Reconhecimento sanitário por Rússia e China amplia perspectivas para carne brasileira
Analistas ouvidos pela Sputnik Brasil avaliam que decisão pode fortalecer exportações do país para mercados da Eurásia
O reconhecimento do Brasil como território livre da febre aftosa por Rússia e China abre novas perspectivas para as exportações brasileiras de proteína animal, em um cenário marcado por novo tarifaço dos Estados Unidos e por restrições da União Europeia à carne do país.
A avaliação é de especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil. Para Beatriz Bandeira de Mello, doutora em relações internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a tendência é de aumento do fluxo desses produtos para o eixo eurasiático, diante das resistências impostas por Bruxelas.
“A gente acaba de sair da aprovação do acordo entre Mercosul e UE, um acordo por si só complicado, com ações protecionistas, principalmente do setor agrícola francês. Justamente [nesse momento] vem o contraponto de Rússia e China, dizendo que o país tem condições de exportar carne, o que representa a estratégia de expansão brasileira para mercados não só na Ásia, mas na Eurásia de modo geral”, afirmou.
Em nota oficial publicada no último dia 10, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, o Itamaraty, informou que a decisão do governo russo amplia as condições de acesso de produtos brasileiros àquele mercado, com impacto direto sobre as cadeias de proteína animal.
“A decisão contribui para ampliar as condições de acesso de produtos brasileiros ao mercado russo, com destaque para as cadeias de proteína animal, e reforça a posição do Brasil como fornecedor seguro, confiável e competitivo para os mercados internacionais”, informou o ministério.
Segundo José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), o Brasil tem condições de voltar a ocupar posição de destaque como fornecedor de proteína animal para o mercado russo.
“É um mercado de peso para nós. Estatisticamente, se a gente voltar ao passado há 50 anos, o Brasil era um grande fornecedor de carne para a Rússia. Naquela época não tinha a China [como importadora] ainda. Então, basicamente, a Rússia que fazia, às vezes, o nosso grande mercado consumidor, principalmente de carne”, comentou.
Moscou e Pequim podem abrir mercados regionais
Beatriz Bandeira de Mello avalia que a presença da carne brasileira na Rússia e na China, duas potências econômicas da Eurásia, também pode favorecer a aproximação com parceiros desses países na região.
“Eu estava lendo muito recentemente a própria questão da União Econômica Euroasiática, como ela conversa com outros mecanismos regionais. Então, é uma questão de diversificar e de posicionar esses atores. A gente fala muito sobre a Rota da Seda, que tem a liderança chinesa, de reposicionar esses países no centro dessas rotas comerciais, e o Brasil tem observado essas movimentações”, destacou.
Para o presidente da AEB, o reconhecimento do Brasil como livre da febre aftosa sem vacinação funciona como uma chancela internacional à qualidade da produção nacional de proteína animal.
“Isso é um aval para o comércio brasileiro, porque a partir desse momento todos que compram carne no Brasil sabem que têm garantia de que, mesmo sem vacina, a aftosa está controlada, ou seja, não há febre aftosa. Então, para o consumidor, é uma tranquilidade que ele tem ao comprar um produto”, observou.
Brasília intensifica relações com o Sul Global
Outro ponto destacado por Bandeira de Mello é a movimentação da política externa brasileira, especialmente no comércio exterior, em direção a uma atuação mais vinculada ao Sul Global e à aproximação com países que compartilham diretrizes e princípios semelhantes.
“O Brasil, a meu ver, a nível de política externa, se coloca como um país ativo do Sul Global. Isso envolve levar os interesses não só do país, mas também das alianças com países que têm compatibilidade de diretrizes e princípios. O que impede uma ruptura total com o que a gente está mais acostumado, digamos assim. Então, acho que a postura do Brasil tem sido a de manter uma certa equidistância entre esses polos”, concluiu.
No mercado internacional, a diversificação de parceiros é tratada como estratégica. Quando há sanções ou restrições por parte de um eixo político regional, a tendência é de aquecimento de mercados em outras regiões. Em um mundo cada vez mais multipolar, um determinado grupo de países já não consegue exercer a mesma influência direta de outros períodos.
Por Sputnik Brasil