamente repetidas”, apontou.

Fachin citou o exemplo de pessoas que precisam acionar a Justiça para obter o direito de fazer uma perícia médica. “Isso é algo incompreensível do ponto de vista do mínimo de razoabilidade”, afirmou.

IA na Justiça

Fachin afirmou ainda que tecnologias como a inteligência artificial devem ser aliadas do Judiciário.

“Pode automatizar tarefas repetitivas e liberar magistradas, magistrados, servidores e servidoras para atividades que exigem reflexão mais profunda”, disse.

O ministro ponderou, porém, que nenhuma tecnologia consegue “reproduzir plenamente a prudência, a empatia, a responsabilidade moral, a capacidade de discernimento e a sensibilidade diante da singularidade de cada caso”.