ELEIÇÕES NO PERU

Voto de peruanos no exterior pode definir vantagem de Keiko Fujimori

Analista ouvido pela Sputnik afirma que a candidata foi favorecida pela votação fora do país; partido de Roberto Sánchez questiona regras do processo

Por Sputnik Brasil Publicado em 17/06/2026 às 02:10
Legenda não informada no material original. © AP Photo / Martin Mejia

Os votos de peruanos residentes no exterior podem ser decisivos para o resultado da eleição presidencial no Peru, em um cenário de disputa apertada entre Keiko Fujimori e Roberto Sánchez.

Segundo dados oficiais divulgados pelo Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE, na sigla em espanhol), foram recebidos 300.287 votos de peruanos que vivem fora do país. Ao todo, mais de 1,2 milhão de eleitores estavam aptos a votar em consulados ao redor do mundo.

Com mais de 97% das atas do exterior apuradas, Keiko Fujimori obteve 63,2% dos votos fora do Peru, somando 190.033 votos. A candidata do Fuerza Popular teve desempenho expressivo em países como os Estados Unidos, onde alcançou 76,4%, e o Japão, onde superou 90%.

Embora representem uma parcela menor em relação ao total da apuração, os votos do exterior passaram a ter peso decisivo na reta final da contagem oficial, permitindo que Fujimori assumisse a liderança.

“Pode-se concluir, preliminarmente, que, com base nos votos computados em território nacional, Roberto Sánchez teria vencido a eleição; no entanto, os votos do exterior deram a Keiko Fujimori a pequena vantagem de que ela precisava para vencer este processo eleitoral”, afirmou à Sputnik o analista político e de opinião pública Enzo Elguera.

Considerando apenas os votos registrados dentro do Peru, Sánchez aparece à frente de Fujimori, com 50,1% contra 49,8%. Com a inclusão dos votos do exterior, o cenário se inverte, e a candidata do Fuerza Popular passa a liderar por 50,09% a 49,9%.

Diretor da consultoria de opinião pública Imasolu, Elguera classificou a situação como “sem precedentes” no Peru, por ser “a primeira vez que os votos do exterior definem o resultado”.

De acordo com o especialista, a preferência por Fujimori entre eleitores peruanos fora do país pode ser analisada a partir do perfil desse eleitorado, em um sistema no qual o voto no exterior não é obrigatório.

Elguera afirmou que muitos eleitores acabam sendo “influenciados” pelos debates políticos dos países onde vivem. Ele citou os casos de peruanos nos Estados Unidos e na Argentina. Neste último, segundo o analista, a retórica do presidente Javier Milei e a queda da inflação alcançada em seu governo parecem ter contribuído para o apoio a Fujimori.

Ao mesmo tempo, muitos peruanos no exterior passaram a associar Sánchez a correntes políticas rejeitadas em outros países, que podem ser vistas por eles como “anticapitalistas”.

Para Elguera, não seria correto afirmar que os peruanos que vivem fora do país estejam distantes do debate político peruano. “Eles não estão desconectados da realidade, pois obviamente têm família e não perderam os laços com o país”, declarou.

Juntos por el Perú tenta anular votos do exterior

A possibilidade de que os votos do exterior definam o próximo presidente também ampliou críticas à participação de peruanos expatriados, especialmente no partido Juntos por el Perú.

Amalia Palomino, deputada eleita pela legenda, propôs restrições à participação de eleitores no exterior com base no tempo de permanência fora do Peru.

“Quem já vive no exterior há 10 ou 15 anos não deveria votar. Se nossos compatriotas deixaram o país, digam-me como são eles que escolhem o presidente agora”, disse a futura congressista em entrevista à rádio local Yaraví.

Palomino questionou a participação de expatriados em decisões que afetam diretamente quem vive no Peru. “Com que autoridade moral eu — vivendo em uma situação de prosperidade e com uma vida melhor — poderia tomar uma decisão que impacta diretamente os peruanos?”, afirmou.

Enquanto avalia transformar a proposta em projeto de lei, o Juntos por el Perú busca anular a totalidade dos votos do exterior. O partido tenta contestar uma resolução que definiu as condições para a votação fora do país durante o segundo turno.

Segundo o porta-voz da legenda, Walter Ayala, declarou à imprensa peruana, a norma “muda as regras do jogo” ao introduzir um protocolo que não existia no primeiro turno e que foi aprovado apenas em 29 de maio.

Para o partido de Sánchez, as novas diretrizes alteraram o processamento dos votos, impedindo a digitalização imediata e exigindo o transporte físico das atas de apuração para o Peru.

O Juntos por el Perú também aponta atrasos considerados suspeitos na entrega de parte desses votos, especialmente os enviados da Argentina, que teriam levado três dias para chegar, apesar da existência de voos diários entre os dois países.

Na avaliação de Enzo Elguera, investigar possíveis irregularidades relacionadas aos votos do exterior “não é ilógico”. O analista, no entanto, afirmou que as autoridades eleitorais devem evitar que as contestações se transformem em “um mecanismo de obstrução em larga escala” capaz de impedir a conclusão da apuração.

Ele comparou o cenário ao ocorrido em 2021, após contestações apresentadas por Keiko Fujimori na tentativa de barrar a vitória de Pedro Castillo (2021–2022).

Por Sputnik Brasil