Jogadores com raízes familiares fora da Europa escolhem seleções do Sul Global
Especialistas apontam discriminação, pertencimento familiar, identidade pós-colonial e oportunidades esportivas entre os fatores que influenciam a decisão
Na atual Copa do Mundo disputada nos EUA, Canadá e México, ganhou destaque o movimento de jogadores que poderiam atuar por seleções europeias, mas decidiram defender os países de origem de seus pais. A escolha envolve diferentes aspectos, segundo especialistas ouvidos pela reportagem da Sputnik Brasil.
Carmen Rial, professora titular da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e coordenadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Estudos do Futebol Brasileiro (INCT Futebol), avalia que a decisão pode estar relacionada a fatores como a possibilidade de o atleta não ser convocado por uma seleção europeia e o preconceito estrutural enfrentado por esses jogadores em centros como a Europa, mesmo quando nasceram no continente.
“Esses jogadores ainda sofrem discriminação. Claro que, quando se tornam celebridades, isso diminui. Não acredito que o Lukaku [jogador de origem congolesa que atua na Bélgica] seja considerado congolês quando perde a seleção, porque já tem um nome. Mas é o caso de muitos outros. Acho que o fato de serem discriminados no país é uma das razões, sim, por escolherem seleções do Sul Global”, disse.
Luiz Carlos Rigo, professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e integrante do INCT, afirma que a presença de filhos de imigrantes em seleções europeias contribui, de certa forma, para enfrentar o preconceito. Segundo ele, isso ocorre principalmente com atletas de grandes clubes, que recebem tratamento diferente daquele destinado ao imigrante comum.
“Na Espanha, eu acompanhava lá [a dinâmica dos futebolistas]. Eles usam o termo ‘selecionado brasileiro’ que joga no Real Madrid. Tipo assim: o Neymar e esses jogadores, todos eles, principalmente os que jogam na primeira divisão, têm um outro tratamento”, comenta.
A escolha por uma seleção tem peso simbólico
Para Carmen Rial, optar por uma seleção nacional, capaz de representar a identidade de um país, é uma decisão de forte significado simbólico e que vai além da dimensão profissional. Entre os fatores envolvidos, ela cita a luta anticolonial, tema presente especialmente em países africanos.
“A escolha da seleção que se vai representar é muito significativa. Há jogadores que poderiam atuar por países onde nasceram e que optam por atuar por outras seleções. E há casos de irmãos que jogam em seleções diferentes. Um joga na África, outro na Europa. Tem a ver, sim, com uma consciência pós-colonial, uma consciência que revela a importância de um pertencimento aos países do Sul Global”, destaca.
Por outro lado, o número de atletas filhos de imigrantes em seleções europeias de países que foram potências colonizadoras no passado ainda é elevado. A especialista observa que esse cenário aparece com força na França, país que reúne uma ampla população de origem estrangeira em razão de seu histórico colonial.
“A gente tem, por exemplo, no Senegal: 70% da seleção foi formada na França, que escolhe jogar no Senegal, talvez por consciência política, talvez por pertencimento familiar, mas talvez também por uma oportunidade econômica. A gente não pode tirar essa parte. E econômico, que eu estou vendo, é no sentido mais largo”, observa.
Futebol evidencia contradições europeias sobre imigração
Rigo também analisa o imaginário de movimentos anti-imigração na Europa, que defendem uma suposta “pureza” regional. O pesquisador compara essa retórica a preceitos nazistas e afirma que o futebol contribui para desfazer essa ideia.
“Parte da Europa tenta se mostrar com uma certa pureza europeia. Me lembro um pouco aí, infelizmente, essa ‘pureza europeia’ um pouco do nazismo. Essa busca de uma etnia mais pura pode levar a esses extremos. E o futebol, com essa não característica de ‘onde eu nasci, o que eu sou exclusivo’, ajuda a diluir esse sentimento”, discorre.
Na avaliação do professor, o fato de jogadores nascidos na Europa defenderem seleções europeias e, ainda assim, não serem vistos como plenamente europeus por parte da opinião pública, revela uma questão complexa no centro da sociedade.
“O futebol tem isso: ele evidencia muito esse cruzamento étnico, faz uma espécie de ápice, a ponta de um iceberg, que já é a Europa toda. Então, nunca existiu essa Europa tão imaginada, e que muitos tentam defender, e que é o movimento contra os imigrantes. Nunca houve essa Europa. Os imigrantes sempre tiveram um papel muito forte”, conclui.
Ao mesmo tempo em que seleções europeias contam com o talento de filhos e netos de imigrantes para obter resultados nos gramados, oferecendo a eles uma aceitação muitas vezes provisória e utilitarista, parte da sociedade ainda resiste à integração plena fora do futebol. Já seleções de países do Sul Global recebem, em muitos casos, atletas que nunca estiveram em seus territórios, mas que mantêm identificação subjetiva com essas nações.
Por Sputnik Brasil