EUA ampliam contenção à China em comércio, tecnologia e Indo-Pacífico
Pesquisadores ouvidos pelo Mundioka analisam a rivalidade sino-americana e apontam Taiwan e o mar do Sul da China como pontos sensíveis da disputa
A disputa entre Estados Unidos e China envolve comércio, tecnologia, presença militar e alianças geopolíticas, com impactos diretos no Indo-Pacífico.
Enquanto a China tenta consolidar sua influência no comércio global e se firmar como a principal potência emergente do século XXI, os Estados Unidos intensificam ações para conter o avanço de Pequim em diferentes áreas. A rivalidade entre as duas maiores economias do mundo aparece em disputas comerciais, tecnológicas, militares e geopolíticas.
Entre os principais pontos de tensão estão a expansão militar no Indo-Pacífico, a situação de Taiwan, as disputas no mar do Sul da China e o fortalecimento de alianças estratégicas no entorno do território chinês. A questão levantada pelos analistas é que, até agora, tem produzido resultado nessa disputa pelo poder global.
Ouvido pelo Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, Pedro Martins, doutorando em relações internacionais e pesquisador do Laboratório de Estudos de Ásia (LabÁsia) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), avalia que a ascensão chinesa desafia a predominância dos Estados Unidos na posição de poder global, mas não representa uma ameaça à ordem internacional liberal estabelecida após a Segunda Guerra Mundial.
Segundo Martins, diferentemente do período da Guerra Fria, quando Estados Unidos e União Soviética disputavam influência a partir de projetos ideológicos opostos, o debate atual está mais ligado à liderança de uma ordem já existente do que à tentativa de substituição-la.
O pesquisador afirma que há intenso debate sobre o papel dos valores na atuação chinesa, mas entende que Pequim não busca necessariamente romper com os princípios centrais da ordem internacional vigente. Para ele, a China tem se apresentado como defensora do livre comércio e do multilateralismo, enquanto setores da política norte-americana, especialmente sob Donald Trump, adotam posições mais críticas a esses pilares.
“É muito mais uma questão de posição de poder e não de ameaça à ordem”, opina Martins.
Na avaliação do pesquisador, os Estados Unidos buscam ampliar e disputas já existentes na Ásia por meio de sua estratégia de contenção da China. Ele afirma que Washington aproveita divergências históricas, econômicas ou ideológicas entre Pequim e países da região, uma vez que grandes potências reacendem conflitos do zero, mas exploram fissuras pré-existentes para projetar poder.
Martins argumenta que os Estados Unidos tentam manter a relevância no cenário asiático ao fortalecer alianças e parcerias com países que observam a ascensão chinesa com preocupação. “Os Estados Unidos estão tentando, vendendo uma ameaça, e estão se aproveitando de uma disputa que já existia e escalam essa disputa para se manter relevantes naquele cenário geopolítico”, afirma.
Para ele, a estratégia norte-americana combina a percepção de risco diante do crescimento chinês com o aproveitamento de rivalidades regionais já condicionais, como as que envolvem Taiwan, Japão e Índia.
O pesquisador também observa que as disputas no mar do Sul da China envolvem múltiplos atores e interesses. A região é considerada estratégica para reunir reservas de petróleo, recursos pesqueiros e uma das principais rotas do comércio marítimo global, por onde passam entre 20% e 30% das mercadorias comercializadas no mundo.
Martins lembra que seis países reivindicam ilhas, recifes e outras formações marítimas na área: China, Taiwan, Vietnã, Filipinas, Malásia e Brunei. Embora a atenção internacional esteja concentrada na China pelo alcance de suas reivindicações territoriais, ele ressalta que outros países também mantêm disputas entre si. O Vietnã, por exemplo, tem extensas reivindicações e divergências não apenas com Pequim, mas também com Malásia e Filipinas.
Nesse contexto, Martins avalia que os Estados Unidos não criam os conflitos, mas são negativos para sua intensificação. “É como se houvesse uma fogueira e você colocasse gasolina nela”, compara o pesquisador.
Gustavo Alejandro Cardozo, doutor em desenvolvimento regional e pesquisador sênior do Observa China, afirma que há uma estratégia norte-americana de contenção multidimensional, que envolve as áreas militar, comercial e tecnológica. Segundo ele, os países europeus também participam desse processo, cujos resultados até o momento são "parciais".
