Juros longos avançam após comunicado do Copom
Curva local ganhou inclinação, apesar da queda dos Treasuries e do petróleo, com mercado avaliando sinalização sobre a Selic
Os juros futuros encerraram a sessão em alta firme nos contratos de prazo mais longo, enquanto a curva ganhou inclinação no dia seguinte à decisão do Copom. A leitura de parte do mercado foi de que o comunicado teve tom dovish, ao deixar aberta a possibilidade de novos cortes da Selic. O movimento doméstico contrastou com a queda dos rendimentos dos Treasuries e do petróleo.
No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 recuava de 14,302% para 14,235%. Já o DI para janeiro de 2028 subia de 14,562% para 14,700%. O DI para janeiro de 2029 projetava taxa de 14,765%, ante 14,594%, e o DI para janeiro de 2031 marcava 14,690%, contra 14,486% na quarta-feira.
A repercussão do comunicado do Copom foi o principal fator para o formato da curva desde a abertura dos negócios. As taxas a partir de 2029 abriram cerca de 20 pontos-base, em meio ao ceticismo do mercado sobre a convergência da inflação para a meta de 3%. Entre os principais vencimentos, apenas o DI para janeiro de 2027 apontava queda, movimento visto como ajuste, já que a curva ainda precificava alguma chance de manutenção da taxa até a véspera.
“As taxas estão subindo pela leitura de que o Copom está cometendo um erro na política monetária e terá de corrigir isso mais adiante”, resumiu um profissional do mercado.
O comunicado gerou controvérsia especialmente no trecho em que afirma que a trajetória necessária para assegurar a convergência da inflação, no horizonte relevante atual, o quarto trimestre de 2027, levaria a inflação projetada a partir do horizonte relevante vigente na próxima reunião, o primeiro trimestre de 2028, para baixo da meta. Com isso, o Copom considera menos danosas aos “agregados macroeconômicos” trajetórias alternativas que garantam a convergência da inflação à meta no primeiro trimestre de 2028.
Embora não tenha apresentado um guidance explícito, a avaliação no mercado é de que a antecipação do alongamento do horizonte relevante da inflação foi usada como forma de viabilizar o corte da Selic e manter aberta a continuidade do ciclo de calibragem, mesmo diante da desancoragem das expectativas e dos estímulos fiscais à atividade.
Para Ariane Benedito, economista-chefe do PicPay, esse é o ponto mais crítico do comunicado. “Ao indicar que ‘diferentes trajetórias de juros’ são compatíveis com a convergência da inflação à meta, e que projeções a partir do novo horizonte poderiam situar-se abaixo da meta, o Copom comunica que a régua para a interrupção do ciclo segue elevada, mas que a velocidade de chegada lá pode ser menor do que o mercado precificava”, avaliou. “Num ambiente de expectativas já desancoradas, essa leitura tende a adicionar prêmio”, completou.
O economista-chefe da Porto Asset, Felipe Sichel, observou que, “ao esticar o horizonte relevante, o BC passa a ideia da possibilidade de aceitar que a inflação ficará acima da meta”. Ele mantém, por ora, a expectativa de corte de 25 pontos-base da Selic em agosto e taxa encerrando 2026 em 13,75%. “Ficaram muitas dúvidas e os diretores terão duas oportunidades para se explicar na próxima semana”, acrescentou, em referência à divulgação da ata do Copom na terça-feira (23) e à entrevista coletiva sobre o Relatório de Política Monetária (RPM), na quinta-feira (26).
Na pesquisa Projeções Broadcast, entre 27 casas consultadas, 18 apostam em nova queda de 25 pontos da taxa básica em agosto, enquanto 9 esperam estabilidade. Para o fim de 2026, a mediana indica Selic em 14,00%.
Na curva a termo, o cenário é mais conservador. Perto das 16h30, a curva precificava 33% de chance de queda de 25 pontos na próxima reunião e 67% de probabilidade de manutenção, com Selic a 14,38% no fim do ano. O movimento indica apostas de aperto ao longo do segundo semestre.