Ibovespa fecha em leve baixa com ruído sobre Copom e migração para ações de IA
Índice chegou a subir pela manhã, mas perdeu força diante da cautela com a Selic, alta do dólar e fluxo para ativos americanos
O Ibovespa encerrou o pregão em leve queda nesta quinta-feira, 18, em movimento abaixo da alta observada em Wall Street. O índice foi pressionado pela falta de clareza sobre os próximos passos do Comitê de Política Monetária (Copom) e pela rotação global de ativos, com maior procura por ações de tecnologia e Inteligência Artificial (IA), enquanto a Bolsa brasileira tem composição mais concentrada em commodities.
No exterior, o noticiário foi menos adverso. O Irã confirmou aval para a assinatura de um memorando de entendimento com os Estados Unidos e para a passagem gratuita pelo Estreito de Ormuz, ainda que sob rotas e horários específicos.
Depois de atingir máxima de 169.542,37 pontos, com alta de 0,65%, pela manhã, o Ibovespa renovou mínima à tarde, aos 167.910,63 pontos, queda de 0,32%. No fechamento, reduziu as perdas e terminou aos 168.277,55 pontos, com recuo de 0,10%.
A melhora no fim do pregão ocorreu à medida que as ações da Petrobras viraram para o campo positivo, com alta de 0,14% nas ordinárias e de 0,73% nas preferenciais, em meio ao petróleo sem direção única. Vale também contribuiu, com avanço de 0,20%. Entre os grandes bancos, houve queda, com exceção do BB ON, que subiu 0,62%.
Embora o Copom tenha anunciado na quarta-feira um corte de 0,25 ponto porcentual na Selic, conforme esperado, operadores do mercado financeiro avaliam que a comunicação do Banco Central gerou ruído. O debate envolve a interpretação sobre se a autoridade monetária trata o centro da meta de inflação, de 3%, como um piso.
Chamou atenção no comunicado o trecho que menciona projeções de inflação "abaixo da meta" no primeiro trimestre de 2028, horizonte que só seria relevante na reunião de agosto, para justificar a flexibilização.
A diretora de macroeconomia para o Brasil do UBS Global Wealth Management, Solange Srour, afirma que o Banco Central sugere que "a meta de 3% funciona como piso efetivo, não como centro: desvios para cima são tolerados; desvios para baixo, ainda que hipotéticos, são evitados". Segundo ela, caso essa leitura se consolide, as expectativas podem deixar de se ancorar em 3%.
Pesquisa Projeções Broadcast indica que a comunicação reforçou a aposta em um último corte de 0,25 ponto porcentual na Selic em agosto. Economistas mencionam a expectativa de que a ata do Banco Central, prevista para a próxima terça-feira, 23, suavize o ruído deixado pelo comunicado, detalhando a leitura da autoridade sobre juros e inflação e mencionando o próximo horizonte relevante.
Enquanto isso, operadores de renda variável avaliam que é natural, especialmente diante do tom mais duro do Federal Reserve (Fed) na quarta-feira, haver retorno de fluxo estrangeiro para ativos americanos. Esse movimento também foi associado à alta do dólar no pregão.
"Acho que até por conta do Fed lá fora, o dólar global está mais apreciado. Vamos ter juros altos por mais tempo e isso pode atrair recursos para lá. Por consequência, impactou negativamente a Bolsa", afirmou o head de renda variável da Veedha Investimentos, Rodrigo Moliterno.
Ele destacou que o mercado brasileiro opera com volume baixo e dependente do investidor estrangeiro. Segundo Moliterno, há "um movimento de venda de emergentes, voltando para os Estados Unidos, principalmente para empresas de tecnologia e de IA". Ele observou ainda que o Ibovespa, diferentemente, tem peso relevante de commodities.
O petróleo fechou em direções opostas nesta quinta-feira, enquanto o mercado acompanhou o movimento de navios pelo Estreito de Ormuz após a assinatura do acordo entre Estados Unidos e Irã. A commodity teve volatilidade perto do fechamento e se recuperou das mínimas, enquanto o contrato do Brent passou a operar em alta.
O especialista em renda variável da Manchester Investimentos, Felipe Cunha, destacou o tom do presidente do Fed, Kevin Warsh. Mesmo com a decisão do Banco Central americano de manter os juros na quarta-feira, a comunicação indicou possibilidade de juros maiores à frente. Para Cunha, esse cenário, somado ao temor de pautas-bomba no Congresso brasileiro, faz o mercado doméstico operar com um "pessimismo dominado por um desânimo".
Moliterno, da Veedha Investimentos, também citou questões eleitorais e fiscais como pontos de atenção para o investidor, com viés mais negativo recentemente para a Bolsa.