ELEIÇÕES 2026

Eleitor independente ganha peso em disputa marcada pela polarização

Cientistas políticos avaliam que indecisos podem ser decisivos em uma eleição apertada, apesar da força dos polos políticos.

Por Sputnik Brasil Publicado em 18/06/2026 às 17:51
Legenda não informada no material original. © Foto / Rovena Rosa / Agência Brasil

Embora formem uma parcela menor do eleitorado, eleitores indecisos e independentes continuam no centro das estratégias de campanha em um cenário político cada vez mais polarizado.

No ciclo eleitoral de 2026, pesquisas indicam que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva abre vantagem sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Ainda assim, a tendência apontada é de uma disputa novamente apertada, na qual o eleitorado independente, que não se identifica necessariamente com a esquerda ou com a direita, pode ter papel decisivo.

Nas eleições presidenciais de 2022, o resultado foi o mais apertado da história. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi eleito com 50,83% dos votos válidos, enquanto o então presidente Jair Bolsonaro (PL) recebeu 49,17%.

A diferença de 1,66 ponto percentual foi ainda menor que a registrada em 2014, quando Dilma Rousseff (PT) derrotou Aécio Neves (PSDB) por 51,64% a 48,36%. Na ocasião, o candidato tucano contestou o resultado.

Jorge Almeida, professor de ciência política e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal da Bahia (UFBA), afirma à Sputnik Brasil que a disputa eleitoral no país está fortemente marcada pela polarização.

Segundo ele, o comportamento do voto é influenciado por dois fatores principais: valores e racionalidade pragmática. O primeiro reúne aspectos políticos, ideológicos, morais, religiosos e identitários. O segundo está ligado à avaliação dos resultados concretos apresentados por governos e candidatos.

Almeida avalia que, desde meados da década passada, houve fortalecimento do voto orientado por valores. Com isso, muitos eleitores passaram a julgar os resultados da gestão pública a partir de suas preferências políticas, e não o contrário. Nesse contexto, uma parte significativa do eleitorado não vota necessariamente a favor de um candidato, mas contra o adversário, no chamado voto de rejeição.

Esse processo reduziu o espaço do eleitor verdadeiramente indeciso, mas também tornou esse grupo ainda mais relevante em disputas equilibradas.

Para o cientista político Rodrigo Prando, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, muitos indecisos ainda não se sentem representados pelos principais nomes colocados para a disputa ou não conhecem suficientemente as alternativas apresentadas. Por isso, esse segmento pode influenciar diretamente o resultado eleitoral.

Prando afirma à Sputnik Brasil que a comunicação dos candidatos deve mirar esses eleitores que ainda não definiram o voto, já que apoiadores fiéis e adversários convictos tendem a ser menos suscetíveis à persuasão. “Há que se prestar muita atenção nessa fatia do eleitorado brasileiro”, afirma.

Na avaliação do cientista político, para conquistar esses votos, mais voltados a resultados do que à ideologia, os candidatos precisam apresentar uma visão de mundo clara, propostas concretas e capacidade de identificação com o eleitor.

O especialista observa que pesquisas indicam um cansaço crescente tanto do lulismo quanto do bolsonarismo. Ao mesmo tempo, pondera que a alta rejeição aos dois grupos acaba reforçando a própria polarização.

Esse ambiente, segundo Prando, dificulta debates programáticos e favorece uma lógica de confronto permanente, ampliada pelas redes sociais e pela formação de bolhas políticas cada vez mais fechadas.

“É como se os polos fossem tão poderosos que acabam espremendo aqueles que estão no meio. [...] Qualquer moderado acaba perdendo espaço.”

Para ele, a principal consequência desse cenário é a dificuldade de consolidação de candidaturas de centro ou de uma eventual terceira via. Prando avalia que a força política acumulada por Lula e pelo bolsonarismo segue comprimindo alternativas da direita, mesmo diante de sinais de desgaste do presidente e do senador.

Jorge Almeida apresenta avaliação semelhante. Para ele, as chances de crescimento de outros pré-candidatos da direita, como o ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema, e o ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado, são limitadas enquanto houver um candidato do bolsonarismo na disputa.