OPERAÇÃO VÉRNIX

Justiça aceita denúncia contra Deolane, Marcola e outros investigados

Influenciadora e líder do PCC passam a responder por lavagem de dinheiro e organização criminosa; defesas negam as acusações

Por Estadao Conteudo Publicado em 18/06/2026 às 15:32
Deolane Bezerra Reprodução / Instagram

O juiz Deyvison Heberth dos Reis, da 3ª Vara Criminal de Presidente Venceslau, recebeu nesta quinta-feira, 18, uma denúncia contra a influenciada Deolane Bezerra, o líder máximo do PCC, Marco Willians Herbas Camacho, outros três parentes de Marcola e o operador financeiro do grupo investigado na Operação Vérnix. Com a decisão, todos passam a responder pelos crimes de lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Deolane está presa desde 21 de maio na Penitenciária Feminina de Tupi Paulista, a 600 quilômetros da capital. Marcola cumpre pena desde 1999 e atualmente está custodiado na Penitenciária Federal de Brasília.

A defesa de Marcola, de seu irmão, Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior, e dos sobrinhos Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho e Paloma Sanches Herbas Camacho afirmaram que adotará todas as medidas processuais cabíveis para demonstrar a fragilidade da narrativa acusatória.

A defesa de Deolane, liderada pelo criminalista e professor Aury Lopes Jr., declarou que a influenciada é inocente, que seus rendimentos têm origem lícita e que ela não possui qualquer vínculo com o crime organizado.

Na decisão, o magistrado destacou trechos da investigação conduzidos pela Delegacia Seccional de Presidente Venceslau e a denúncia apresentada pelo promotor Lincoln Gakiya, do Ministério Público de São Paulo, para indicar a participação de Deolane Bezerra no suposto esquema.

Segundo o juiz, Deolane "atuava como receptora de valores ilícitos provenientes da Transportadora Lado a Lado, operada em benefício do PCC. Sua conta no banco foi utilizada para a coleta de depósitos fracionados oriundos diretamente da empresa de fachada, a mando de Everton ('Player'/'Temer'), agente financeiro de Alejandro".

De acordo com a decisão, uma análise dos relatórios do Laboratório de Tecnologia contra Lavagem de Dinheiro (LAB-LD) indicou movimentações de R$ 27.002.774,72 consideradas “incompatíveis com a capacidade econômica declarada”.

No despacho de 17 páginas que acolheu a denúncia, o juiz afirmou que “os relatórios identificam o emprego reiterado de técnicas de lavagem: uso de empresas interpostas, fragmentação e concentração de depósitos, integração de laranjas e inconsistências declaratórias de imposto de renda”.

"Os áudios enviados a um diarista indicam que Deolane mantinha valores pertencentes ao PCC em seus imóveis e nos imóveis de seus filhos. Além disso, a investigação apurou plano de reestruturação de empresas com transferência para fundos em Dubai, reconhecidamente associada à utilização de empresas de fachada para facilitação de lavagem internacional de ativos", diz o trecho da decisão.

Justiça menciona apreensão de carros de luxo

A decisão também cita a apreensão dos veículos de luxo de Deolane, entre eles um Mercedes-Benz AMG G63 4M e um Cadillac Escalade, ambos modelo 2024/2025. Segundo o magistrado, os bens indicam padrão patrimonial incompatível com os rendimentos lícitos declarados pela influenciada.

A investigação parceria ainda outros veículos vinculados a Deolane ou a empresas ligadas a ela, como um BMW X1 S20i M Sport e um Lamborghini Huracan EVO. Esta última é registrada em nome de Deolane Bezerra Holding Patrimonial Ltda., exceto que, segundo a autoridade policial, “reforça a suspeita de uso de estruturas empresariais para ocultar a real titularidade dos ativos”.

Sobre a Lamborghini, a aponta decisão sucessivas transferências de propriedade entre pessoas jurídicas. Antes de ser registrado em nome da holding de Deolane, o veículo teria pertencido à Ryan SP Holding Patrimonial Ltda., empresa ligada ao cantor MC Ryan SP, também investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro na Operação Narco Fluxo.

Decisão aponta Marcola como beneficiário de repasses

Apontado como líder máximo da maior facção do País, Marcola é descrito na investigação como “proprietário oculto da Transportadora Lado a Lado, conjuntamente com seu irmão Alejandro”.

