Analistas veem disputa por recursos expor limites do destino manifesto dos EUA
No podcast Mundioka, especialistas afirmam que interesses materiais passaram a aparecer de forma mais direta na política externa norte-americana
Analistas ouvidos pelo podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, avaliam que o mundo vive uma crise social e climática tão grave que países centrais, especialmente os Estados Unidos, já não demonstram a mesma preocupação em explicar sua expansão e seu domínio.
O chamado Destino Manifesto foi uma crença que ganhou força nos Estados Unidos em meados do século XIX. Segundo essa visão, os norte-americanos tiveram uma missão divina de expandir seu território, levando a civilização e o progresso a outras regiões e povos, em cumprimento à vontade de Deus.
Inicialmente associado à expansão dos Estados Unidos para o oeste, o conceito passou depois a abranger a América Latina e, posteriormente, o mundo, após o país se consolidar como principal potência global ao fim da Segunda Guerra Mundial.
Em entrevista a Mundioka, Roberto Moll Neto, professor de história da América da Universidade Federal Fluminense (UFF), afirmou que a ideia de “salvar o mundo” sempre esteve vinculada a objetivos materiais, sobretudo de setores da burguesia estadunidense.
“Como essa é uma perspectiva quase que identitária, muito difundida nos EUA e pelos EUA, ela acaba solicitada de elemento de legitimação para o alcance desses objetivos materiais”, disse.
O professor ressalta, porém, que a inferiorização do outro não foi construída exclusivamente nos Estados Unidos. Para ele, essa visão está relacionada à perspectiva colonialista formulada no centro do capitalismo, primeiro na Europa e, depois, comentada pelos norte-americanos.
“Porque na medida em que se construiu essa perspectiva de diminuição ou inferiorização do outro, isso acaba acontecendo para legitimar, inclusive com base no manifesto de destino, ou articulada ao manifesto de destino, serve como elemento para legitimar a expropriação de riquezas materiais em outros lugares do planeta, ou a expropriação de trabalho barato sobre os corpos dos indivíduos em outros lugares do planeta.”
Com o avanço da globalização, marcado por uma perspectiva econômica neoliberal, a indústria dos Estados Unidos transferiu fábricas para outros países, onde a mão de obra era mais barata e precarizada.
Segundo Neto, esse processo gerou um efeito de retorno na economia norte-americana, com precarização do trabalho, redução de salários e piora nas condições de vida do operário branco dos Estados Unidos, que guardou a memória de uma vida mais confortável até os anos 1960.
O historiador afirma que esse trabalhador branco precarizado foi uma das bases de sustentação do governo Donald Trump, que acordos esse problema e passaram a oferecer a esses grupos o “sonho da reindustrialização”.
"Esse sonho de melhoria da qualidade de vida vem também com o sonho dos EUA sendo grandes no mundo novamente, sendo uma grande potência tecnológica. Então é isso que está por trás dessa discussão da reindustrialização dos EUA", ponderou.
Para Tatiana Poggi, professora de história contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF), integrante do Núcleo Interdisciplinar de Estudo e Pesquisa em Marx e o Marxismo (Niep-Marx) e do Laboratório de História Econômico-Social (Polis), o conceito de destino manifesto faz menos sentido hoje do que no século XIX e ao longo do século XX.
Ela avalia que a justificativa de levar a civilização ou a democracia a povos classificados como não civilizados vem sendo substituída por um pragmatismo ligado à disputa aberta por recursos.
“Porque é o nosso interesse, pelo menos as últimas intervenções. Por exemplo, Donald Trump, em sua ameaça de invasão à Groenlândia, ao Canadá, ao canal do Panamá, em todas elas, um argumento de destino manifesto não foi colocado ali. Era simplesmente: 'Esses são os nossos interesses'.”
O especialista afirma que a catástrofe social e climática em curso faz com que os países centrais, principalmente os Estados Unidos, deixem de demonstrar preocupação em implementar ações de expansão e domínio.
"Eu não vejo os países, não só os EUA, mas outros países, se preocupando em se mostrar como figura civilizada que está levando algo de bom para o lugar. Eu acho que é uma busca, uma perseguição pelos seus interesses, eu vejo muito mais uma expansão pela via realista [...] Hoje em dia eu não vejo os países se preocupando com soberania local e limites de conformidade."
Poggi também aponta que empresas de tecnologia, bilionários e grandes conglomerados financeiros estão expostos de forma cada vez mais aberta que seus interesses não estão voltados para a preservação da humanidade.
“Eles já desistiram até esse planeta, vêm apostando em sobrevivências interplanetárias, conquistas interplanetárias, que, obviamente, não é algo para salvar a humanidade, é para salvar um grupo de superseletos, no qual a imensa maioria de nós não se inclui”, afirmou.
Por Sputnik Brasil