MERCADO FINANCEIRO

Dólar fecha acima de R$ 5,10 após sinalização dura do Fed

Moeda norte-americana avançou 0,41% frente ao real, em meio à valorização global do dólar e ao aumento das apostas em juros mais altos nos EUA

Por Estadao Conteudo Publicado em 17/06/2026 às 17:54
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Depois de operar em queda durante a maior parte da sessão, o dólar ganhou força nas últimas horas de negociação e voltou a superar o patamar de R$ 5,10. O movimento acompanhou a valorização da moeda norte-americana no exterior, após o comunicado do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) e declarações do chairman Kevin Warsh em entrevista coletiva.

O tom mais duro adotado pelo Fed impulsionou as taxas dos Treasuries e reduziu o apetite por ativos de risco, como bolsas e moedas de países emergentes. Até o anúncio da decisão do BC norte-americano, o índice DXY, que mede o desempenho do dólar ante uma cesta de seis moedas fortes, registrava alta moderada. Após a fala de Warsh, o indicador acelerou, superou os 100,000 pontos e chegou à máxima na casa dos 100,500 pontos.

No mercado brasileiro, os reflexos foram imediatos, embora o real tenha se desvalorizado menos do que outras moedas emergentes, como o peso mexicano e o rand sul-africano. O dólar à vista inverteu o sinal e iniciou uma escalada na meia hora final dos negócios, renovando máximas sucessivas até atingir R$ 5,1217 no pico da sessão.

A moeda norte-americana encerrou o dia em alta de 0,41% frente ao real, cotada a R$ 5,1077, voltando a ficar acima de R$ 5,10 após três pregões. Com o resultado, o dólar acumula valorização de 0,91% na semana e de 1,28% em junho, depois de subir 1,82% em maio. No ano, as perdas passaram a ser de 6,95%.

O superintendente de câmbio do Banco Rendimento, Jacques Zylbergeld, avalia que a perspectiva de um dólar mais forte no exterior, diante da possibilidade de alta dos juros nos Estados Unidos ainda neste ano, tende a limitar o espaço para uma recuperação do real. Ele também observa que o ambiente doméstico ficou mais ruidoso, com as denúncias de envolvimento de políticos no escândalo do Banco Master e o aumento das preocupações fiscais, sobretudo diante da liderança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na corrida presidencial.

"O Copom tende a anunciar um novo corte da Selic hoje, mas adotar um tom mais duro, porque as expectativas de inflação vão piorar. Vamos ter ainda um juro muito alto e um diferencial grande em relação ao exterior. Mas é preciso ver como o mercado vai absorver essa nova postura do Fed", afirma Zylbergeld.

Como era esperado, o banco central norte-americano manteve a taxa básica de juros na faixa entre 3,50% e 3,75%. A decisão foi unânime. Na primeira reunião sob o comando de Kevin Warsh, o Fed divulgou um comunicado mais curto do que o habitual, mas com mensagem dura ao afirmar que a inflação permanece acima da meta, em parte refletindo o choque de energia, enquanto a economia segue em ritmo sólido, com crescimento do emprego.

No chamado gráfico de pontos, que reúne as projeções dos dirigentes do BC norte-americano para os indicadores econômicos, nove integrantes do Fed veem aumento da taxa básica neste ano, oito projetam manutenção e um espera queda. A ferramenta de monitoramento do CME Group passou a indicar mais de 60% de probabilidade de elevação dos juros em outubro deste ano.

Na entrevista coletiva, Warsh afirmou que o Fed buscará a estabilidade de preços, mas evitou fornecer um forward guidance. O chairman desconversou ao ser questionado se havia tido contato com o presidente Donald Trump, que o indicou para o comando do BC norte-americano em substituição a Jerome Powell, alvo frequente de críticas do republicano.

Trump, por sua vez, disse a jornalistas que o Fed pode elevar os juros neste ano. "Pode acontecer", declarou o republicano, acrescentando que Warsh é uma "ótima pessoa".

A economista Isadora Junqueira, da AZ Quest, destacou a menção do Fed à inflação elevada em razão do choque de energia e a promessa de Warsh, em sua primeira coletiva à frente da instituição, de entregar estabilidade de preços. Segundo ela, embora não tenha apresentado um forward guidance, o banco central norte-americano deixou claro que vai concentrar sua atuação na inflação, já que o emprego e a atividade continuam sólidos.

"Esse foi o ponto principal. É a primeira visão das mudanças que vamos ter com o Warsh. E tivemos também a revisão das expectativas de juros no gráfico de pontos, com nove membros esperando alta neste ano. Foi uma mensagem muito dura", afirma Junqueira.

A economista ressalta que o impacto da postura do Fed foi mais evidente no comportamento do DXY e das taxas de juros de curto prazo, com o retorno da T-note de dois anos superando 4,20%.