"As provas indicam que Marco Willians foi o beneficiário final de parcela dos repasses financeiros operacionalizados pela transportadora, com depósitos documentados em seu favor. Os manuscritos apreendidos na Penitenciária II de Presidente Venceslau o apontam como a liderança que transmitia ordens para o grupo", registra a decisão.

Operação Vérnix foi deflagrada em maio

No dia 21 de maio, uma força-tarefa da Delegacia-Geral de Polícia e da Procuradoria-Geral de Justiça prendeu Deolane no condomínio Tamboré, em Alphaville, na Grande São Paulo.

Um dia após voltar de uma viagem a Roma, na Itália, foi influenciada por policiais. A investigação aponta que ela mantinha um “padrão reiterado de ostentação de bens de alto valor econômico, incompatível, em tese, com a capacidade financeira formalmente declarada”, ou que, segundo o investigador, “se mostra relevante sob a ótica da perseguição penal exposta aos crimes de lavagem de capitais e ocultação de patrimônio”.

Deolane, de 38 anos, decidiu-se a depor à Polícia Civil no dia 27 de maio. Durante uma audiência, realizada na Penitenciária de Tupi Paulista, a mais de 600 quilômetros da capital, ela passou calada, seguindo orientação de sua irmã, a advogada Daniele Bezerra, conforme a Polícia.

A postura surpreendeu os policiais porque, segundo a matéria original, a própria Deolane havia pedido para ser ouvida no inquérito. Um dia antes, sua irmã publicou nas redes sociais um desabafo escrito pela influenciada em carta de próprio punho: "Peço para ser ouvida, assim como foi pedido no momento da prisão. Nunca fui bandida."

A Polícia pretendia que Deolane explicasse a entrega de R$ 40 milhões em suas contas. A suspeita é de que o dinheiro tenha saído da caixa de um transportador de fachada de Presidente Venceslau, usado pela facção para ocultar ativos do crime organizado, especialmente do tráfico de drogas, apontado pela Polícia e pelo Ministério Público como uma das fontes de receita de Marcola e seus aliados.

O que diz a defesa de Deolane Bezerra

“A defesa de Deolane Bezerra, patrocinada pelos advogados Aury Lopes Jr., Josimary Rocha de Vilhena, Luiz Ricardo Rodrigues Imparato e Rogério Nunes, tomou ciência do recebimento da denúncia apresentada pelo Ministério Público, ato processual inicial que não representa qualquer conclusão sobre os fatos imputados.

A defesa afirma que utilizará todos os meios de prova necessários ao esclarecimento do caso, afastando qualquer alegação de ilicitude ou conduta criminosa, uma vez que seu cliente é inocente, seus rendimentos possuem origem lícita e regularmente declarada e Deolane não possui qualquer vínculo com o crime organizado.”

O que diz a defesa de Marcola e familiares

“Bruno Ferullo, advogado de Marco Willians Herbas Camacho, Paloma Sanches Herbas Camacho, Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho e Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior, vem a público informar que a denúncia oferecida em desfavor de seus constituintes no contexto da designação Operação Vérnix, na qual se imputou a suposta prática dos delitos previstos no artigo 2.º da Lei n.º 12.850/2013 (organização criminosa) e no artigo 1.º da Lei n.º 9.613/1998 (lavagem de capitais), foi recebido pelo Juízo da 3ª Vara da Comarca de Presidente Venceslau no dia 16 de junho.

A Defesa reitera que Marco Willians Herbas Camacho e Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior encontram-se custodiados em estabelecimento penal federal de segurança máxima desde fevereiro de 2019, submetidos a diversas restrições de contato e comunicação, o que, por si só, torna inviável qualquer participação nos fatos investigados e evidência o equívoco de acusação.

Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho e Paloma Sanches Herbas Camacho também refutaram integralmente as imputações formuladas. A Defesa destaca que o mero vínculo familiar com os demais denunciados não pode ser confundido com participação criminosa, sendo inaceitável que uma simples proximidade afetiva sirva de fundamento para uma acusação desta magnitude.

Quanto aos elementos de natureza patrimonial e financeira na denúncia, a Defesa esclarece que eles serão devidamente contextualizados no decorrer da instrução processual, oportunidade em que serão apresentados os esclarecimentos e as provas pertinentes sobre a origem e a regularidade das operações apontadas pela acusação.

A Defesa, diante da acusação apresentada, adotará todas as medidas processuais cabíveis para demonstrar a fragilidade da narrativa acusatória e a improcedência das imputações atribuídas aos seus constituintes, confiando que, ao final da instrução processual regular, a verdade dos fatos será devidamente confirmada pelo Poder Judiciário.”