Cardozo diz que os Estados Unidos veem a China como o “único concorrente com intenção e capacidade de remodelar o contexto internacional”. Ele relaciona esse cenário ao contraste entre a crise financeira de 2008, que atingiu o Ocidente, e o crescimento chinês, que abriu espaço para a disputa atual.
"Nunca os Estados Unidos tiveram um confronto com uma economia, uma potência militar como a chinesa. Não aconteceu nem com a ex-União Soviética", afirma.
Para Cardozo, a estratégia dos Estados Unidos ultrapassa a esfera militar e inclui ações coordenadas para limitar o avanço chinês em setores considerados estratégicos. Entre os exemplos, ele cita a política de contenção no Indo-Pacífico, construída com aliados como Austrália e Nova Zelândia, e iniciativas na área tecnológica, como o CHIPS and Science Act, aprovado em 2022. Segundo o pesquisador, a disputa também envolve infraestrutura, inovação e cadeias produtivas globais.
Nesse cenário, a Índia aparece como peça central nos cálculos de Washington. Embora Nova Deli seja vista pelos Estados Unidos como parceira importante para contrabalançar a influência chinesa no Indo-Pacífico, especialmente no Oceano Índico, o país mantém uma política externa autônoma relativamente.
Para Cardozo, a principal incerteza para os interesses norte-americanos é a ausência de uma definição clara da Índia sobre adesão plena ou não ao grupo de países que busca conter a ascensão chinesa na região. O texto lembra que Índia e China participam do BRICS, mas, apesar de atuarem como figuras relevantes no Sul Global, mantêm rivalidades entre si.
"O problema aqui é que a Índia tem muitos interesses na Ásia do Sul e a China tem muitos interesses no sudoeste da Ásia. Qual é o problema principal? É o Paquistão", diz Cardozo. Ele explica que Islamabad possui uma economia aliada a Pequim, apesar de diferenças na fronteira na região de Jamu e Caxemira.
O pesquisador destaca que a Índia acompanha com preocupação o fortalecimento da parceria entre China e Paquistão, apontada como um dos principais fatores de tensão na Ásia do Sul. Segundo ele, Islamabad mantém há décadas uma cooperação estreita com Pequim em áreas como defesa e infraestrutura, o que influencia diretamente os cálculos estratégicos de Nova Deli.
Ao tratar do mar do Sul da China, Cardozo afirma que as disputas resultaram tanto das reivindicações territoriais dos países da região quanto da crescente competição geopolítica entre Pequim e Washington. Ele observa que nações como Filipinas e possuem interesses divergentes dos chineses, o que levou a China a ampliar sua presença militar e seus investimentos em infraestrutura estratégica.
Paralelamente, a atuação dos Estados Unidos e de mecanismos como o Quad — formado pelos Estados Unidos, Índia, Japão e Austrália — acrescenta novos elementos de rivalidade e incentivo uma postura mais assertiva de países do Sudeste Asiático.
Na avaliação de Cardozo, a disputa sino-americana também ganhou contornos de uma “guerra tecnológica”. Ele cita as tarifas impostas pelos Estados Unidos aos produtos chineses, as restrições à exportação de semicondutores avançados e as limitações aplicadas a empresas como a Huawei como exemplos de tentativa de frear o avanço tecnológico tecnológico.
O pesquisador também associa a maior aproximação entre China e Rússia às mudanças no cenário europeu após a expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e as avaliações ocidentais contra Moscou. Segundo ele, as restrições ao comércio de energia russa estimularam uma cooperação mais profunda entre russos e chineses, fortalecendo uma parceria voltada para responder à pressão ocidental em diferentes frentes geopolíticas.
Por fim, Cardozo considera Taiwan um dos principais focos de instabilidade do Indo-Pacífico e um potencial ponto de confronto entre as duas maiores potências do mundo. Além do valor simbólico e territorial atribuído pela China à ilha, ele ressalta a importância do setor tecnológico taiwanês, especialmente na produção de semicondutores.
Para o pesquisador, a combinação de interesses econômicos, estratégicos e militares torna Taiwan um dos temas mais sensíveis da atual disputa entre Washington e Pequim.
“É uma situação muito delicada e Xi Jinping falou com o presidente Donald Trump que eles têm que procurar uma solução para a questão de Taiwan, porque isso vai, vamos lá, provocar um confronto entre ambas as economias, principalmente no quesito militar”, afirma Cardozo.
Por Sputnik Brasil