MERCADO FINANCEIRO

Dólar avança para R$ 5,1752 com reação a Fed e Copom

Moeda americana fechou em alta de 1,32%, em meio à expectativa de juros nos EUA e à leitura do mercado sobre a política monetária no Brasil.

Por Estadao Conteudo Publicado em 18/06/2026 às 17:48
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O dólar subiu com força no mercado brasileiro nesta quinta-feira, 18, acompanhando o movimento da moeda americana no exterior. A valorização refletiu a incorporação da perspectiva de alta de juros nos Estados Unidos, após o tom mais duro adotado pelo Federal Reserve na quarta-feira.

Entre as divisas mais líquidas, o real teve o pior desempenho. A moeda brasileira também foi pressionada pelos ruídos gerados pelo comunicado do Banco Central, divulgado na noite de quarta, que ampliou o horizonte relevante da política monetária para justificar novo corte da Selic, mesmo diante da piora das expectativas de inflação.

A redução da percepção de risco geopolítico após a assinatura de memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irã, apesar da troca de farpas ao longo do dia, retirou força dos preços do petróleo, que permaneceram abaixo de US$ 80 o barril. Como parte da valorização recente do real havia sido associada à expectativa de melhora dos termos de troca com a alta da commodity, investidores podem ter desmontado parte do chamado “trade do petróleo” para realizar lucros.

Em alta desde a abertura dos negócios, o dólar à vista atingiu máxima de R$ 5,1902 no início da tarde e encerrou o dia com ganho de 1,32%, cotado a R$ 5,1752. A moeda americana acumula alta de 2,25% na semana e de 2,62% em junho, depois de avançar 1,82% em maio. No ano, as perdas, que chegaram a superar 10% no início de maio, agora estão em 5,72%.

Para o economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo, o principal gatilho para a depreciação do real foi o tom duro adotado pelo Fed. Ele destaca o compromisso explícito do novo presidente da instituição, Kevin Warsh, com a estabilidade de preços, afastando desconfianças sobre eventual interferência política na condução da política monetária.

“Warsh mostrou independência, apesar de ter sido indicado por Trump. O Fed se mostrou mais conservador do que a maioria do mercado esperava, com a maioria dos dirigentes passando a prever alta de juros neste ano”, afirma Galhardo. Segundo ele, o comunicado do Copom, classificado como “confuso”, pode ter contribuído para acentuar a queda do real.

Como esperado pela maioria dos economistas ouvidos pela Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, o Copom reduziu a taxa Selic em 0,25 ponto porcentual, para 14,25%. A decisão ocorreu mesmo com a elevação das projeções para a inflação no quarto trimestre de 2027, atual horizonte relevante da política monetária, de 3,5% para 3,7%.

O comitê ponderou, no entanto, que a trajetória atual da taxa de juros é compatível com o cumprimento da meta de inflação quando se considera o primeiro trimestre de 2028, período que passará a ser o horizonte relevante a partir da próxima reunião do colegiado, em agosto.

Para a diretora de macroeconomia para o Brasil do UBS Global Wealth Management, Solange Srour, o comunicado do Copom enfraquece a única âncora que o país tem hoje, a monetária. Segundo ela, embora o comitê tenha feito um diagnóstico correto ao mencionar a aceleração da atividade, os efeitos dos estímulos à demanda agregada e a piora das expectativas de inflação, “desfez toda a lógica hawkish” construída ao apresentar um cenário alternativo com foco no primeiro trimestre de 2028.

Na avaliação de Srour, na prática, o Copom demonstra “desconforto com a desaceleração da atividade que seria necessária para trazer a inflação à meta no horizonte original”, ainda que essa desaceleração seja “justamente o canal pelo qual a política monetária restritiva opera”.

“Uma coisa é certa: o custo para ancorar as expectativas e trazer a inflação para níveis mais baixos, que já era alto sem âncora fiscal, ficou mais alto ainda com essa comunicação de ontem quarta”, afirma Srour, em nota.

Termômetro do comportamento do dólar frente a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY subia mais de 0,70% no fim da tarde, aos 10,800 pontos, após máxima de 100,918 pontos, nos maiores níveis desde maio de 2025. A libra recuou mais de 0,66% após a decisão do Banco da Inglaterra (BoE) de manter a taxa básica de juros em 3,75% pela quarta vez consecutiva. O Dollar Index avança cerca de 1% na semana e quase 2% em junho.

O diretor da Wagner Investimentos, José Faria Junior, afirma que o risco global caiu com a reabertura do Estreito de Ormuz, mas a reação negativa do mercado à postura mais dura do Fed prevaleceu no mercado de moedas.

“O mais relevante será acompanhar a dinâmica do DXY, que ameaça reverter a tendência de baixa de longo prazo. No Brasil, o Copom mais dovish prejudica o real, e as commodities estão corrigindo a forte alta”, afirma Faria Junior. Ele ressalta ainda que a bolsa mostra sinais de fraqueza, o que pode contribuir para reduzir o fôlego do real.