GEOPOLÍTICA

Analista aponta pressão dos EUA como fator de aproximação entre Brasil e México

Professora da UEMA avalia que cenário regional e afinidades políticas ampliam a cooperação bilateral entre Brasília e Cidade do México

Por Sputnik Brasil Publicado em 17/06/2026 às 11:55
Legenda não informada no material original. © Foto / Ricardo Stuckert/PR

A tentativa da Casa Branca de remodelar a Doutrina Monroe, que trata os Estados latino-americanos como parte de seu “quintal”, tem alterado o cenário geopolítico regional. Nesse contexto, Brasil e México, governados por lideranças que não se alinham automaticamente a Washington, vêm aprofundando suas relações.

Segundo Beatriz Naddi, professora da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), doutora em relações internacionais, mestre em Integração Regional da América Latina e integrante do grupo de pesquisa Observatório de Regionalismo, a pressão política dos Estados Unidos contribui para aproximar governos que buscam maior autonomia, como o brasileiro e o mexicano.

O contexto citado inclui a imposição política dos Estados Unidos, a adesão ideológica de países vizinhos à esfera de influência norte-americana e o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, por forças dos EUA.

“Com certeza, essa pressão vinda dos EUA pode ser considerada um fator de aproximação entre o Brasil e o México. De fato, são potências regionais com muitas semelhanças, por serem países com maior desenvolvimento industrial em comparação com seus vizinhos. No entanto, não se pode atribuir essa aproximação apenas a isso. Acredito que também há um contexto político-ideológico na contemporaneidade que influencia bastante”, disse Naddi, em entrevista à Sputnik Brasil.

Em meio a esse cenário, blocos como o Mercosul e a CELAC enfrentam impasses internos ligados às preferências ideológicas de seus integrantes. No caso brasileiro, o Planalto busca alternativas de cooperação mais ao norte, com países como a Colômbia, no âmbito sul-americano, e o México, em uma perspectiva latino-americana mais ampla.

“A partir do segundo governo de FHC [Fernando Henrique Cardoso], o Brasil reduziu o espaço geográfico estratégico da América Latina para a América do Sul. E, com essa fragmentação política do Mercosul, o Brasil busca outros parceiros mais ao norte. Isso pode levar a uma reinversão desse processo de sul-americanização, com o Brasil voltando a uma estratégia de valorização da América Latina, que está, inclusive, presente em nossa Constituição”, comentou.

Aproximação entre os países além da esfera política

Brasil e México têm características semelhantes, que incluem dimensões geográficas e culturais, além da presença de grandes empresas estatais, como Petrobras e Pemex. As duas companhias, segundo o texto, discutem uma parceria. Para a pesquisadora, esse movimento representa uma oportunidade para os dois países, especialmente em um momento de tensão geopolítica.

“A gente pode considerar isso como uma oportunidade de aproximação menos discursiva e mais prática entre os dois países, com suas duas grandes estatais de exploração de petróleo [Petrobras e Pemex]. Isso é ainda mais relevante considerando o conflito no estreito de Ormuz, toda essa escassez de petróleo e a dependência ainda comprovada do mercado internacional em relação ao petróleo”, destacou.

A professora também lembrou a visita do vice-presidente brasileiro, Geraldo Alckmin, ao México, acompanhada por uma comitiva de empresários brasileiros. Na ocasião, Alckmin também acumulava o cargo de ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Para Naddi, o episódio representa uma tentativa de ampliar a relação bilateral para outras áreas.

“Em agosto de 2025, houve a visita do vice-presidente Geraldo Alckmin ao México, onde foram firmados acordos de cooperação, além de todo esse aspecto diplomático, já alimentado nessa pressão constante dos EUA e os tarifaços que vão e voltam do Trump. Além disso, se pensarmos de uma perspectiva um pouco mais sólida, Brasil e México já contam com acordos de complementação econômica de bastante tempo”, observou.

Relação deve ser institucionalizada para se fortalecer

Para Beatriz Naddi, as mudanças na geopolítica e as alternâncias de governo podem afetar de forma significativa a relação entre países. No caso de Brasil e México, ela avalia que a institucionalização dos acordos e das iniciativas de cooperação é necessária para evitar que os vínculos fiquem sujeitos a mudanças políticas.

“Nas relações internacionais, a inconstância na manutenção de uma política externa coerente com as trocas de governo é muito frequente. Nesse sentido, o que esses governos têm de fazer para aproveitar o bom relacionamento momentâneo? Institucionalizar as relações. A conversa recente entre Lula e Claudia Sheinbaum, já apontando para um próximo encontro da comissão binacional, mostra esse esforço”, concluiu.

Com governos latino-americanos divididos entre o apoio à política da administração Donald Trump e a busca por soberania e diversificação em um mundo multipolar, as relações bilaterais passam a ter papel relevante. Segundo a análise, elas funcionam como alternativa prática diante dos impasses enfrentados por blocos regionais da América Latina em razão de divergências políticas internas.

Por Sputnik Brasil